Futebol: Duas vidas dedicadas ao Ala-Arriba
3 de outubro de 1963. Ano de fundação do Ala-Arriba. Em 2023, o clube celebra 60 anos e dois homens são testemunhas vivas da sua história. O atual presidente, João Roça (de 61 anos) e o agora membro honorário da assembleia geral João Fresco (de 91 anos), são dois rostos que dedicaram grande parte do seu tempo ao Ala-Arriba.
Emocionados e entusiasmados, Fresco e Roça recordam bons e maus momentos, mas não escondem o orgulho de nunca terem deixado o clube do coração para trás, mesmo quando o fim era iminente.
O atual sócio número 1 do Ala-Arriba, João Fresco, apaixonado pelo futebol e pela literatura, revela a sua admiração pela vida e pelo associativismo. Ao DIÁRIO AS BEIRAS, o também sócio honorário do clube de Mira faz uma breve apresentação: “Durante a minha vida, estive sempre ligado ao associativismo. Sou fascinado. Gosto de escrever e ler. Amo relembrar o passado porque existem muitas histórias engraçadas. Digo sempre aos meus herdeiros para que não deitem nada fora”.
Primeiros toques numa bola de trapos
João Fresco recorda ainda os primeiros tempos de outra paixão da sua vida, o futebol. “Eu ainda me lembro dos primeiros toques numa bola de trapos que a minha irmã fazia. Jogávamos num campo que tinha um lago e acabávamos a tomar banho”, disse.
Nunca foi profissional mas nunca se afastou da modalidade. Só tarde, na sua vida, viu surgir o nascimento daquele que viria a ser o seu clube.
Conciliando as paixões do futebol e do associativismo, João Fresco tornou-se sócio do Ala-Arriba: “Não entrei logo na direção mas estou ligado ao clube desde a fundação. Era o sócio número 43. Os outros já desapareceram e agora sou o número 1”.
Passados anos acabou por receber um convite para ingressar na direção do Ala-Arriba. Entre vários cargos, João Fresco foi diretor, presidente do conselho fiscal, vogal, secretário, presidente da direção, vice-presidente da direção, presidente da assembleia geral e vice-presidente da assembleia geral.
Hoje, é membro honorário da assembleia geral. “Já não faço praticamente nada no clube e já não venho tantas vezes. Tenho estado muito confinado. Já não faço aquilo que quero mas sim aquilo que consigo”, confessa.
João Roça foi de jogador a presidente
Já João Roça começou como jogador do Ala-Arriba aos 7 anos. Nos juniores conseguiu o título de campeão distrital. Passados alguns anos saiu do clube e teve passagens por outros emblemas. O seu regresso aconteceu em 2002.
“Ingressei numa missão de ajudar o clube a equilibrar as contas, visto que as coisas não estavam fáceis. Jogadores e treinadores tinham ações em tribunal contra o Ala-Arriba, por falta de pagamentos de salários, entre outros pontos. Nessa altura passei de imediato de jogador a presidente, com mais meia dúzia de indivíduos”, conta, acrescentando que “o clube chegou a ter 300 mil euros em dívidas”.
“Até às portas fomos pedir”
A ajuda do município e da junta de freguesia, assim como a colaboração de um advogado, ajudaram a minimizar as dívidas. “Tivemos que arregaçar as mangas até porque tínhamos o estádio hipotecado. Até às portas fomos pedir. Ou pagávamos ou ficávamos sem estádio. Foi uma altura complicada da minha vida. Se na altura não fosse funcionário público, tinha estragado a minha vida. Era tribunais todas as semanas”, explica, emocionado.
Em cinco anos, o Ala-Arriba conseguiu saldar todas as dívidas e uma nova história começava do zero no concelho de Mira.
Depois do trabalho feito, João Roça estava para ir embora mas não faltou quem o tentasse demover.Ficou mais um ano senão o Ala-Arriba tinha que fechar as portas. “Ninguém queria assumir, todos tinham medo”.
O clube tinha equipas nos escalões jovens (exceto juniores) e uma equipa sénior na 1.ª divisão distrital. “Por acaso nesse ano, o Ala-Arriba foi campeão. Passei do pior momento da minha vida para um dos melhores”, relembra, apontando para a taça, com nostalgia e felicidade: “Eu costumo dizer que esta é minha”.
Regresso uma década depois
Era o momento de sair e de dar lugar a outro. Uma década depois, em 2017, os pais de alguns jovens de formação contactaram o atual presidente. E este aceitou voltar ao Ala-Arriba. “Em casa caiu uma bomba”, lembra.
A existência de uma escritura pública para a renovação do estádio foi um grande impulsionador do regresso. “Ou andávamos com a escritura ou já não tomava posse. Tivemos várias reuniões no município, que cedeu e achou que se deviam fazer a bem estas obras. Em 2019 começaram. Ainda têm algumas para fazer. Nem que seja a ultima coisa que eu faça aqui”, disse.
As pessoas passam e o Ala-Arriba mantém-se
A dedicação de Roça é elogiada por João Fresco: “Tenho apreciado o trabalho deste homem. Não sei como é que ele teve coragem para lutar tanto. Eu admiro-o”.
João Roça e João Fresco não têm quaisquer dúvidas de que o clube lhes “pertence”. As duas figuras máximas do clube desejam o melhor para o clube do coração e não têm dúvidas: “Os dirigentes, os atletas e os treinadores passam, mas o Ala-Arriba mantém-se”.


