{"id":230068,"date":"2022-01-19T12:01:27","date_gmt":"2022-01-19T12:01:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=230068"},"modified":"2022-01-19T12:01:27","modified_gmt":"2022-01-19T12:01:27","slug":"opiniao-cidade-e-densidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/opiniao-cidade-e-densidade\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: &#8220;Cidade e Densidade&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/jose-antonio-bandeirinha.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-230069 size-large aligncenter\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/jose-antonio-bandeirinha-1024x536.jpg\" alt=\"\" width=\"650\" height=\"340\" \/><\/a><\/p>\n<p>H\u00e1 v\u00e1rias circunst\u00e2ncias que caracterizam o ambiente urbano, ou a designada urbanidade, se quisermos. De entre essas, uma das mais claras \u00e9 o reconhecimento do espa\u00e7o que pisamos, o estatuto do solo, para ser mais preciso. \u00c9 t\u00e3o clara que n\u00f3s, no nosso quotidiano, nem nos apercebemos dela, \u00e9 inerente \u00e0 nossa condi\u00e7\u00e3o de habitantes e utilizadores das cidades, \u00e9 usada quase inconscientemente. Quanto mais urbano \u00e9 o espa\u00e7o onde estamos, tanto mais clarificada est\u00e1 a sua condi\u00e7\u00e3o p\u00fablica, semi-p\u00fablica, privada ou semi-privada. Quando essa condi\u00e7\u00e3o deixa de ser t\u00e3o clara, o espa\u00e7o tamb\u00e9m deixa, gradualmente, de poder ser considerado urbano.<br \/>\nMas h\u00e1 outras circunst\u00e2ncias. Lembrarei aqui uma outra, n\u00e3o t\u00e3o clara mas igualmente importante, acerca da qual tamb\u00e9m raramente falamos \u2014 a densidade demogr\u00e1fica \u2014 ou seja, o n\u00famero de pessoas que habita numa determinada \u00e1rea. \u00c9 isso que nos permite aquilatar se os territ\u00f3rios s\u00e3o de baixa, m\u00e9dia ou alta densidade. Esta circunst\u00e2ncia \u00e9 menos clara porque, historicamente, as altas densidades podem ser conotadas com preconceitos de excesso de promiscuidade e falta de higiene. H\u00e1 um s\u00e9culo atr\u00e1s, o Movimento Moderno ergueu-se contra isso e os preceitos t\u00e9cnicos da normativa urban\u00edstica e construtiva, que ainda hoje ainda utilizamos, s\u00e3o, em grande medida, herdados dele.<br \/>\nMas, pelo que diz respeito \u00e0 quest\u00e3o de densidade, o que aqui importa \u00e9, por um lado, tomar consci\u00eancia que ela tamb\u00e9m caracteriza de sobremaneira o ambiente urbano e, por outro, saber que hoje em dia h\u00e1 capacidade t\u00e9cnica e cultural para edificar ou reabilitar espa\u00e7os de m\u00e9dia e alta densidade com qualidade, conforto e salubridade.<br \/>\n<strong>Em muitas das nossas cidades, e Coimbra n\u00e3o \u00e9 exce\u00e7\u00e3o, usamos a normativa para baixar a densidade, tal como h\u00e1 um s\u00e9culo atr\u00e1s. O ponto focal dos regulamentos, e de alguns t\u00e9cnicos municipais, \u00e9 aniquilar as tentativas de aumento de densidade. Mas estamos a esquecer algumas coisas.<\/strong> Primeiro, os centros das cidades, tradicionalmente mais densos, est\u00e3o agora vazios por press\u00e3o do terci\u00e1rio, do turismo e do aumento da oferta no sub\u00farbio. Em segundo lugar, quanto mais densificarmos o espa\u00e7o urbano, mais libertamos os espa\u00e7os da verdadeira natureza da press\u00e3o de ocupa\u00e7\u00e3o pelo sub\u00farbio de baixa densidade. Terceiro, a densidade \u00e9 um n\u00famero abstracto em si mesmo, a vida e a atractividade das cidades reside na harmonia entre espa\u00e7o constru\u00eddo e espa\u00e7o de circula\u00e7\u00e3o, nos remates das suas ruas e pra\u00e7as, na beleza e funcionalidade dos espa\u00e7os, pode haver espa\u00e7os densos fant\u00e1sticos e espa\u00e7os de baixa densidade aterradorses. Quarto, e n\u00e3o menos importante, a possibilidade de re-ocupa\u00e7\u00e3o das cidades densas \u00e9 incomparavelmente mais sustent\u00e1vel, quer no plano econ\u00f3mico, quer no plano ambiental. No plano econ\u00f3mico, o investimento no espa\u00e7o urbano denso \u00e9 muito menor, vias de circula\u00e7\u00e3o mais compactadas, infraestruturas mais concentradas, transportes em comum, servi\u00e7os mais pr\u00f3ximos. No plano ambiental \u00e9 mais \u00f3bvio ainda, quer no que se poupa em energia, quer no que se poupa em desperd\u00edcio espacial. E n\u00e3o nos podemos esquecer que o espa\u00e7o \u00e9 tamb\u00e9m um recurso vital da humanidade.<br \/>\nCoimbra tem um patrim\u00f3nio de densidade que hoje se desconsidera. A Alta, a Baixa e a Baixinha, que hoje tanto nos atraem, n\u00e3o teriam a sua magn\u00edfica identidade hist\u00f3rica se n\u00e3o tivessem tido um s\u00e9culo XIX e um in\u00edcio do s\u00e9culo XX de sucessivos aumentos de densidade e, consequentemente, de escala. Foi isso que permitiu a imagem que tanto admiramos e a densidade humana que t\u00e3o nostalgicamente recordamos.<br \/>\nA cidade, como um todo, est\u00e1 hoje a perder essa densidade e essa escala. E n\u00e3o s\u00f3 por raz\u00f5es de decl\u00ednio demogr\u00e1fico, est\u00e1 a perd\u00ea-la porque, na maior parte das vezes, os licenciamentos, o que se permite ou n\u00e3o permite edificar, est\u00e3o a condicionar a sua densidade, n\u00e3o por qualquer raz\u00e3o de ordem t\u00e9cnica, higi\u00e9nica e\/ou ambiental, mas porque assim est\u00e1 institu\u00eddo h\u00e1 cerca de um s\u00e9culo, porque aparenta ser politicamente correcto, porque sim. E isso tamb\u00e9m tem contribu\u00eddo para o seu lento e paulatino processo de transforma\u00e7\u00e3o num espa\u00e7o cada vez mais suburbano.<\/p>\n<p><em>Pode ler a opini\u00e3o de Jos\u00e9 Ant\u00f3nio Bandeirinha na edi\u00e7\u00e3o impressa e digital do DI\u00c1RIO AS BEIRAS<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Opini\u00e3o de Jos\u00e9 Ant\u00f3nio Bandeirinha, da Universidade de Coimbra e do Centro de Estudos Sociais. &#8220;Em muitas das nossas cidades, e Coimbra n\u00e3o \u00e9 exce\u00e7\u00e3o, usamos a normativa para baixar a densidade, tal como h\u00e1 um s\u00e9culo atr\u00e1s. O ponto focal dos regulamentos, e de alguns t\u00e9cnicos municipais, \u00e9 aniquilar as tentativas de aumento de densidade. 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