{"id":234374,"date":"2022-03-18T11:34:48","date_gmt":"2022-03-18T11:34:48","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=234374"},"modified":"2022-03-18T11:34:48","modified_gmt":"2022-03-18T11:34:48","slug":"opiniao-o-bj-e-o-abc","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/opiniao-o-bj-e-o-abc\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: O bj e o ab\u00e7"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/BRUNO-PAIXAO.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-205891\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/BRUNO-PAIXAO.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"628\" \/><\/a><\/p>\n<p>Quem nunca enviou \u201cbjs\u201d em vez de beijos, ou um \u201cab\u00e7\u201d no lugar de um abra\u00e7o, que atire a primeira pedra! A escrita abreviada que pass\u00e1mos a empregar quando nos comunicamos pela via digital tem suscitado apreens\u00e3o entre os linguistas. Estar\u00e1 a l\u00edngua a ficar mais pobre?<br \/>\nA Internet converteu-se num laborat\u00f3rio de jarg\u00f5es, onde a linguagem r\u00e1pida e os argumentos sint\u00e9ticos encontram terreno f\u00e9rtil. Tornou-se vulgar manifestar emo\u00e7\u00f5es atrav\u00e9s de emojis, ou ainda trocar palavras completas por abreviaturas: \u201ck\u201d em vez de \u201cque\u201d, \u201cvc\u201d em vez de \u201cvoc\u00ea\u201d, \u201chj\u201d em vez de \u201choje\u201d, \u201cobgd\u201d em vez de \u201cobrigado\u201d, \u201ctb\u201d em vez de \u201ctamb\u00e9m\u201d, \u201cfds\u201d em vez de \u201cfim-de-semana\u201d, \u201cn\u201d em vez de \u201cn\u00e3o\u201d, LOL (laughing out loud) para demonstrar que se acha alguma coisa engra\u00e7ada\u2026 Tamb\u00e9m se encontrou o caminho das palavras mais curtas ao trocar letras com som semelhante, como o \u201cx\u201d em vez de \u201cch\u201d: \u201cxegas\u201d em vez de \u201cchegas, \u201caxas\u201d em vez de \u201cachas\u201d.<br \/>\nOs textos passaram a ser multimodais, ou seja, n\u00e3o t\u00eam apenas letras, mas tamb\u00e9m imagens. A entoa\u00e7\u00e3o \u00e9 conseguida prolongando as palavras: \u201coiiii\u201d, \u201cboaaaaa\u201d. E a pontua\u00e7\u00e3o tem vindo a ser suprimida, ao mesmo tempo que a combina\u00e7\u00e3o de caracteres serve para marcar um estado de esp\u00edrito: dois pontos seguidos de um par\u00eantesis formam um sorriso. Por mais estranho que pare\u00e7a, os sinais de pontua\u00e7\u00e3o que conhecemos hoje n\u00e3o existem desde sempre. O ponto de exclama\u00e7\u00e3o, por exemplo, foi introduzido na impress\u00e3o inglesa j\u00e1 no s\u00e9culo XV, e chamava-se \u201csinal de admira\u00e7\u00e3o\u201d. Quem sabe se, a curto prazo, n\u00e3o passaremos a ter nova pontua\u00e7\u00e3o?<br \/>\nUma das quest\u00f5es mais sens\u00edveis \u00e9 a aproxima\u00e7\u00e3o da escrita \u00e0 oralidade. Escrever como se fala j\u00e1 foi uma virtude recomendada. Grandes escritores fizeram-no com mestria apreciada. Contudo, ao que parece, esse tempo findou. Hoje traz-nos contrariedades. Em vez do verbo \u201cestar\u201d, muita gente escreve \u201ctar\u201d, tal como \u201ctivesse\u201d em vez de \u201cestivesse\u201d. Aqui sim, a l\u00edngua est\u00e1 a ficar mais pobre.<br \/>\nPode parecer um contrassenso, mas a Internet tem promovido, como nunca antes, o uso da escrita. A pandemia e a necessidade de se estar sempre online demonstraram que pass\u00e1mos a interagir mais atrav\u00e9s da escrita. O problema \u00e9 que essa escrita foi perdendo qualidade.<br \/>\nOs h\u00e1bitos de leitura t\u00eam vindo a ser derrotados pelos v\u00eddeos curtos que auguram ser alternativa para os mais jovens. Mas como pode um v\u00eddeo de escassos minutos no Youtube competir com uma obra liter\u00e1ria? A verdade \u00e9 que isso tem acontecido. O imediato compete com o demorado, o sint\u00e9tico compete com o profundo, o ru\u00eddo compete com o sil\u00eancio, a distra\u00e7\u00e3o compete com a compenetra\u00e7\u00e3o, a futilidade compete com o fundamental.<br \/>\nH\u00e1 quem defenda \u2013 e eu defendo tamb\u00e9m \u2013 que as mensagens r\u00e1pidas se reportam ao contexto informal das redes sociais e que, tal como os c\u00f3digos e abreviaturas dos telegramas de antigamente, o tipo de escrita r\u00e1pida n\u00e3o contamina a escrita formal.<br \/>\nJ\u00e1 l\u00e1 v\u00e3o trinta anos desde que foi enviado o primeiro SMS, em 1992. Nessa altura, as mensagens eram pagas e tinham limite de caracteres. Por isso, escrever com menos letras tornou-se uma habilidade. Mas a habilidade narcotizou os usu\u00e1rios e gerou depend\u00eancia, afetando, segundo alguns neurolinguistas, a capacidade de racioc\u00ednio. Sobretudo quando as pessoas passam a ter dificuldade em produzir textos mais extensos e mais anal\u00edticos. Assim, a simplifica\u00e7\u00e3o da linguagem e a simplifica\u00e7\u00e3o do pensamento acabam por estar relacionadas. Mas a boa not\u00edcia \u00e9 que conhecemos o ant\u00eddoto para a maleita: o h\u00e1bito de leitura.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Opini\u00e3o de Bruno Paix\u00e3o. &#8220;Estar\u00e1 a l\u00edngua a ficar mais pobre?&#8221;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[31,5],"tags":[455],"class_list":["post-234374","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral","category-opiniao","tag-bruno-paixao"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/234374","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=234374"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/234374\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=234374"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=234374"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=234374"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}