Novo presidente quer conciliar conceitos de ISCAC e Coimbra Business School
Alexandre Gomes da Silva chega agora a presidente do Instituto Superior de Contabilidade e Administração de Coimbra (ISCAC), mas já com um vasto percurso de quase um quarto de século nesta instituição em que tem assumido vários outros cargos?
Desde 1999 que sou docente do ISCAC, após me ter licenciado em Matemática pela Universidade de Coimbra, com mestrado e doutoramento em Estatística, este último na Universidade de Reading em Inglaterra.
Nesta casa já fui presidente do Conselho Científico, logo em 2004, quando o dr. Pires de Carvalho, presidente do Conselho Diretivo, me convidou para dirigir Relações Internacionais. Depois fui coordenador institucional do ECTS, quando estávamos em pleno Processo de Bolonha, que só se concluiu em 2007. Nessa sequência adotou-se o nome do ISCAC em inglês, numa aposta mais forte nos programas Erasmus, que estavam no início.
Também fiz parte do Conselho Pedagógico e fui membro do Conselho Geral, nos mandatos de Torres Farinha e Rui Antunes; fui presidente do Conselho Científico e fiz parte da direcção da CBS de 2011 a 2013.
Depois criei o PolLab, que é um Centro de Sondagens e Estudos de Mercado, que coordeno, e em 2016 montámos o primeiro mestrado da região em Análise de Dados e Sistema de Apoio à Decisão.
O ISCAC é também conhecido como Coimbra Business School. Como é possível concliar estes dois conceitos?
Hoje confundem-se os termos ISCAC e Business School. Eu pretendo que se mantenham as duas marcas, sendo que Coimbra Business School nasceu como escola de pós-graduação e de cursos não conferentes de grau, pela mão do colega José Carlos Dias. Começou com quatro pós-graduações na altura, mas foi crescendo e foi-se tornando líder na região. Fui vice-diretor desse departamento do ISCAC em 2011. Depois, em substituição da colega Cidália Lopes, estive a dirigir até 2013. Hoje a marca tornou-se uma referência e tende-se a confundir com a escola ISCAC, mas essa é que comemorou os 100 anos e é uma marca que também se deve manter.
Essa dupla designação não causa confusão em certas situações?
Não é um problema, a nossa escola é o ISCAC, de que nos orgulhamos pela história e passado. Grande parte dos funcionários da autoridade tributária foram formados no ISCAC, bem como nos restantes ISCAs, que são quatro em todo o país e que têm um passado muito forte e muito presente, com grandes dinâmicas ao nível da contabilidade pública, da Ordem dos Contabilistas Certificados e da auditoria.
Assim, a Coimbra Business School é uma espécie de ponta de lança desta equipa que é o ISCAC, ou seja, está talhada para marcar golos decisivos. Tem uma posição mais flexível, mais adaptada às necessidades, seja de quem a procura, seja dos desafios que a região lhe coloca. Internamente podemos adaptar-nos e criar estruturas de acordo com os projetos que possamos ter em mãos, além de ser também uma boa porta de entrada dos nossos alunos no mercado de trabalho, através de projetos e formações imediatamente dirigidas ao mercado de trabalho.
Os três objetivos que sintetizou na sua candidaturas foram uma melhor qualificação do corpo docente, certificação dos cursos e internacionalização. Como vai atingir estas metas?
A qualificação do corpo docente tem como objetivo sermos uma referência nacional nas áreas a que nos propomos. Pretende-se um corpo docente – como já acontece em alguns casos – que dá pareceres, que está ligado à elaboração de normas e leis, que responde a solicitações de câmaras municipais e outras instituições e participa em programas nacionais. O reconhecimento pelas próprias ordens profissionais é muito importante, naturalmente, assim como a acreditação de cursos tidos como referência nas áreas do saber a que nos propomos.
Mas queremos ir mais longe: resolver o calcanhar de Aquiles que é a baixa produção de publicações e projetos associados a cada ciclo de estudos. Queremos que a acreditação seja feita na plenitude, com relevância, através das publicações e projetos de qualidade, que constituam um portefólio em que toda a comunidade – seja a científica, a técnica ou a sociedade em geral – reconheça a capacidade do ISCAC marcar a atualidade.
Esse desígnio vai implicar a mobilização dos docentes para mais trabalho de investigação?
É exatamente isso. Vamos trabalhar na motivação e na liderança. Isso passa por definir uma nova estratégia. Nos últimos anos houve uma aposta na diversificação da oferta da formação, o que, na altura, até deu os seus resultados. Mas ao diversificar a oferta, também os próprios docentes ficaram dispersos por várias áreas, o que tornou mais difícil uma produção do saber. Para isso, é preciso estar focado, ter menos disciplinas atribuídas, menor número de unidades curriculares, menos teses para orientar e menos alunos.
Portanto, reorganizando e reafectando a orgânica interna, vamos tentar trabalhar nesse foco, aproveitando a experiência, de forma a conferir uma marca de sucesso aos nossos cursos.
O sucesso pode ser medido pelo número de alunos que nos escolhem, e isso é uma meta que já atingimos – preenchendo mesmo o número total de vagas na primeira fase há vários anos, já desde a presidência do Dr. Manuel Castelo Branco – mas a verdadeira métrica de sucesso é libertarmos todas as vagas no final do ciclo de estudos de cada estudante. Isto é, que todos atinjam o seu diploma no tempo certo, com boas médias e com um bom horizonte de empregabilidade.
Isso é que é o sucesso. Não é o contrário: que os alunos entrem, mas que fiquem a marcar passo, ou que desistam, ou terminem o curso em muitos mais anos do que é a duração média.
Não será fácil encontrar esse equilíbrio entre professores motivados para a docência e focados, ao mesmo tempo, na investigação?
Esse é o desafio da direção e da organização. Organizar os planos curriculares e aproveitar as sinergias entre cursos que, se calhar, é a parte que menos otimizada está. É um processo que se faz passo a passo.
Qual é a dimensão atual do corpo docente?
Temos 55 docentes doutorados no quadro. A nossa ambição seria atingir o dobro deste número de doutorados. Para atingir este objetivo, a forma mais rápida seria por contratação, mas por formação dos docentes do quadro, só num prazo nunca inferior a três ou quatro anos. O total de docentes do quadro são cerca de 85, a que acresce um conjunto de cerca de 50 colaboradores externos, todos os semestres.
Como se posiciona o ISCAC no enquadramento do ensino superior em Portugal?
Há outros três institutos Superiores de Contabilidade e Administração: o de Lisboa, associado à Universidade de Lisboa; o do Porto, associado à Universidade do Porto; e o de Aveiro, associado à Universidade de Aveiro. Todos mantêm a sua matriz e continuam a ser muito reconhecidos nas áreas da contabilidade, auditoria e áreas conexas. Quanto a nós, estamos agora a apostar na transição digital, na análise de dados e nos sistemas de informação. Nessas áreas estamos a desbravar caminho, porque não eram áreas tradicionais do ISCAC, mas estamos a qualificarmo-nos.
Há ainda a concorrência do ensino universitário?
É diferente. A nossa matriz resulta do facto de sempre estarmos ligados às empresas e – pelo menos desde que nos tornámos ensino superior – ligados à formação de quadros da autoridade tributária e de gabinetes de contabilidade. Portanto, existimos numa base de responder a necessidades do mercado, seja na formação, seja na qualificação, sempre muito aplicadas ao tecido empresarial.
Entretanto, a oferta de cursos não pára de crescer?
É verdade. Foi assim que surgiu a formação em Solicitadoria, quando não havia cursos do género na região; a formação em informática de Gestão, que surgiu muito antes de ser falar em big data ou análise de dados; e o próprio curso de Gestão de Empresas que derivou da Contabilidade para a Gestão.
São cursos que resultam da própria evolução do tecido empresarial: há 40 anos as empresas não tinham licenciados à frente; muitas delas eram empresas familiares. Essa realidade mudou e nós acompanhámos.
Já em ambiente de digitalização, criámos o curso de Marketing, ou o curso de Comércio, ou o mestrado de Análise Dados. Esta formação tem uma visão diferente dos cursos universitários, que surgem a partir de uma base académica e científica, sem o enfoque da empregabilidade direta. São princípios diferentes, nem melhor, nem pior.
Qual a sua opinião sobre a possibilidade das escolas superiores se tornarem ensino universitário, como, aliás, defende a direção do Politécnico de Coimbra?
Estamos completamente alinhados com a presidência do Instituto Politécnico. Estamos de corpo e alma nesta instituição. Sobre essa questão, há vários exemplos noutros países, por exemplo em Inglaterra e EUA, onde as instituições de ensino superior evoluíram todas no mesmo sentido e hoje temos apenas universidades. Mas elas próprias são de naturezas diferentes. Com a qualificação do corpo docente e com o aumento de publicações e projetos, fica mais ténue a diferença entre politécnico e universidade, sendo que já existe uma colaboração ao nível de centros de investigação. Praticamente todos os colegas doutorados pertencem a centros de investigação de universidades e, por necessidade, todos os colegas doutorados o são pelas universidades. Por isso há uma grande ligação e não será estranho pensar nessa evolução natural, embora mantendo espaços distintos e com objetivos diferentes.
E quanto à possibilidade dos politécnicos conferirem grau de doutoramento?
A minha opinião é que o doutoramento é um grau de grande exigência, que corresponde a um trabalho de grande rigor e de acordo com critérios científicos rigorosos. Portanto, a haver uma acreditação para doutoramentos, mesmo que seja permitido aos politécnicos, penso que será através de consórcios, a mais longo prazo, entre instituições.
A internacionalização do ISCAC é outro dos seus objetivos?
Resultando da qualificação do corpo docente, julgo que é absolutamente fundamental a internacionalização do ISCAC, até porque o conhecimento não tem fronteiras geográficas, de forma a dar novos mundos ao mundo, como dizia o poeta.
A internacionalização permite-nos sermos ainda mais reconhecidos internacionalmente e que os nossos alunos passem a ter mais portas abertas no estrangeiro, permitindo-lhes mais empregabilidade, assim como recebermos mais alunos estrangeiros.
Nesse ponto há sempre a dificuldade de as aulas serem lecionadas em inglês?
Isso é também uma questão que se resolve com organização. No passado optámos por uma estratégia de diversificação na ligação à rede ERASMUS. Por isso somos procurados por alunos de países e naturezas muito distintas, o que resulta em muitos alunos de Erasmus, mas só com um ou dois a fazer cada cadeira, onde todos os restantes são portugueses. Assim, é difícil dar aulas em inglês só para aquele aluno. A solução é apresentar um cardápio em inglês de algumas das nossas 520 unidades curriculares e divulgá-lo pelos nossos parceiros. Assim, os alunos que vierem já têm a garantia dessa formação. Temos muitos docentes, tal como eu, que fizeram a sua formação no estrangeiro, com facilidade em dar a formação em inglês.
O subfinanciamento do ensino superior é um problema de décadas. Também se faz sentir no ISCAC?
O financiamento condiciona sempre a gestão, e em todas as áreas. É quase um lugar comum dizer que o orçamento condiciona sempre todas as atividades, mas eu penso que estamos numa escola onde poderá ser razoavelmente fácil conseguir multiplicar as fontes de rendimento.
Obviamente que lutarei sempre por um maior orçamento que venha do Politécnico, mas temos que ter alguma criatividade e inovação, como já tivemos no passado, e conseguir atrair para a escola o investimento de alguns parceiros e sponsors, que terão uma mais-valia em estarem associados a nós e às nossas formações. Temos que fazer por isso e eu, quando me candidatei, já sabia o orçamento que tinha.
As instalações são razoavelmente recentes mas ainda dão resposta ao crescimentio do ISCAC?
Desde a construção deste edifício onde estamos, há 25 anos, que está prevista a construção de um outro edifício ao lado. Todas as presidências têm estado envolvidas na exigência desse novo edifício, mas ainda não foi possível. Agora é premente, é obrigatório, até porque temos, como sempre tivemos, aulas em regime pós-laboral, incluindo mestrados em regime pós-laboral.
Nessas alturas temos um grande conflito de espaços e, portanto, precisamos urgentemente de mais espaço. A abertura para este objetivo revelada pelo prof. Jorge Conde, como presidente do Politécnico, permite-nos ter esperança em resolver esta questão, e vamos trabalhar em conjunto, para que o novo edifício se torne uma realidade durante este mandato. Vamos tentar uma candidatura ao PRR.
Como se posiciona o ISCAC na cidade?
Temos um compromisso com Coimbra. Acho que temos agora um presidente da câmara a fim de trabalhar com a marca da cidade que é o ensino superior. Penso que o Politécnico e o ISCAC, neste caso particular, devem contribuir para esta marca da cidade/escola, daquilo que se chama universidades cívicas na afirmação de Coimbra, em Portugal e no mundo.
Já tive conversas nesse sentido com o presidente da câmara, e a autarquia que é mais recetiva a estas ideias, o que, aliás, se constata pelas escolhas dos responsáveis para os diversos organismos, numa simbiose com o ensino superior. Penso que devemos promover mais Coimbra e Coimbra promover mais ensino superior
Quais são, em resumo, as forças do ISCAC?
É a sua própria história. O facto de se ter sempre sabido reinventar, em momentos mais fáceis, ou mais difíceis, mas sempre conseguindo encontrar o seu caminho, adaptando-se com grande rapidez às novas condições do mercado. Ou seja, é uma escola sempre jovem e é aí que eu vou buscar a motivação para esta nova fase, com a colaboração do corpo docente e não docente, que sempre souberam estar à altura, de que a recente fase da pandemia é um bom exemplo.
…e a maior fraqueza…
A maior fraqueza é ter um corpo docente quantitativamente deficitário. As pessoas que se reformaram não foram substituídas, mesmo com o número de alunos sempre a crescer. Portanto, estamos neste momento com um número de funcionários, docentes e não docentes, muito inferior ao que seria desejável. Somos a escola do Politécnico em que o rácio entre o número de alunos por docente e por funcionário é o mais elevado. Temos um docente por cada 48 alunos e um funcionário para 95 alunos, quando nas outras escolas é quase metade.
…e a maior ameaça…
A grande ameaça é a concorrência nacional e internacional que chegou com a globalização, através do online e concretamente do Zoom. São ferramentas que colocam na secretária de cada um as mais variadas formações, vindas de todo o lado. Daí que também seja necessária a qualificação, certificação e transição digital, de forma a estamos na linha da frente e sermos diferenciadores. A isto acresce a estrutura demográfica com a redução da população do país.
…e quais são as oportunidades…
As oportunidades são a transição digital aplicada aos cursos, com análise de dados, porque todas as profissões vão ter que estar preparadas para este ambiente digital. Estamos todos alinhados na linha de partida, mas bem posicionados para essa corrida.



Esta excelente entrevista do Presidente da CBS/ISCAC mostra, por si só, a razão pela qual esta Escola ganhou a merecida reputação de excelência. Não o digo por ser amigo do Prof. Alexandre Gomas da Silva – e admirador desta brilhante Escola Superior de Coimbra -, mas por me rever em muitas das realizações que os seus docentes têm implementado por toda esta Região. Continuem com o bom trabalho de sempre, para bem de todos nós.