{"id":233432,"date":"2022-03-05T16:42:41","date_gmt":"2022-03-05T16:42:41","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=233432"},"modified":"2022-03-05T16:42:41","modified_gmt":"2022-03-05T16:42:41","slug":"fazer-a-guerra-e-facil-dificil-e-fazer-a-guerra-a-guerra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/fazer-a-guerra-e-facil-dificil-e-fazer-a-guerra-a-guerra\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: Fazer a guerra \u00e9 f\u00e1cil, dif\u00edcil \u00e9 fazer a guerra \u00e0 guerra"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/2019\/11\/opiniao-o-afogamento-da-historia\/manuel-rocha-2\/\" rel=\"attachment wp-att-181184\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-181184\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/Manuel-rocha.jpg\" alt=\"\" width=\"2000\" height=\"1046\" \/><\/a><\/p>\n<p>A fam\u00edlia em que nasci (e cresci) n\u00e3o era adepta da guerra. Nem sequer da guerra-a-brincar. No tempo em que os mi\u00fados sonham com o paradoxo de receber uma metralhadora na pac\u00edfica quadra de Natal, o Menino Jesus negava-me, ano ap\u00f3s ano, o presente que quase todos os meus amigos exibiam nos derradeiros dias de f\u00e9rias. A muito custo pude conceber, na carpintaria do senhor Pocinho, de Condeixa, uma pistola a partir de duas sobras de madeira e um prego. E nos dias a seguir pude combater em igualdade de circunst\u00e2ncias com o Tino, o Gon\u00e7alo, a Cristina, o Jorge, o Quim e os outros guerreiros da minha Frei Tom\u00e9. Pouca guerra. Os combates acabavam com o chamamento das m\u00e3es para jantar, numa demonstra\u00e7\u00e3o de efic\u00e1cia muito superior \u00e0 de qualquer secret\u00e1rio-geral da ONU.<br \/>\nAprendi a recusar a guerra sem nunca l\u00e1 ter estado, e s\u00f3 na juventude pude experimentar a sensa\u00e7\u00e3o, ainda que em paz, de ver os m\u00edsseis passarem \u00e0 porta de casa e o ch\u00e3o estremecer sob as lagartas das colunas de tanques a caminho da parada. Uma vez viajei para a Sarajevo destru\u00edda, para acompanhar o t\u00e3o belo canto de Lena D\u2019\u00c1gua, num 10 de Junho ao p\u00e9 dos soldados portugueses ocupantes de um pa\u00eds de soberania assassinada. Atravess\u00e1mos a cidade destru\u00edda, o pa\u00eds destru\u00eddo, as crian\u00e7as nas aldeias jogando \u00e0 bola na borda de campos minados, recuperando depressa a vida que lhes foi roubada.<br \/>\nNa fam\u00edlia que ajudei a fazer nascer n\u00e3o se gosta da guerra, ainda que o Menino Jesus tenha alguma vez aberto, aqui, mais cordatas m\u00e3os para a oferta de uma pistola de setas coloridas. N\u00e3o percebo este esquecimento dos ofertadores. Porque, um par de anos antes, a minha filha de quatro anos tinha banido da sua playlist uma das can\u00e7\u00f5es preferidas \u2013 a Balada Del Soldado, de Mafalda Veiga \u2013 no dia em que lhe traduzi \u201cMadre, sabes quien mat\u00e9? \/ Aquel soldado enemigo era mi amigo Jos\u00e9 \/ Compa\u00f1ero de la escuela \/ Con qui\u00e9n tanto yo jug\u00e9 \/ de soldados y trincheiras\u201d. Aquela can\u00e7\u00e3o nunca mais foi tocada para a menina amargurada pela morte de um Jos\u00e9 do seu recreio, que n\u00e3o existiu mas foi chorado.<br \/>\nEstes s\u00e3o os dias piores para falar da guerra. Pela injusti\u00e7a da guerra que passa na TV e pela injusti\u00e7a de todas as outras guerras silenciadas. Estes s\u00e3o os piores dias para se falar da complexidade dos caminhos da guerra, j\u00e1 que a perf\u00eddia, quando \u00e9 continuada, encontra sempre na frivolidade o caminho da absolvi\u00e7\u00e3o. Estes s\u00e3o os piores dias para \u201cvisitar\u201d a guerra, conduzidos que vamos sendo pelos caminhos do \u00f3dio \u2013 \u00e9 sempre assim nas guerras a s\u00e9rio (no campo de batalha e fora dele): nas traseiras da linha de fogo h\u00e1 vizinhos que aproveitam a onda de choque para a vingan\u00e7a soez, abrindo feridas na verdade e na honra alheia, semeando armas nas m\u00e3os de quem nunca as empunhou, fazendo explodir incautos nas minas da manipula\u00e7\u00e3o. \u00c9 da Hist\u00f3ria.<br \/>\nSaiba-se, ao menos, que os combatentes pela paz n\u00e3o temem o campo de batalha. E que dar\u00e3o o corpo \u00e0s balas na luta contra os semeadores de mais bombas e costumeiro \u00f3dio \u2013 \u00e9 da Hist\u00f3ria, tamb\u00e9m -, combatendo (porventura sozinhos) nos lugares todos do mundo, de cada vez que \u00e0s crian\u00e7as seja roubado o direito ao sono sem pesadelos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Compreender a sociedade &#8211; Docente<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":181184,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[31,5],"tags":[935],"class_list":["post-233432","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral","category-opiniao","tag-manuel-rocha"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/233432","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=233432"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/233432\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=233432"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=233432"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=233432"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}