{"id":230143,"date":"2022-01-20T12:29:14","date_gmt":"2022-01-20T12:29:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=230143"},"modified":"2022-01-20T12:29:14","modified_gmt":"2022-01-20T12:29:14","slug":"230143-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/230143-2\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: A deslocaliza\u00e7\u00e3o da qualidade na educa\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Jose-afonso-baptista-opi.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-208096 size-full\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Jose-afonso-baptista-opi.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"628\" \/><\/a><\/p>\n<p>Eu fiz o Liceu em Castelo Branco. Na minha gera\u00e7\u00e3o foram muito poucos os que tiveram este privil\u00e9gio. Havia apenas um Liceu por distrito e s\u00f3 entrava quem passasse no filtro do exame de admiss\u00e3o e tivesse meios para pagar.<\/p>\n<p>Os meninos pobres, ou iam para os semin\u00e1rios, ou para os col\u00e9gios privados, ou simplesmente para as profiss\u00f5es manuais.<\/p>\n<p>Os professores do Liceu eram licenciados e tinham passado por um crivo de sele\u00e7\u00e3o e forma\u00e7\u00e3o altamente exigentes, por um est\u00e1gio de dois anos nos Liceus Normais e o Exame de Estado por um j\u00fari nacional, presidido por um professor catedr\u00e1tico da respetiva \u00e1rea. Os professores dos col\u00e9gios, sem estes requisitos, n\u00e3o tinham coloca\u00e7\u00e3o nos liceus.<\/p>\n<p>O Liceu era ent\u00e3o a escola de elite para as elites, era a escola de qualidade que permitia o acesso \u00e0 universidade e preparava para os quadros da administra\u00e7\u00e3o do estado e das empresas. Os professores do Liceu eram pessoas de prest\u00edgio e elevado estatuto social.<\/p>\n<p>Foi a seguir ao 25 de Abril que se fez a deslocaliza\u00e7\u00e3o da qualidade dos liceus para os col\u00e9gios privados, com destaque para as escolas cat\u00f3licas. \u00c9 a\u00ed que os pais encontram hoje a estabilidade e o atendimento compat\u00edvel com os altos cargos no Estado ou nas empresas. \u00c9 a\u00ed que est\u00e3o ao abrigo das turbul\u00eancias de todo o tipo que afetam as escolas p\u00fablicas, como o saltitar dos professores de escola em escola, de norte a sul, sem chegar a conhecer os alunos. \u00c9 \u00e0s escolas privadas que a classe pol\u00edtica e a classe econ\u00f3mica de topo confiam os seus filhos. As elites dos liceus transferiram-se para os col\u00e9gios.<\/p>\n<p>Os resultados escolares, com os seus rankings e o impacto na comunica\u00e7\u00e3o social, favorecem esta hierarquiza\u00e7\u00e3o. Curiosamente os partidos no poder apontam o dedo \u00e0s escolas privadas como se fossem elas a definir e a conduzir as pol\u00edticas que geraram esta situa\u00e7\u00e3o. O governo continua a negar \u00e0s escolas p\u00fablicas e aos professores as margens de autonomia do setor privado, degradou por completo o prest\u00edgio, a atratividade e as condi\u00e7\u00f5es de vida dos professores da escola p\u00fablica e os resultados est\u00e3o \u00e0 vista: as grandes desigualdades acentuaram-se ainda mais entre p\u00fablico e privado, entre pobres e ricos. Tudo obra deste governo e do ME.<\/p>\n<p>A pandemia, a ferida que p\u00f4s a nu a pobreza e fragilidade dos servi\u00e7os p\u00fablicos, mostrou bem como as crian\u00e7as e jovens do privado prosseguiram tranquilamente as suas aprendizagens, com todos os meios para o ensino \u00e0 dist\u00e2ncia, enquanto as crian\u00e7as pobres ficaram \u00f3rf\u00e3s e abandonadas, longe da escola e dos amigos. Quem mais sofreu o confinamento foram as mesmas crian\u00e7as de sempre, marcadas por todas as car\u00eancias que bem conhecemos, privadas do \u00fanico mundo onde ainda tinham alguma qualidade de vida: a escola. As crian\u00e7as do privado mantiveram online as atividades escolares, o conv\u00edvio com colegas e amigos. Foi bem vis\u00edvel o desconforto do governo quando quis retirar ao ensino privado a a\u00e7\u00e3o educativa que n\u00e3o p\u00f4de manter no setor p\u00fablico.<\/p>\n<p>Coincidindo no tempo com a pandemia, vieram os bili\u00f5es do PRR, a bandeira do governo para se promover e prometer fazer tudo o que devia ter feito e n\u00e3o fez at\u00e9 agora. O foco vai para o SNS, que v\u00ea os seus profissionais exaustos a emigrar para os servi\u00e7os privados e para os pa\u00edses vizinhos. A Educa\u00e7\u00e3o continua ignorada e adiada, mesmo com abalos t\u00e3o profundos como a Sa\u00fade, e igualmente confrontada com a fuga dos profissionais. Aqui n\u00e3o se v\u00ea a mesma profus\u00e3o de bili\u00f5es. No SNS contam-se os mortos dia ap\u00f3s dia e isso choca; a exclus\u00e3o e o abandono escolar, que sempre fizeram parte do ethos da escola p\u00fablica, n\u00e3o t\u00eam visibilidade e podem adiar-se para depois dos bili\u00f5es. A inclus\u00e3o continua uma miragem.<\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Os liceus da minha gera\u00e7\u00e3o n\u00e3o absorviam mais de 10% das crian\u00e7as e jovens deste segmento et\u00e1rio, os mesmos 10% que hoje habitam os col\u00e9gios. N\u00e3o deixa de ser curiosa a coincid\u00eancia. Salazar limitou e concentrou a elite no Liceu. O atual governo retoma a mesma f\u00f3rmula, mas invertida: concentra a elite nos col\u00e9gios e reserva a escola p\u00fablica obrigat\u00f3ria para o povo que n\u00e3o pode pagar os col\u00e9gios. As crian\u00e7as desfavorecidas s\u00e3o duplamente penalizadas: foram impedidas de frequentar escolas privadas e n\u00e3o lhes d\u00e3o os meios para uma escola de qualidade no ensino p\u00fablico.<\/span><\/p>\n<p>Um pa\u00eds pobre \u00e9 sempre o resultado de um grave d\u00e9fice na educa\u00e7\u00e3o. Os nossos altos \u00edndices de pobreza s\u00e3o diretamente proporcionais aos baixos \u00edndices de escolaridade ao longo de s\u00e9culos. O 25 de Abril trouxe a liberdade e a escola para todos. S\u00f3 quem viveu e sofreu o fascismo tem a verdadeira dimens\u00e3o destas conquistas. Mas o sonho da igualdade que ouvimos e cantamos na \u201cGr\u00e2ndola Vila Morena\u201d continua como dantes. A pobreza continua e as desigualdades aprofundam-se. Os bili\u00f5es n\u00e3o chegam para sarar as feridas quanto mais para construir a prosperidade.<\/p>\n<p>A educa\u00e7\u00e3o \u00e9 o motor do desenvolvimento. Frase gasta de tanto repetida, mas \u00e9 um motor velho, de baixa cilindrada, e n\u00e3o tem a energia necess\u00e1ria para fazer andar a carruagem.<\/p>\n<p>As elei\u00e7\u00f5es batem \u00e0 porta. Pode ser a porta de entrada num novo ano e num novo ciclo, onde a EDUCA\u00c7\u00c3O n\u00e3o continue a ser a l\u00e2mpada que se fundiu, mas sim a luz que ilumine todos os portugueses no caminho da prosperidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu fiz o Liceu em Castelo Branco. Na minha gera\u00e7\u00e3o foram muito poucos os que tiveram este privil\u00e9gio. Havia apenas um Liceu por distrito e s\u00f3 entrava quem passasse no filtro do exame de admiss\u00e3o e tivesse meios para pagar. 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