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“Acho chocante uma banda demorar cinco anos a lançar um álbum”

10 de às 10h58
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Fotografia: Miguel Almeida

Victor Torpedo, membro da extinta banda conimbricense Tédio Boys, vai lançar em 2023 um álbum em cada mês do ano. O músico explica ao DIÁRIO AS BEIRAS as razões, os seus métodos e ainda faz uma radiografia ao panorama atual musical em Portugal.

Quando é que surgiu a paixão pela música?
Desde sempre. Eu nasci em 1972 e tive a sorte de os meus primeiros anos de iniciação terem sido no boom da new wave em Portugal. Bandas como Joe Jackson ou Pretenders estavam a chegar a Portugal quando era miúdo.

E quando é que começou a tocar?
Eu comecei na catequese (risos). Aliás, fiquei muito lixado porque no jogo Portugal – França, no Euro de 1984, em que o Platini nos está a tramar, eu não pude ver porque estava a cantar na catequese. Estava super irritado a cantar o “Milho Verde” de José Afonso porque só queria ir ver a bola.

Passados 38 anos dessa atuação na catequese vai lançar 12 álbuns num só ano. Porquê?
Eu até fiquei chocado com a exposição mediática que isto tem tido. A ideia veio porque estive fechado muito tempo durante a pandemia. Isso fez-me tocar e gravar muito.

Porque é que ficou chocado com toda essa exposição?
Eu não acho que seja incrível lançar 12 discos num ano. Eu acho é difícil e chocante uma banda demorar cinco anos a lançar um álbum. Eu não consigo trabalhar sem essa urgência. Esta urgência é muito à Variações, parafraseando-o “Só estou bem onde não estou”… Eu desde miúdo sofro disso.

E o seu processo de criação é rápido?
Sim. Sou muito rápido no processo de criação e acumulo muita coisa. Às vezes começo uma coisa de manhã e à noite tenho um álbum feito, com os instrumentos todos gravados e com as letras. Sou um bocado compulsivo neste processo. Ainda por cima, são álbuns com todos os instrumentos.

Com um processo de produção tão rápido perde muita coisa?
Já perdi muita, mas muita, coisa. Eu mandei a ideia ao Rui, da editora Lux Records, de lançar estes 12 álbuns porque tinha muita coisa gravada e não a podia perder. Quando ele disse que sim, fui confirmar o que tinha gravado e percebi que tenho muito mais de 12 álbuns. Depois destes vão ter que sair mais dois discos duplos ou dois triplos. Esse processo de produção é muito pessoal.

“Eu só consigo avançar e produzir outra coisa quando existir um objetivo físico. Eu nem preciso que as pessoas o ouçam, eu só preciso que haja um CD legal, com capa e tudo”

Fotografia: Miguel Almeida

Porque é que sente a necessidade de os lançar publicamente?
Eu só consigo avançar e produzir outra coisa quando existir um objetivo físico. Eu nem preciso que as pessoas o ouçam, eu só preciso que haja um CD legal, com capa e tudo. Se o Rui me dissesse que só fazia 10 exemplares por álbum, não havia problema.

Já conseguiu gravar e editar os álbuns todos?
Alguns já estão gravados, mas editados e misturados não. Esse trabalho faço em conjunto com o meu amigo João Rui. Temos uma relação muito osmótica. Eu mando-lhe as músicas e ele em segundos percebe os pequenos toques que eu quero.

De onde surge essa inspiração?
Eu trabalho muito no erro. Não tenho propriamente uma agenda do que quero fazer. Posso, por exemplo, estar em casa e ouvir uma batida muito estranha e começo a pesquisar esses sons e a trabalhá-los.

Com tanta gravação, como é que percebe se os álbuns estão prontos?
Eu vejo a música como vejo a pintura. Eu quando faço música e pintura, faço sempre algo que gostaria de ter em casa. Quando lanço o álbum é porque o queria ter em casa. Há muitos discos que eu gravo em estúdio e que não saem porque eu acabo por não gostar.

Se conseguirmos moldar os álbuns em estilos musicais, o que é que aí vem?
Vai ser uma variedade de estilos. Vai haver rock and roll, new wave, punk e pós-punk. Mas vou lançar um álbum de reggie dub, só de instrumentais. Tenho também dois álbuns que são feitos a partir de duas bandas sonoras de dois filmes. Faço ainda um álbum com um estilo ambiental.

Como é que vai tocar os álbuns em concerto?
Provavelmente vou tocar algumas músicas de cada um dos álbuns. Eu estou a trabalhar com os Pop Kids e mesmo assim é impossível conseguir tocar algumas músicas desses álbuns em concerto. Eu não produzi os discos com eles, mas temos andado a ensaiar. Mas hoje em dia tenho sorte por ter a Lux Records…

Porquê?
Porque a Lux me deixa trabalhar com este grau de velocidade, porque senão “flipava”. No tempo dos Tédio Boys era um inferno. Antigamente era muito difícil gravar um disco. Nós tínhamos músicas em 1989 que só saíram em 1993. Aliás, esta urgência tem feito com que as bandas acabem.

Acha que a forma como a indústria musical trabalha faz com que muitas bandas terminem?
O processo está todo errado. Antigamente as bandas tocavam as músicas constantemente e só gravavam muito depois, já as músicas eram conhecidas dos concertos. Agora é o contrário, as bandas agora gravam álbuns antes de tocar ao vivo. Claro que depois os primeiros concertos correm mal e não têm ninguém a ver. Um bom exemplo de como deveria ser é a música “A minha Casinha” dos Xutos e Pontapés. Eles tocavam a música desde o início dos anos 80 e a música só sai em 1988. Depois, claro, que a música teve um boom total.

“As bandas de rock and roll que tocam em Portugal são loucas. Está-se tudo a borrifar para as bandas de rock and roll. Ter 30 pessoas no público é uma grande casa nos dias de hoje”

As bandas sofrem com esse primeiro impacto negativo do público?
Claro que sim, e os miúdos ficam desmotivados. Aliás, hoje em dia, as bandas de rock and roll que tocam em Portugal são loucas. Está-se tudo a borrifar para as bandas de rock and roll. Ter 30 pessoas no público é uma grande casa nos dias de hoje. Nos anos 90 teres 100 pessoas num espetáculo era péssimo…

A si também lhe custa esse impacto?
A mim já não me custa. Toco com a mesma motivação para 30 pessoas ou para três mil. Mas também já passei por muito.

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