{"id":229187,"date":"2022-01-03T12:33:49","date_gmt":"2022-01-03T12:33:49","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=229187"},"modified":"2022-01-03T12:33:49","modified_gmt":"2022-01-03T12:33:49","slug":"opiniao-lugares-na-cidade-em-que-a-vida-e-o-essencial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/opiniao-lugares-na-cidade-em-que-a-vida-e-o-essencial\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: Lugares (na cidade) em que a vida \u00e9 o essencial"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Manuel-Rocha-opi.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-209691\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Manuel-Rocha-opi.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"628\" \/><\/a><\/p>\n<p>A pouco e pouco a Cidade vai-nos empurrando para dentro de casa. H\u00e1 quem insista em dar os bons dias \u00e0queles com quem se cruza no bairro, mas at\u00e9 esse h\u00e1bito j\u00e1 se vai perdendo. E h\u00e1 mesmo quem n\u00e3o reconhe\u00e7a a Coimbra em que nasceu, na desarruma\u00e7\u00e3o que o neg\u00f3cio imobili\u00e1rio instalou, com a cumplicidade empenhada de permissivos autarcas.<br \/>\nOs lugares de encontro rareiam \u2013 diz-se que \u00e9 por causa da altera\u00e7\u00e3o dos costumes &#8211; e eu nunca me esquecerei do que me disse um guarda-freio no tempo em que se anunciou o assassinato do carro-el\u00e9trico (por raz\u00f5es de deslumbre novo-rico): \u201cquando a Baixa deixar de ser necess\u00e1ria a quem c\u00e1 vive e aos que aqui chegam, morre\u201d.<br \/>\nEst\u00e1 provado que as cidades s\u00e3o organismos mimosos, f\u00e1ceis de ferir de morte com t\u00e3o-s\u00f3 trocar as voltas \u00e0 gente que lhes d\u00e1 vida. Mataram o Mercado D. Pedro V no dia em que o esventraram para o \u201cmodernizar\u201d; mataram a Baixa no dia em que a quiseram pedestre e lhe interromperam o acesso de moradores e clientes. Ficaram ambos mais bonitos? Talvez, mas abandonados. Porque os que lhes cuidavam o perfil foram obrigados a seguir outros caminhos, e nunca mais regressaram.<br \/>\nEntretanto outros lugares se constru\u00edram, anunciando largueza para os passos das pessoas e acolhimento de neg\u00f3cios, prometendo alternativa ao encerramento de lojas e oficinas, esplanadas e drogarias, mercearias e discotecas, livrarias e caf\u00e9s. Quase todos se extinguiram em menos tempo do que o Loureiro dos Caf\u00e9s e a Livraria Atl\u00e2ntida: o Golden, o Avenida, o D. Dinis, mas tamb\u00e9m o Gira, o Mayflower e o Primavera s\u00e3o hoje ru\u00ednas de promessa de espa\u00e7o p\u00fablico. As mercearias, pelo seu lado, foram definhando at\u00e9 serem esmagadas pela vintena de grandes e m\u00e9dias superf\u00edcies que invadiram a Cidade.<br \/>\nV\u00e1 l\u00e1 saber-se porqu\u00ea, um pequeno e improv\u00e1vel bairro foi-se formando na linha de fronteira da Solum, juntando moradores e comerciantes num diversificado mundo onde se pode comprar um quilo de arroz, um ramo de flores, um livro, um jornal, um \u00e9clair de chantilli, meia d\u00fazia de papo-secos; onde se pode subir a bainha \u00e0s cal\u00e7as, comprar a prenda de Natal (seja uma caneca, um par de brincos ou uma pe\u00e7a de roupa), p\u00f4r ordem na melena, cumprir o ritual da bica, tratar de si, almo\u00e7ar como deve ser.<br \/>\nMais bem batizado do que aquilo que o seu propriet\u00e1rio h\u00e1 de ter desejado, o Atrium Solum tornou-se o espa\u00e7o residencial a que a designa\u00e7\u00e3o corresponde, muito al\u00e9m do apenas-ganho de mal-intencionados contratos de arrendamento de curta dura\u00e7\u00e3o. No Atrium Solum juntam-se amigos a meio da tarde para as conversas \u00e0 volta do caf\u00e9, re\u00fanem-se professores em encontros de trabalho, brincam crian\u00e7as defendidas do tr\u00e2nsito autom\u00f3vel, visita-se a exposi\u00e7\u00e3o de objetos de outros tempos, comparece-se no lan\u00e7amento de um livro, entre palavras e m\u00fasica. Herdeiro involunt\u00e1rio d\u2019A Brasileira e do Arc\u00e1dia, o Atrium Solum reinventa nos nossos dias a Coimbra das tert\u00falias, o espa\u00e7o essencial fora de casa (que \u00e9 morada tamb\u00e9m).<br \/>\nA cadeia de distribui\u00e7\u00e3o Mercadona quer comprar o Atrium, e o propriet\u00e1rio do Atrium quer vender. Assim vistas as coisas estar\u00edamos perante uma transa\u00e7\u00e3o feliz, traduzida no movimento da soma acordada de uma conta banc\u00e1ria para outra. Mas n\u00e3o \u00e9 (nem pode ser) assim.<br \/>\nVistas as coisas como deve ser, quando se trata de Cidade, o que est\u00e1 em causa \u00e9 a vida de muita gente &#8211; entre malha empresarial, usufruto de servi\u00e7os e qualidade de vida (o tal indicador que as cidades tanto gostam de exibir). O que est\u00e1 em causa \u00e9 a perman\u00eancia de of\u00edcios que ali se reuniram por serem necess\u00e1rios a uma vasta comunidade, numa teia que se foi formando e constituindo aquilo a que se d\u00e1 o nome de Urbe. O que est\u00e1 em causa, afinal, \u00e9 a op\u00e7\u00e3o entre a cidade-objeto e a cidade humanizada.<br \/>\nA entrada de um Ano Novo \u00e9 a melhor das ocasi\u00f5es para celebrarmos e defendermos os lugares em que as pessoas e as suas vidas \u2013 entre o trabalho e o lazer \u2013 s\u00e3o mesmo o mais importante.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Manuel Rocha<br \/>\nDocente<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":209691,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[31,5],"tags":[935,100],"class_list":["post-229187","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral","category-opiniao","tag-manuel-rocha","tag-opiniao"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/229187","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=229187"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/229187\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=229187"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=229187"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=229187"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}