CoimbraGeral

Manuel Pureza: “Gostava de olhar para Coimbra como um exemplo na cultura”

16 de às 10h55
1 comentário(s)

Foto de Coyote Vadio

A ideia que existe é que as pessoas de Coimbra não sabem que é de Coimbra. Esta é uma perceção certa?
É uma perceção um bocadinho estranha. Em boa verdade, e com o êxito do “Pôr do Sol”, houve um rebentar exponencial do interesse pelo meu trabalho e de onde é que venho. Quando digo que sou de Coimbra há uma espécie de surpresa. Não é um problema das pessoas de Coimbra não me reconhecerem, é uma coisa geral. Há uma espécie de surpresa constante por ser conimbricense e isso deixa-me contente.

Como recorda a sua adolescência em Coimbra?
Nasci em Coimbra, vim muito pequenino para Lisboa e depois voltei para Coimbra aos meus 8 anos e estive em Coimbra até aos 17 anos. A minha adolescência toda foi passada nas escolas Infanta Dona Maria e Martim de Freitas com os meus amigos de Coimbra, que são os meus amigos de sempre. Foi uma adolescência muito feliz. É uma cidade que me fez aprender muita coisa. A escala de Coimbra permitia-me fazer coisas que em Lisboa não conseguia. Em miúdo, podia fazer da cidade o meu terreno sem medos.

Aos 17 anos deixou a cidade para seguir os estudos em cinema. Como foi essa separação?
Foi natural. Na altura, acho que foi o primeiro ano que abriu o curso de Estudos Artísticos em Coimbra. Tive uma discussão com os meus pais entre ser um erudito em cinema ou ser aquele que punha as “mãos na massa” e, portanto, teimosamente, decidi ir para o conservatório porque a minha paixão era contar histórias. Muito mais do que falar do que os outros faziam ou especializar-me na crítica. A minha ideia era tornar possível histórias que imaginava. De uma forma natural, tive o apoio dos meus pais e vim, com mais dois amigos para Lisboa para tentarmos a sorte no conservatório e acabamos por ficar os três.

O pai, José Manuel Pureza, é bastante conhecido no panorama político nacional. Qual a importância dele na sua vida ?
O meu pai é muito importante para mim por ser meu pai, em primeiro lugar, e todas as suas opções políticas são dele e são opções que eu não só respeito como admiro. O meu pai e a minha mãe são figuras centrais na minha edificação pessoal e sobretudo, na lógica de proporcionarem os meus sonhos e os da minha irmã e, portanto, acho que neste momento somos duas pessoas muito bem sucedidas.
Falar de Manuel Pureza é falar de “Pôr-do-sol” ou de “Até Que a Vida nos Separe?”. O que significa o sucesso das séries?
São dois projetos que marcaram muito a minha carreira. O meu trabalho é esse e eu estou muito orgulhoso dessas duas séries que são de dois géneros diferentes. São marcos no meu percurso pessoal mas também da minha produtora, a “Coyote Vadio” que dirijo com a minha sócia e mulher: a Andreia Esteves. O “Pôr do Sol” foi uma espécie de confirmação de um investimento muito sério, adulto e honesto do trabalho de cada de um nós e das nossas equipas. Fazer humor em qualquer parte do mundo parece uma coisa descontraída, bem-disposta e onde nos divertimos muito a fazê- -lo mas, por outro lado, é um compromisso que nos faz perder muitas horas de sono. “Até que a Vida nos Separe” é um marco na ficção nacional, na medida em que é a primeira produção portuguesa que chega a 197 países através da Netflix. Quando estávamos a celebrar esse mesmo marco já estávamos em produção de “Pôr do Sol” e esta série foi o coroar de alguns anos de investimento, de muita crença.

Realizar o “Pôr do Sol” foi arriscar um humor em horário nobre na televisão nacional. Como foi correr esse risco?
Qualquer projeto em que nós investimos o nosso tempo e o nosso conhecimento corre o risco de, no limite, não ser compreendido. O “Pôr do Sol” reunia uma série de ingredientes que nos parecia bastante apetecíveis pelo público e isso fez-nos acreditar que era possível construir uma coisa diferenciada. O “Pôr do Sol” ganhou um lugar no discurso político, nos concursos ou nas piadas que encontras no café. Isto é uma espécie de coisa que vai juntando muita gente à volta de uma história que não faz sentido mas que, ao mesmo tempo, nos faz rir e nos faz pensar porque é que vemos novelas. Não estávamos à espera deste “boom” mas quando resulta faz-nos pensar que, desta vez, a equação funcionou.

Da série nasceu a banda “Jesus Quisto”. Essa relação com a música vem desde os “Mar à Bilha”, uma banda que integrava?
(Risos) Os “Mar à Bilha” foi um devaneio muito pessoal.

“Jesus Quisto” não é um devaneio?
Os “Jesus Quisto”, enquanto banda jovem, é um ingrediente fundamental nas novelas. Evidentemente que me fez lembrar muitas vezes as loucuras que os “Mar à Bilha” propunham enquanto um grande sucesso nacional (risos).

Pode estar aí o segredo do sucesso da série?
Não, nem pensar! A série resulta como um todo, de vários géneros que a novela procura sublinhar. Claro que os “Jesus Quisto” são um sucesso inacreditável. Aliás, a digressão dos “Jesus Quisto” vai começar no próximo mês de abril nos coliseus do Porto e de Lisboa. Isto é um sintoma que das duas uma: ou isto é um sucesso “do caneco” ou o país está completamente louco.

Diz o fado que “Coimbra é uma lição”. Qual a lição que se pode tirar da série?
A lição que podem tirar é que não há nada nem nenhuma série que nos dê lições. Diria que, às vezes, é bom darmos uma hipótese a qualquer coisa que nos ponha no limite da loucura, do riso ou do entretenimento. Ficar a pensar na quantidade gigantesca de talento que há neste país mas que investe tão pouco na cultura e nos artistas. Quando tu olhas para a Gabriela Barros, para o Rui Melo ou para qualquer ator que faz parte deste elenco tu não acreditas que eles representam uma classe pela qual há tão pouco respeito e consideração.

Como é que tem acompanhado o desenvolvimento de Coimbra?
As obras que estão a decorrer mostram pouca consciência ambiental e eu estou muito desse lado. Orgulhosamente, sou do tempo em que a zona contígua ao Parque Verde da cidade tinha algumas árvores centenárias que foram deitadas abaixo, em nome de um progresso que tardou vários anos a chegar à cidade. Eu saí de Coimbra com 17 anos e já na altura se falava disso (Metro). Passaram 21 anos e continuamos num impasse que agora começa a despertar. Acho que é uma cidade que, infelizmente, tem tudo o que uma cidade de um país pequeno pode ter mas ainda não se conseguiu encontrar para lá da placa que encontras na autoestrada a dizer que é a cidade dos estudantes. Podendo apostar na ideia de que a academia é o seu motor, é uma cidade que, entre outras coisas, vê os seus cinemas estarem condenados à Casa do Cinema de Coimbra e dois “multiplexs” no Forum Coimbra e no Alma Shopping. Eu devia querer ir de Lisboa a Coimbra para ver um espetáculo e, para isso, era preciso que houvesse um maior apoio de uma cidade que deve ver para além das rotundas.

És sócio da Académica. Como é que tem visto os resultados e a vida do clube nos últimos anos?
Inesperadamente. Qualquer pessoa que se diga adepto da Académica vê estes últimos tempos como tempos confusos, difíceis e sofríveis. Eu estive agora a acompanhar o jogo contra o Sporting B, que felizmente ganhámos, vi o jogo a seguir em que ganhámos também mas depois voltamos a perder com o Caldas, ou seja fica tudo um bocadinho aquém e confuso. É um clube que se deixou levar por ações duvidosas a todos os níveis. Eu confesso que não fui acompanhando devidamente mas tenho pessoas da família que estão muito apostadas em recuperar a Académica e até mesmo candidatar-se a um projeto diferente e inovador mas, enfim, isso é uma coisa que tem tanto de bom e esperançoso como de assustador. A Académica é um sintoma da cidade.

Consideras que o estado atual da Académica, da cultura e da cidade espelham o que é Coimbra atualmente?
Eu não faço ideia. Eu assumo a minha ignorância. Sei é que gostava de olhar para Coimbra como um exemplo na cultura e na aposta das camadas mais novas. Sempre que falamos da cultura de Coimbra, para além da extraordinária ação cultural e diária da Rádio Universidade de Coimbra, da Casa das Artes ou de mais dois ou três polos interessantes do ponto de vista da oferta cultural, voltamos a falar do Museu Machado de Castro mas este espaço, apesar de toda a sua importância, não pode ser o maior chamariz de uma cidade no centro de uma cidade que vive de uma população estudantil que se desvincula dos destinos da cidade. Sinto muitas vezes que Coimbra se limita a ser conhecida pela cidade onde se bebe mais cerveja na Queima das Fitas. Eu falo disto do ponto de vista “outsider” e confesso a minha ignorância daquilo que se passa em Coimbra, mas penso que possa ser um sintoma de como a cidade passa das fronteiras da própria cidade.

Em termos profissionais, o que é que o futuro nos reserva?
Este ano estamos a preparar o filme do “Pôr do Sol”, já foi anunciado e estamos a trabalhar nele. Há mais umas séries e mais uns projetos que estão “na calha”. Além disso, a Coyote Vadio vai continuar à procura de estar sempre ao lado das histórias que pretende contar, para que aconteçam, para que ganhem a “luz do dia” e sejam vistas por muita gente. Estamos a apostar nas nossas referências modernas e arrojadas como o “Pôr do Sol” foi, mas a série já está na curva final. A digressão dos “Jesus Quisto” também acho que vai ser marcante. Vão haver outros projetos que irão marcar pontos no nosso percurso.

Autoria de:

1 Comentário

  1. Ze Digital diz:

    É este o nosso Zé da Gândara e outros apaladados do condado As Beiras. O tal que faz o humor à distância, mesmo sendo tão extenuante. Se não fosse este tipo éramos uns cinzentões. Vestidinhos de cinzento dos pés à cabeça, sem excepção para os nossos espaços interiores. Tudo cinzentinho, neutro e monótono. Extenuante até à nausea. Vai assim bem a vidinha! Ai vai, vai!
    Se não fossem tipos brincalhões como este…!
    Vai continuar a dinamizar esta treta toda, este jogo parvo de influências provincianas.
    Viva o Zé da Gândara revelado!

Deixe o seu Comentário

O seu email não vai ser publicado. Os requisitos obrigatórios estão identificados com (*).


Coimbra

Geral