{"id":232468,"date":"2022-02-18T13:30:49","date_gmt":"2022-02-18T13:30:49","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=232468"},"modified":"2022-02-18T13:30:49","modified_gmt":"2022-02-18T13:30:49","slug":"opiniao-que-confusao-brader","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/opiniao-que-confusao-brader\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: Que confus\u00e3o, br\u00e1der!"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/BRUNO-PAIXAO.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-205891\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/BRUNO-PAIXAO.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"628\" \/><\/a><\/p>\n<p>Durante v\u00e1rios anos vivi intrigado, de c\u00e1 para l\u00e1 com os livros, anotando contradi\u00e7\u00f5es nas palavras, vendo nelas silhuetas nascendo em aparecimentos.<\/p>\n<p>Umas vezes c\u00f3micas, outras vezes tr\u00e1gicas. Vi Mia Couto falar de um tal \u201cadministraidor\u201d.<\/p>\n<p>E da personagem Azarias, que \u201cnegar\u00e1 de ouvir quando for chamado\u201d, muito \u201ccabistonto\u201d (para poupar o desperd\u00edcio de adjetivar cabisbaixo e tonto). As luzes ao fundo, \u201cpirilampiscando\u201d, o homem \u201cliquedesfazendo-se\u201d, banhando-se de pingos \u201cachuviscados\u201d e afogando-se em si mesmo.<\/p>\n<p>Vi questionar se \u201cafogar\u201d \u00e9 morrer na \u00e1gua ou morrer no fogo. E \u201cavioneta\u201d, n\u00e3o ser\u00e1 a neta do avi\u00e3o?<\/p>\n<p>O angolano Ondjaki, no seu portugu\u00eas inventoso, tamb\u00e9m se enregou \u00e0 tarefa de criar palavras para dizer coisas que nenhuma outra diz.<\/p>\n<p>De que outra forma se transmitiria as noites que \u201cadescaem\u201d, as estrelas que se \u201cagrilam\u201d, as raposas \u201cagalinhadas\u201d, e o menino que \u201cenquerindo\u201d saltitar, \u201capulga-se\u201d.<\/p>\n<p>Na minha imagina\u00e7\u00e3o, fiz a mesma pergunta a Ondjaki: Br\u00e1der, \u201cafogar\u201d \u00e9 morrer na \u00e1gua ou morrer no fogo? Ele (faz-de-conta), se \u201cadesculpando\u201d, respondeu: \u201cAderreter, aqueimar&#8230; N\u00e3o sei rexplicar.<\/p>\n<p>\u00c9 melhor sair de mansinho.<\/p>\n<p>Vou fingir-me para doen\u00e7as\u201d.<\/p>\n<p>Mas eu insisti: Br\u00e1der: o que \u00e9 \u201cafogar\u201d? Ele: \u201co fogo aquece, aderrete, aqueima, alumeia, alameja, almofadeia\u201d.<\/p>\n<p>Que confus\u00e3o, br\u00e1der, o fogo aleija, disse eu.<\/p>\n<p>Mas ele retorquiu: \u201cE depois? Chorar alimpa mundos\u201d.<\/p>\n<p>Chorar provoca um mar \u201cinfint\u00e1vel\u201d, disse eu.<\/p>\n<p>\u201cQual qu\u00ea? Isso n\u00e3o \u00e9 mar! Porque se fosse, as ondas \u201cengolfinhavam-se\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 isso, br\u00e1der, disse eu.<\/p>\n<p>\u00c9 rio, pois a \u00e1gua \u00e9 \u201cendocicada\u201d.<\/p>\n<p>Toda a gente sabe que o machado \u00e9 a pior coisa que h\u00e1 no mundo.<\/p>\n<p>Quem n\u00e3o souber que pergunte \u00e0 \u00e1rvore. Ou leia Ondjaki. Que v\u00e1 saber junto do lenhador, que, \u201cde cortar arvorezinhas, tinha arrepios mort\u00edferos \u2013 avomitera\u00e7\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p>Na sua novela \u201cO Bem Amado\u201d, o escritor e dramaturgo brasileiro Dias Gomes inseriu cria\u00e7\u00f5es lexicais que parodiam o vocabul\u00e1rio culto. O personagem Odorico reflete bem o tra\u00e7o pol\u00edtico fala-caro, com express\u00f5es como: \u201cagoramente, aindamente, mesmamente, deverasmente\u201d.<\/p>\n<p>Assim, \u201cagoramente j\u00e1 investido no cargo de prefeito, aqui estou para receber a confirma\u00e7\u00e3o\u201d. O seu campo prossegue, sem grilh\u00f5es que prendam a criatividade: \u201cNunca vi tanta voca\u00e7\u00e3o para agonizante.<\/p>\n<p>\u00c9 um \u201cagonizantista\u201d praticante\u201d.<\/p>\n<p>Ou \u201cquem \u00e9 que pode viver em paz mormentemente sabendo que, depois de morto, defunto, vai ter que defuntar tr\u00eas l\u00e9guas para ser enterrado?\u201d.<\/p>\n<p>Boa parte dos autores de l\u00edngua portuguesa que se aventuram em neologismos, esse talento de criar palavras novas que n\u00e3o fazem parte de um repert\u00f3rio oficializado, buscam inspira\u00e7\u00e3o no brasileiro Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa e na sua composi\u00e7\u00e3o sat\u00edrica, muitas vezes com sentido aned\u00f3tico.<\/p>\n<p>S\u00e3o dele express\u00f5es como \u201cembriagatinhar\u201d e \u201ccircuntristeza\u201d. Tal como \u00e9 de Mill\u00f4r Fernandes uma das minhas favoritas: \u201ca cartomente\u201d.<\/p>\n<p>Chegado aqui, quero justificar este texto.<\/p>\n<p>O meu filho mais novo, o Francisco, num exerc\u00edcio de portugu\u00eas, disse que \u201ccontratempo\u201d \u00e9 \u201co tempo ao contr\u00e1rio\u201d.<\/p>\n<p>Eu pensei. Pensei muito.<\/p>\n<p>Num primeiro assomo fui tentado a corrigi-lo.<\/p>\n<p>Mas depois percebi que tinha o dever de desistir da tristonha teima.<\/p>\n<p>Tanta leitura deu-me autoriza\u00e7\u00f5es para usar as palavras como quisesse.<\/p>\n<p>A l\u00edngua \u00e9 o sonho da comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 o sonho \u201cabensonhado\u201d, como disse Mia Couto.<\/p>\n<p>Mas dizem tamb\u00e9m muitos outros, como James Joyce, Katebe Yacine ou Luandino Vieira.<\/p>\n<p>Este \u00faltimo conquistou o Pr\u00e9mio Cam\u00f5es \u201cpelo seu contributo para a reinven\u00e7\u00e3o da l\u00edngua portuguesa\u201d.<\/p>\n<p>O facto de haver sintaxe dentro das palavras permite a cria\u00e7\u00e3o constante de palavras novas.<\/p>\n<p>Eu sei que isto pode gerar assolu\u00e7amentos em muitas mentes gramaticantes e corretoras.<\/p>\n<p>Para essas, desinfelizes, prescrevo assil\u00eancios.<\/p>\n<p>Amanh\u00e3 passa.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 um desacontecimento<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Opini\u00e3o de Bruno Paix\u00e3o: &#8220;Durante v\u00e1rios anos vivi intrigado, de c\u00e1 para l\u00e1 com os livros, anotando contradi\u00e7\u00f5es nas palavras, vendo nelas silhuetas nascendo em aparecimentos&#8221;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[31,5],"tags":[6687],"class_list":["post-232468","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral","category-opiniao","tag-brunopaixao"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/232468","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=232468"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/232468\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=232468"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=232468"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=232468"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}