{"id":234689,"date":"2022-03-23T10:32:03","date_gmt":"2022-03-23T10:32:03","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=234689"},"modified":"2022-03-23T10:32:03","modified_gmt":"2022-03-23T10:32:03","slug":"opiniao-e-depois-da-pandemia-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/opiniao-e-depois-da-pandemia-2\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: E depois da pandemia? &#8211; 2"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/2020\/12\/opiniao-prestacao-de-cuidados-de-saude-publico-vs-privado\/manuel-antunes-7\/\" rel=\"attachment wp-att-206338\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-206338\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/MANUEL-ANTUNES.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"628\" \/><\/a><\/p>\n<p>Como prometi no m\u00eas passado, volto ao tema da pandemia, mas agora sob a perspetiva do seu impacto no Servi\u00e7o Nacional de Sa\u00fade. Durante todo este tempo, o nosso SNS esteve debaixo de fogo, por boas e m\u00e1s raz\u00f5es. Conquanto o espa\u00e7o que me \u00e9 dado n\u00e3o permita uma an\u00e1lise profunda, irei abordar alguns aspetos que me parecem essenciais.<br \/>\nA maioria dos portugueses ( 73,2%) d\u00e1 agora nota positiva ao SNS pela forma eficaz como tem respondido \u00e0 pandemia. No entanto, cerca de um quarto dos utentes afirma ter deixado de recorrer, pelo menos uma vez, ao SNS por receio de se deslocar a um hospital ou centro de sa\u00fade. A pandemia teve, pois, consequ\u00eancias diretas no acesso aos cuidados de sa\u00fade. No primeiro ano houve uma redu\u00e7\u00e3o de 46% nas consultas m\u00e9dicas presenciais nos centros de sa\u00fade, de 40% nas urg\u00eancias hospitalares e de 25% nas cirurgias. Calcula-se que ficaram por fazer mais de 100 mil cirurgias e 600 mil consultas.<br \/>\nA \u00e1rea oncol\u00f3gica foi uma das mais afetadas, a todos os n\u00edveis, desde o cancelamento de consultas e rastreios, at\u00e9 ao adiamento de tratamentos. Os doentes foram diagnosticados mais tarde, o que vai repercutir-se na capacidade de resposta de tratamento. O mesmo se aplica aos doentes card\u00edacos, especialmente os de doen\u00e7a coron\u00e1ria: A pandemia reduziu em mais de 27% a admiss\u00e3o de doentes por s\u00edndrome coron\u00e1ria aguda. Segundo a Ministra da Sa\u00fade, em 2021 fizeram-se tantas consultas e cirurgias como no ano pr\u00e9-pand\u00e9mico, contudo os doentes que foram \u2018negligenciados\u2019 durante o ano de 2020 ainda n\u00e3o tiveram a resposta necess\u00e1ria. Neste momento, existem muitas pessoas que t\u00eam um cancro ou doen\u00e7a coron\u00e1ria em evolu\u00e7\u00e3o e n\u00e3o sabem.<br \/>\nOs n\u00fameros de 2021 s\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 resultado do investimento que o Minist\u00e9rio fez no regime excecional de recupera\u00e7\u00e3o de atividade mas tamb\u00e9m de \u201cum enorme desgaste\u201d dos profissionais. Em janeiro de 2022, a OMS-Europa distinguiu os nossos profissionais de sa\u00fade em \u201creconhecimento da dedica\u00e7\u00e3o e do compromisso permanentes para melhorar a sa\u00fade e o bem-estar dos cidad\u00e3os\u201d. Mas h\u00e1 consequ\u00eancias, ainda por avaliar, do esfor\u00e7o que foi feito. Os profissionais estiveram sujeitos a uma enorme press\u00e3o durante a pandemia. O absentismo cresceu 22%. Algu\u00e9m afirmou que \u201ca resili\u00eancia tem limites e \u00e9 prov\u00e1vel que muitos profissionais abandonem o SNS no fim da pandemia\u201d. Ap\u00f3s quase dois anos, a reten\u00e7\u00e3o e desenvolvimento dos profissionais do SNS \u00e9 a nossa principal preocupa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nUma outra quest\u00e3o \u00e9 a da organiza\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os. A pandemia demonstrou a inquestion\u00e1vel indispensabilidade de um servi\u00e7o p\u00fablico que garanta o acesso a cuidados de sa\u00fade e dotado de meios materiais e humanos para uma resposta atempada e eficaz a situa\u00e7\u00f5es de emerg\u00eancia sanit\u00e1ria, a par de atividades correntes de preven\u00e7\u00e3o e de tratamento da doen\u00e7a, o que n\u00e3o foi conseguido.<br \/>\nO baston\u00e1rio da Ordem dos M\u00e9dicos afirmou que \u00e9 \u201cimportant\u00edssimo modernizar o SNS, tornando-o mais competitivo, porque tem a capacidade para o ser\u2026 para que prospere e continue a superar os desafios que a sa\u00fade exige\u201d. Mas a pandemia demonstrou evidentes dificuldades de coordena\u00e7\u00e3o, de planeamento e de gest\u00e3o. E \u201cadiou-se a resolu\u00e7\u00e3o de problemas de fundo do SNS: o atraso na integra\u00e7\u00e3o dos cuidados, as desigualdades no acesso, a falta de profissionais, as graves lacunas nos cuidados continuados, na sa\u00fade mental e na sa\u00fade p\u00fablica e o dif\u00edcil relacionamento com o setor privado\u201d. Que n\u00e3o se compreende; recordo aqui que a recente Lei de Bases da Sa\u00fade dita que \u201cquando o SNS n\u00e3o tiver, comprovadamente, capacidade para a presta\u00e7\u00e3o de cuidados em tempo \u00fatil, podem ser celebrados contratos com entidades do setor privado\u201d (Base 25, n\u00ba1 ).<br \/>\nFinalmente, temos a velha quest\u00e3o do financiamento do SNS, j\u00e1 por mim aqui abordada. Pela primeira vez, as despesas com a sa\u00fade atingiram 10,1% do PIB, o valor mais elevado desde 2009, e a despesa p\u00fablica ultrapassou 67,6% dos encargos totais. Isto \u00e9, \u201cgastou-se mais mas fez-se bem menos, o que demonstra a inefici\u00eancia dos servi\u00e7os\u201d, afirmou Manuel Delgado, Administrador Hospitalar. Ainda assim, o Conselho Estrat\u00e9gico Nacional da Sa\u00fade alertou recentemente para o \u201cgrave subfinanciamento\u201d do SNS, que apresentou um d\u00e9fice de 1.100 milh\u00f5es de euros em 2021. A quest\u00e3o, a que \u00e9 fundamental responder, \u00e9 at\u00e9 que ponto podem as finan\u00e7as do Pa\u00eds suportar as sempre crescentes necessidades.<br \/>\nEm conclus\u00e3o, os desa\ufb01os que o SNS, e o Sistema de Sa\u00fade em geral, enfrentavam no per\u00edodo pr\u00e9-pandemia saem intensi\ufb01cados por ela. As reformas necess\u00e1rias na Sa\u00fade tornaram-se cada vez mais prementes. \u00c9 fundamental desenvolver e inovar a organiza\u00e7\u00e3o do SNS, implementar uma pol\u00edtica de recursos humanos e fortalecer as rela\u00e7\u00f5es entre os setores p\u00fablico e privado.<br \/>\nSem isso, n\u00e3o vamos l\u00e1\u2026<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Manuel Antunes<br \/>\nCoordenador &#8211; Cirurgia Cardiotor\u00e1cica \u2013 Hospital CUF Coimbra<br \/>\nProfessor Catedr\u00e1tico Jubilado da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":206338,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[31,5],"tags":[1406,100],"class_list":["post-234689","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral","category-opiniao","tag-manuel-antunes","tag-opiniao"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/234689","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=234689"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/234689\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=234689"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=234689"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=234689"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}