{"id":233435,"date":"2022-03-05T16:45:33","date_gmt":"2022-03-05T16:45:33","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=233435"},"modified":"2022-03-05T16:45:33","modified_gmt":"2022-03-05T16:45:33","slug":"o-povo-ucraniano-entre-a-estatistica-e-a-tragedia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/o-povo-ucraniano-entre-a-estatistica-e-a-tragedia\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: O povo ucraniano entre a estat\u00edstica e a trag\u00e9dia"},"content":{"rendered":"<p>A frase \u00aba morte de uma pessoa \u00e9 uma trag\u00e9dia, a de milh\u00f5es, uma estat\u00edstica\u00bb tem sido identificada como da autoria de Estaline. N\u00e3o existe prova documental de ter sido de facto este quem a pronunciou ou escreveu: poder\u00e1 t\u00ea-lo sido ou n\u00e3o, seja nessa exata forma ou de um modo aproximado. Em todo o caso, a possibilidade dessa autoria e a cont\u00ednua associa\u00e7\u00e3o da express\u00e3o ao seu nome s\u00e3o profundamente coerentes com o comportamento violento e implac\u00e1vel que praticamente toda a historiografia hoje reconhece como pr\u00f3prio da personalidade do ditador georgiano e compat\u00edvel com as escolhas pol\u00edticas que tomou enquanto supremo dirigente m\u00e1ximo da antiga Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Est\u00e1 tamb\u00e9m em absoluta conson\u00e2ncia com a aterradora pegada, setenta anos ap\u00f3s a sua morte ainda n\u00e3o varrida, por ele deixada nos territ\u00f3rios que governou e no mundo em geral, onde conta ainda com admiradores.<br \/>\nNesta se inclui a sombra dos acontecimentos do Holodomor, a \u00abGrande Fome\u00bb, que entre 1931 e 1933 devastou a Ucr\u00e2nia, principal celeiro da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Foi determinada por dois fatores dramaticamente coincidentes: o primeiro foi a coletiviza\u00e7\u00e3o for\u00e7ada dos campos que eliminou a pequena propriedade, at\u00e9 a\u00ed a base de produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola, expulsando os seus detentores (os \u2018kulaks\u2019), sendo o segundo as exig\u00eancias desmedidas do 1\u00ba plano econ\u00f3mico quinquenal ( 1928-1932 ), que definiu metas imposs\u00edveis de realizar, punindo com o degredo ou a morte quem as n\u00e3o cumprisse. Ao mesmo tempo, a persegui\u00e7\u00e3o pela NKVD, a impiedosa pol\u00edcia pol\u00edtica, de toda e qualquer contesta\u00e7\u00e3o, levou o terror \u00e0s cidades. Como resultado, estima-se que o volume de v\u00edtimas mortais tenha sido de 5 a 6 milh\u00f5es de pessoas \u2013 n\u00famero escasso segundo alguns historiadores \u2013 com muitas mais atingidas pela fome ou deslocadas \u00e0 for\u00e7a para outras regi\u00f5es.<br \/>\nEste sofrimento brutal dos ucranianos, por muitos interpretado como premeditado genoc\u00eddio, for\u00e7ou ent\u00e3o a vinda de muitos russos para repovoar cidades ou trabalhar como migrantes em herdades coletivas, produzindo um impacto demogr\u00e1fico que o conflito em curso vem rememorar. Uma vez mais, o povo ucraniano \u2013 que durante a Segunda Guerra Mundial sofreu ainda o avan\u00e7o direto das tropas de Hitler \u2013 \u00e9 confrontado com a mais terr\u00edvel devasta\u00e7\u00e3o, agora pela via da guerra de invas\u00e3o imposta por uma R\u00fassia com objetivos imperiais. \u00c9 neste contexto que Putin n\u00e3o v\u00ea problema algum em lan\u00e7ar uma iniciativa de destrui\u00e7\u00e3o maci\u00e7a, massacre e conquista sobre todo o territ\u00f3rio da Ucr\u00e2nia, em particular sobre Kiev, cidade de 3 milh\u00f5es de habitantes. Como, ali\u00e1s, havia feito j\u00e1 em Gr\u00f3zni, a capital da Chech\u00e9nia, e em Alepo, a maior cidade da S\u00edria com 5 milh\u00f5es de residentes, reduzidas pela avia\u00e7\u00e3o russa \u00e0 total destrui\u00e7\u00e3o f\u00edsica, com o exterm\u00ednio de centenas de milhares de habitantes, a fuga for\u00e7ada da larga maioria dos restantes e o refor\u00e7o de ditaduras locais subordinadas a Moscovo.<br \/>\nNa altura, essas chacinas foram levadas a cabo em nome dos interesses russos na regi\u00e3o. Realizadas com o aplauso dos mesmos aliados e apoiantes internacionais \u2013 alguns portugueses \u2013 que por nostalgia ou raz\u00f5es pol\u00edticas se recusam agora a condenar Putin. Defendem mesmo o seu papel, por olh\u00e1-lo como herdeiro do antigo poder sovi\u00e9tico e l\u00edder de uma resist\u00eancia geoestrat\u00e9gica aos Estados Unidos, \u00e0 Uni\u00e3o Europeia e \u00e0 NATO. Este \u00e9 um tratado militar opaco, pass\u00edvel de forte cr\u00edtica ou de oposi\u00e7\u00e3o no que respeita a diversas interven\u00e7\u00f5es militares levadas a cabo, mas que jamais atuou com a dimens\u00e3o de devasta\u00e7\u00e3o e a completa rejei\u00e7\u00e3o mundial que det\u00eam aquelas a ocorrer agora com as iniciativas de conquista do novo \u00abczar\u00bb. Para quem uma trag\u00e9dia humana imensa se pode converter em mera estat\u00edstica, sendo usada junto dos apoiantes com objetivos pol\u00edticos e imposta aos ucranianos como instrumento de opress\u00e3o e exterm\u00ednio.<a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/2018\/12\/opiniao-a-distancia-entre-as-palavras-e-as-acoes\/rui-bebiano-6\/\" rel=\"attachment wp-att-161978\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-161978\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/RUI-BEBIANO-1.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"628\" \/><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Compreender a sociedade- Professor da FLUC e investigador do CES<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":161978,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[31,5],"tags":[547],"class_list":["post-233435","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral","category-opiniao","tag-rui-bebiano"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/233435","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=233435"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/233435\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=233435"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=233435"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=233435"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}