{"id":229826,"date":"2022-01-14T12:32:32","date_gmt":"2022-01-14T12:32:32","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=229826"},"modified":"2022-01-14T12:32:32","modified_gmt":"2022-01-14T12:32:32","slug":"opiniao-a-mesa-com-portugal-a-inocencia-do-testo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/opiniao-a-mesa-com-portugal-a-inocencia-do-testo\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: \u00c0 Mesa com Portugal \u2013 A inoc\u00eancia do Testo"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Olga-Cavaleiro.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-206624\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Olga-Cavaleiro.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"628\" \/><\/a><\/p>\n<p>Dizem que \u201cquando se faz uma panela, faz-se logo o testo para ela.\u201d Habitualmente, utilizado para descrever a inevitabilidade das rela\u00e7\u00f5es humanas (ou n\u00e3o, a julgar pelos testos esbei\u00e7ados que sobrevivem moribundos em prateleiras esquecidas), h\u00e1 para mim uma hist\u00f3ria para contar e n\u00e3o \u00e9 assim t\u00e3o simples quanto isso. Certo \u00e9 que at\u00e9 poderia ser apenas um elemento decorativo, mas n\u00e3o \u00e9. Ocupa um respeit\u00e1vel lugar na cozinha e muitas das nossas receitas n\u00e3o seriam iguais se n\u00e3o fosse a sua presen\u00e7a.<br \/>\nN\u00e3o estava l\u00e1 para comprovar, mas aposto que ter\u00e1 sido a otimiza\u00e7\u00e3o da energia uma das principais raz\u00f5es que levou \u00e0 cria\u00e7\u00e3o deste elemento na cozinha. Afinal, uma panela sem testo n\u00e3o rentabiliza a fonte de calor que est\u00e1 a ser utilizada para cozinhar. Demora muito mais tempo a atingir o ponto de fervura pela perda de calor que a aus\u00eancia de testo favorece. Por isso, acredito que num tempo em que a energia n\u00e3o estava t\u00e3o dispon\u00edvel como est\u00e1 hoje, os nossos antepassados tenham sido levados a pensar que reter o calor com uma tampa seria uma a\u00e7\u00e3o, mais do que criativa, capaz de lhe trazer vantagens.<br \/>\nConseguiam cozinhar mais com menos energia, isso \u00e9 certo. Punham a panela sobre um lume brando, bem tapadinha com os vegetais l\u00e1 dentro a boiar na \u00e1gua e iam \u00e0 sua vida regressando somente quando j\u00e1 era hora da refei\u00e7\u00e3o. Lentamente, a cozedura ia-se fazendo ficando o caldo bem saboroso com os sucos dos legumes e de algum bocado de carne ou de unto. Certo \u00e9 que a \u00e1gua n\u00e3o evaporava t\u00e3o facilmente e mantinha-se constante a sua temperatura. Muito da hist\u00f3ria do Cozido conta-se assim e das sopas tamb\u00e9m.<br \/>\nA caldeirada nunca seria t\u00e3o boa se a panela estivesse destapada. L\u00e1 se ia o fant\u00e1stico caldo que se forma com a redu\u00e7\u00e3o dos sucos dos peixes e dos legumes. Secava o peixe, secava o caldo, secavam as batatas e a cebola ficaria reduzida a nada. Tenho c\u00e1 para mim que o apuradinho nunca seria igual se n\u00e3o fosse o testo que deixa que tudo sue sem pressas.<br \/>\nUm coelho guisado precisa de intimidade na panela, precisa que os ingredientes se encontrem, convivam e partilhem o melhor de si. O azeite, a cebola, o alho, o louro, a salsa, o vinho e outros temperos que s\u00e3o segredo de cada cozinheira, n\u00e3o est\u00e3o ali para um encontro fortuito e repentino. No recato da panela, bem aconchegado pelo testo, o vinho entranha-se na carne, curte a magra carne do coelho tornando-a saborosa com a ajuda de todos os outros condimentos. O tempo, o lume brando, os ingredientes, s\u00e3o importantes, mas o testo \u00e9 imprescind\u00edvel. Uma esp\u00e9cie de autor moral de todo o resultado final.<br \/>\nE depois, \u00e9 claro, j\u00e1 fora do lume, o testo permite a conserva\u00e7\u00e3o do calor. Destapada, a panela esfria e deixa arrefecer o seu conte\u00fado. Selada com o testo, mant\u00e9m o temperatura e evita que a comida fique fria. Muitas vantagens para o nosso querido e amado testo. Que n\u00e3o tenhamos a veleidade de o reduzir a prov\u00e9rbios circunstanciais que lhe retirem a import\u00e2ncia. Acho at\u00e9 que dever\u00edamos fazer um hino ao testo, como ao fogo ou \u00e0 panela. Afinal, um testo n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um testo, \u00e9 um c\u00e9u que abriga a nossa arte culin\u00e1ria. A inoc\u00eancia do testo, ou talvez n\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Olga Cavaleiro<br \/>\nPresidente da Federa\u00e7\u00e3o Portuguesa<br \/>\ndas Confrarias Gastron\u00f3micas<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[31,5],"tags":[894,100],"class_list":["post-229826","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral","category-opiniao","tag-olga-cavaleiro","tag-opiniao"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/229826","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=229826"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/229826\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=229826"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=229826"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=229826"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}