{"id":230680,"date":"2022-01-29T10:33:40","date_gmt":"2022-01-29T10:33:40","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=230680"},"modified":"2022-01-29T10:33:40","modified_gmt":"2022-01-29T10:33:40","slug":"opiniao-o-leopardo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/opiniao-o-leopardo\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o &#8211; O Leopardo"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/2021\/08\/opiniao-o-declinio-do-imperio-americano\/manuel-castelo-branco-2\/\" rel=\"attachment wp-att-222419\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-222419 size-large\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/MANUEL-CASTELO-BRANCO-1024x536.jpg\" alt=\"\" width=\"650\" height=\"340\" \/><\/a><\/p>\n<p>Publicado postumamente em 1958, meses ap\u00f3s o falecimento de Giuseppe Tomasi di <strong>Lampedusa<\/strong>, O <strong>Leopardo<\/strong> \u00e9 o <strong>\u00faltimo<\/strong> dos <strong>grandes<\/strong> <strong>romances<\/strong> novecentistas. O \u00faltimo dos grandes romances.<br \/>\n\u201c\u00c9 preciso que alguma coisa mude, para que tudo fique na mesma\u201d, ao lado de \u201c\u00e9 preciso que tudo mude, para que tudo fique na mesma\u201d, s\u00e3o o fio condutor de uma narrativa que, sob o horizonte pol\u00edtico de uma revolu\u00e7\u00e3o anunciada, mergulha a fundo nas ang\u00fastias da condi\u00e7\u00e3o e da natureza humanas.<br \/>\nSe no devir hist\u00f3rico-pol\u00edtico tudo muda para, pouco a pouco, ficar radicalmente igual \u2013 na persist\u00eancia da injusti\u00e7a e da desigualdade, em particular -, j\u00e1 no tempo da singular e concreta vida humana o tempo escapa ao ciclo do eterno retorno, precipitando as hist\u00f3rias individuais no melanc\u00f3lico caminho do envelhecer, do adoecer, do decair.<br \/>\nLuchino Visconti, logo em 1963, ao passar o romance para a tela, sobrep\u00f4s a dimens\u00e3o existencial da narrativa ao pano de fundo hist\u00f3rico que a anima. Da\u00ed que, o filme termine, acabada a valsa com a sensual e juvenil Angelica, com a sa\u00edda do Pr\u00edncipe de Salinas do baile, caminhando s\u00f3 na madrugada fria, atravessado por um pren\u00fancio de morte.<br \/>\nA feroz vitalidade de Angelica, a sua beleza imaculada e a sua sensualidade em estado bruto conduzem o Pr\u00edncipe a um s\u00fabito estado de consci\u00eancia do fatal passar do tempo: Tempus fugit \u00e9 sinistra revela\u00e7\u00e3o a que o Leopardo n\u00e3o pode mais fugir.<br \/>\nRevela\u00e7\u00e3o que, n\u00e3o por acaso, constitui a chave de leitura de uma outra adapta\u00e7\u00e3o de Visconti, Morte em Veneza, que segue frame by frame a novela de Thomas Mann. O lento cair da areia do tempo no interior da clepsidra \u00e9 breve e sem retorno, como o compositor Gustav von Aschenbach, tarde de mais, descobrir\u00e1 na siderada e perturbada contempla\u00e7\u00e3o do rosto e do corpo do adolescente Tadzio.<br \/>\nNas duas obras, e nos dois filmes, a beleza n\u00e3o aparece como ant\u00eddoto da morte, antes como seu instrumento de revela\u00e7\u00e3o e de acelera\u00e7\u00e3o.<br \/>\nO radical pessimismo do Pr\u00edncipe de Salinas, no que ao devir pol\u00edtico e \u00e0 mudan\u00e7a hist\u00f3rica toca, produto de uma sabedoria c\u00ednica sobre a imutabilidade da natureza humana, apresenta, no entanto, cambiante mais suavizada quando aplicado ao destino dos que o rodeiam.<br \/>\nA\u00ed, ainda que por brev\u00edssimo instante, pela for\u00e7a tel\u00farica do desejo e do amor, o passo do tempo suspende-se e o ciclo da desola\u00e7\u00e3o interrompe-se.<br \/>\nE tudo, mais tarde, fica um pouco diferente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Manuel Castelo Branco<br \/>\nDocente do ISCAC<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[31,5],"tags":[1558,4730],"class_list":["post-230680","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral","category-opiniao","tag-manuel-castelo-branco","tag-opniao"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/230680","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=230680"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/230680\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=230680"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=230680"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=230680"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}