{"id":229778,"date":"2022-01-13T17:45:38","date_gmt":"2022-01-13T17:45:38","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=229778"},"modified":"2022-01-13T17:45:38","modified_gmt":"2022-01-13T17:45:38","slug":"pela-rota-da-seda-sair-dos-carris-por-um-bago-de-uva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/pela-rota-da-seda-sair-dos-carris-por-um-bago-de-uva\/","title":{"rendered":"Pela rota da seda &#8211; Sair dos carris por um bago de uva"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_229779\" style=\"width: 660px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/2022\/01\/pela-rota-da-seda-sair-dos-carris-por-um-bago-de-uva\/49-pela-rota-da-seda\/\" rel=\"attachment wp-att-229779\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-229779\" class=\"wp-image-229779 size-large\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/49-Pela-rota-da-seda-1024x682.jpg\" alt=\"\" width=\"650\" height=\"433\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-229779\" class=\"wp-caption-text\">Foto de Jos\u00e9 Lu\u00eds Santos<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O <strong>sil\u00eancio<\/strong> do comboio noturno que segue de <strong>Kashgar<\/strong> para <strong>Turpan<\/strong> \u00e9 interrompido por sacas de pl\u00e1stico que se v\u00e3o abrindo pelas m\u00e3os de <strong>passageiros<\/strong> a quem a fome os acordou do seu descanso. J\u00e1 h\u00e1 v\u00e1rias horas que o cen\u00e1rio exterior \u00e9 escuro, pois aqui o sol p\u00f5e-se mais cedo e a ilumina\u00e7\u00e3o escasseia. Batatas fritas, p\u00e3o, uvas, a indispens\u00e1vel \u00e1gua, sumos com g\u00e1s ou ch\u00e1, favas fritas, sopas com noodles e frutas embaladas s\u00e3o compradas a vendedoras que fazem um movimento pendular de uma ponta \u00e0 outra das muitas carruagens que esta locomotiva puxa heroicamente s\u00e3o as solu\u00e7\u00f5es poss\u00edveis para enganar o est\u00f4mago.<\/p>\n<p>Ao longo de um enorme e estreito corredor, somam-se v\u00e1rios compartimentos com quatro camas cada. S\u00e3o luxos de primeira classe para uns, ou necessidade b\u00e1sica para uma noite bem dormida para outros. Quem por aqui vagueia, vai colecionando hist\u00f3rias imagin\u00e1rias sobre o que se vai conversando por detr\u00e1s do enorme biombo que s\u00e3o as portas dos pequenos habit\u00e1culos. A par do mastigar, h\u00e1 risos, vozes mais acaloradas, brigas pontuais ou, em sentido inverso, a tranquilidade de quem j\u00e1 fechou os olhos e \u00e9 alheio a tudo o que se desenrola em seu redor. Aos poucos, esta carruagem \u00e9 como a met\u00e1fora de uma cidade, em que as luzes das casas se v\u00e3o apagando aos poucos, como pe\u00e7as de um domin\u00f3 que desmoronam em catadupa e o sil\u00eancio se vai apossando de tudo e de todos.<\/p>\n<p>Os primeiros raios de sol fazem ricochete na superf\u00edcie \u00e1rida do deserto e trespassam as finas cortinas do comboio. Esta microcidade sobre carris vai acordando aos poucos, lentamente, espregui\u00e7ando-se, como no filme \u201cO homem da c\u00e2mara de filmar\u201d, de Dziga Vertov. O boli\u00e7o vai tomando conta deste espa\u00e7o, e as portas abrem para os seus ocupantes irem num vai-e-vem \u00e0 casa de banho, p\u00f4r a conversa em dia e petiscar qualquer coisa. J\u00e1 \u00e9 neste estado normal das coisas que se chega a Turpan.<\/p>\n<p>Ao sairmos da carruagem, ainda sem colocarmos o p\u00e9 na plataforma, j\u00e1 dois agentes de seguran\u00e7a nos esperavam para, uma vez mais, nos guiarem ao posto da pol\u00edcia para mostrarmos a nossa identifica\u00e7\u00e3o, sermos fotografados e preenchermos mais uns pap\u00e9is para depois podermos ir \u00e0s nossas vidas. H\u00e1 mais que fazer por estas bandas, como visitar o minarete Emin, que, constru\u00eddo ainda no in\u00edcio do s\u00e9culo XVIII, com os seus majestosos 44 metros, \u00e9 o mais alto de toda a China. \u00c0 parte deste monumento, aquilo que ressalva facilmente \u00e9 a gentileza do povo local. N\u00e3o obstante a vida dif\u00edcil que ter\u00e3o, pela sua condi\u00e7\u00e3o de uigures, s\u00e3o de uma boa disposi\u00e7\u00e3o e generosidade contagiantes. Vivem da produ\u00e7\u00e3o de uvas, t\u00e3o famosas quanto apreciadas neste pa\u00eds, n\u00e3o tanto para fazer vinho, at\u00e9 porque a sua f\u00e9 isl\u00e2mica \u00e0 partida n\u00e3o o permite, mas para secar os seus bagos t\u00e3o doces e despojados de grainhas para os vender como passas.<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria cidade \u00e9 uma ilha de bet\u00e3o envolta num mar de vinhedos. Basta dar uma vista de olhos pelo Google em vers\u00e3o sat\u00e9lite. As latadas s\u00e3o em vers\u00e3o liliputiana, dando em alguns casos por pouco mais que a cintura dos camponeses que t\u00eam de andar a rasar o ch\u00e3o para as colher em plena \u00e9poca de vindimas. As ofertas de um ou outro cacho deste saboroso e adocicado fruto s\u00e3o uma constante. D\u00e1-se com a direita sem se querer receber nada com a esquerda, e isso apura ainda mais um sabor j\u00e1 por si t\u00e3o sublime.<\/p>\n<p>As viagens valem pelas pessoas que se conhecem, com a mais-valia dos gestos simples com que somos presenteados, e estas uvas, de bagos t\u00e3o finos e longos, transparentes e com uma subst\u00e2ncia t\u00e3o doce, ficar\u00e3o associados \u00e0 hospitalidade desta gente que t\u00e3o docemente sabe receber um desconhecido.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Lu\u00eds Santos, viajante e professor de Hist\u00f3ria <\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":229779,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[31,5],"tags":[450,100,6776,3692],"class_list":["post-229778","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral","category-opiniao","tag-jose-luis-santos","tag-opiniao","tag-rota-da-seda","tag-viagens"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/229778","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=229778"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/229778\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=229778"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=229778"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=229778"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}