{"id":232545,"date":"2022-02-19T13:18:12","date_gmt":"2022-02-19T13:18:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=232545"},"modified":"2022-02-19T13:18:12","modified_gmt":"2022-02-19T13:18:12","slug":"opiniao-o-passado-vivido-e-aquele-que-e-contado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/opiniao-o-passado-vivido-e-aquele-que-e-contado\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o &#8211; O passado vivido  e aquele que \u00e9 contado"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/2020\/12\/opiniao-a-ignorancia-e-atrevida-e-perigosa\/rui-bebiano-opi\/\" rel=\"attachment wp-att-207224\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-207224\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/RUI-BEBIANO-opi.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"628\" \/><\/a><\/p>\n<p>Ocupado, enquanto historiador, com um tempo pr\u00f3ximo do que tenho de vida \u2013 dos anos cinquenta ao presente \u2013 deparo habitualmente com um conflito. Os historiadores sabem que n\u00e3o existe descri\u00e7\u00e3o fechada ou interpreta\u00e7\u00e3o un\u00edvoca do passado, pois circunst\u00e2ncias, subjetividades e meios determinam olhares divergentes; mas sabem tamb\u00e9m que os factos do passado n\u00e3o podem ser modificados. N\u00e3o pode, por exemplo, afirmar-se que John Kennedy continua vivo, ou dizer-se que o Holocausto \u00e9 uma fantasia criada por judeus, quando existem provas de que assim n\u00e3o \u00e9. Todavia, h\u00e1 quem n\u00e3o hesite em inventar ou em falsificar o passado, sobretudo aquele mais pr\u00f3ximo, para que este possa corresponder \u00e0s suas expectativas e interesses.<br \/>\nPor este motivo, e \u00e9 aqui que se situa esse conflito, tenho deparado muitas vezes com pessoas ou entidades que se dedicam, intencionalmente ou sem uma consci\u00eancia clara do que est\u00e3o a fazer, a distorcer o passado ou a fabricar um \u00e0 sua medida, jamais aceitando depois ser confrontadas com dados que desacreditem as suas interpreta\u00e7\u00f5es. Poderia dar aqui dezenas de exemplos, mas limito-me a tr\u00eas, relacionados com temas do passado que me interessam e sobre os quais tenho trabalhado, e que se articulam tamb\u00e9m com a realidade objetiva com a qual convivemos.<br \/>\nO primeiro refere-se \u00e0 forma como os dois grandes sistemas concentracion\u00e1rios do s\u00e9culo passado \u2013 os campos de exterm\u00ednio da Alemanha nazi, e o Gulag estalinista, replicado na China de Mao \u2013 s\u00e3o encarados de forma profundamente desigual. Se sobre o primeiro a mem\u00f3ria do sofrimento, da crueldade, do exterm\u00ednio e do trauma s\u00e3o quase consensuais, salvo para os negacionistas apoiados em falsidades e teorias da conspira\u00e7\u00e3o, j\u00e1 sobre o segundo, a informa\u00e7\u00e3o \u00e9 bem menor e muita dela \u00e9 boicotada, mesmo sabendo-se que, tendo objetivos diversos dos do Holocausto, envolveu an\u00e1loga escala de dor, bem como uma extens\u00e3o de tempo e um n\u00famero de pessoas bem maiores. Disparidade que tem aberto caminho ao esquecimento ou \u00e0 normaliza\u00e7\u00e3o dessa terr\u00edvel experi\u00eancia.<br \/>\nO segundo exemplo respeita \u00e0 hist\u00f3ria do movimento estudantil em Coimbra entre os anos cinquenta e o fim do regime. Tem sido bastante estudado e \u00e9 hoje justamente olhado como uma \u00abescola de democracia\u00bb, instrumental na forma\u00e7\u00e3o de uma opini\u00e3o favor\u00e1vel \u00e0 queda do Estado Novo. Todavia, parte dos que nele participaram at\u00e9 \u00e0 \u00abcrise de 69\u00bb, e tamb\u00e9m muitos dos que em democracia t\u00eam integrado a vida associativa estudantil, tem \u2013 por motivos que se prendem com alguma autolegitima\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica \u2013 ignorado a import\u00e2ncia dos intensos anos do movimento vividos entre 1971 e 1974. Per\u00edodo em que este se radicalizou, passando a contestar diretamente o regime e a guerra colonial, sendo por isso objeto de uma repress\u00e3o policial muito mais feroz, e rejeitou tamb\u00e9m como retr\u00f3gradas e elitistas algumas pr\u00e1ticas culturais tradicionais da academia.<br \/>\nO terceiro exemplo, muito importante quando nos aproximamos dos 50 anos volvidos sobre o 25 de Abril, alude \u00e0 forma como no sistema de ensino s\u00e3o hoje ensinados os combates da oposi\u00e7\u00e3o aos governos de Salazar e Caetano, bem como as transforma\u00e7\u00f5es do rico e complexo per\u00edodo revolucion\u00e1rio. Enquanto os primeiros s\u00e3o praticamente omitidos, dando a errada ideia de que a maioria da popula\u00e7\u00e3o aprovava a opress\u00e3o, a ditadura e a guerra, o segundo passa por um relato muito truncado, que fornece \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es a impress\u00e3o de corresponder apenas a uma fase conturbada, cheia de \u00aberros\u00bb e \u00abexageros\u00bb, desta forma disseminando a indiferen\u00e7a pelas conquistas da democracia.<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 tarefa simples contrariar os esfor\u00e7os de quem nega, silencia, amputa ou reescreve parte da hist\u00f3ria. Sobretudo quando o que \u00e9 manipulado tem ainda influ\u00eancia direta nas vidas e nas certezas de quem recolhe o seu impacto. N\u00e3o se apercebendo de que herdou, afinal, um passado bem mais complexo e din\u00e2mico do que aquele que lhe \u00e9 relatado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rui Bebiano, Historiador, investigador do CES e autor<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":207224,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[31,5],"tags":[100,547],"class_list":["post-232545","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral","category-opiniao","tag-opiniao","tag-rui-bebiano"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/232545","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=232545"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/232545\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=232545"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=232545"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=232545"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}