{"id":234908,"date":"2022-03-28T09:57:52","date_gmt":"2022-03-28T09:57:52","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=234908"},"modified":"2022-03-28T09:57:52","modified_gmt":"2022-03-28T09:57:52","slug":"opiniao-por-quem-os-sinos-dobram","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/opiniao-por-quem-os-sinos-dobram\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: Por quem os sinos dobram"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Pio-Abreu-opi.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-208713\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Pio-Abreu-opi.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"628\" \/><\/a><\/p>\n<p>Em Bona conheci um m\u00e9dico alem\u00e3o de meia idade que, nos seus tempos livres, ia sentar-se nos bancos do jardim e conversar com os velhos que por l\u00e1 apareciam. Ia conhecendo as suas hist\u00f3rias, sempre na expectativa de saber o que teria acontecido aos pais que desapareceram na Segunda Grande Guerra. A minha av\u00f3 falava-me v\u00e1rias vezes do seu \u00fanico irm\u00e3o que teria partido para Espanha combater pelos republicanos. Ter\u00e1 desaparecido ap\u00f3s o cerco de Toledo pelos nacionalistas. No fundo, sempre alimentava a esperan\u00e7a de que ele alguma vez reaparecesse.<br \/>\nS\u00e3o assim as guerras e suas trag\u00e9dias. H\u00e1 quem regresse. Traumatizado (ou gazeado, como antes se dizia), estropiado ou devolvido num caix\u00e3o para que a fam\u00edlia e a P\u00e1tria os homenageiem. A maioria, por\u00e9m, simplesmente desaparece, mas os familiares, amigos ou conhecidos, mant\u00eam a esperan\u00e7a de algum dia os encontrarem. O que se passou com eles, por\u00e9m, raramente \u00e9 sabido.<br \/>\nDesde a Guerra do Golfo, come\u00e7\u00e1mos a assistir \u00e0 guerra em directo. Mas nunca como agora ela est\u00e1 t\u00e3o presente. Os seus personagens entram, visivelmente vivos, pelas nossas casas adentro, chorando os seus mortos ou desaparecidos. E n\u00f3s choramos com eles. A onda de empatia e solidariedade \u00e9 enorme, e s\u00f3 \u00e9 pena que nem todas as outras guerras tenham tido esta visibilidade. Entretanto, o terreno \u00e9 prop\u00edcio para os jogadores de xadrez discutirem sobre t\u00e1ticas e estrat\u00e9gias sem que se venham a entender.<br \/>\nPara o comum dos mortais, por\u00e9m, resta uma grande sensa\u00e7\u00e3o de impot\u00eancia. E talvez a melhor resposta seja o sil\u00eancio.<br \/>\nO sil\u00eancio tamb\u00e9m \u00e9 respeito: \u201cum minuto de sil\u00eancio\u201d. Respeito por aqueles que morrem ou sofrem no terreno, pelos estropiados, pelas fam\u00edlias destru\u00eddas, por aqueles que desaparecem. \u00c9 ainda o tempo da reflex\u00e3o enquanto n\u00e3o pudermos actuar. Pode ser um olhar para dentro, procurando aquilo que somos e podemos ser. O paradoxo humano, o melhor e o pior dentro de n\u00f3s. O que poder\u00edamos fazer se l\u00e1 estiv\u00e9ssemos.<br \/>\nEstar em sil\u00eancio n\u00e3o significa estar adormecido. \u00c9 antes estar muito atento. Atento ao mundo, \u00e0 natureza que prossegue a sua vida indiferente aos desmandos humanos. Podemos fechar os olhos e atender os sons da natureza. Embora ela possa existir sem n\u00f3s, n\u00f3s n\u00e3o existimos sem ela. Saudemos pois o nosso h\u00f3spede. Mas podemos ouvir um pouco mais, e talvez oi\u00e7amos algu\u00e9m como n\u00f3s. Podemos saber como ele faz parte de n\u00f3s porque ningu\u00e9m \u00e9 uma ilha isolada e cada um \u00e9 parte de um continente de pessoas. N\u00e3o s\u00f3 as pessoas que coexistem connosco mas tamb\u00e9m aquelas que nos precederam. Era por isso que o m\u00e9dico de Bona procurava os seus pais nos bancos do jardim e a minha av\u00f3 sempre esperava reencontrar o seu irm\u00e3o desaparecido em Toledo.<br \/>\nPodem existir momentos extremos em que a tudo se sobrep\u00f5e o som de uma ambul\u00e2ncia. Ou de uma explos\u00e3o. Ou de uma sirene. E quando tudo isto se calar, talvez possamos ainda ouvir os sinos dobrando por algu\u00e9m. E ficaremos ent\u00e3o a saber por quem os sinos dobram: os sinos dobram por todos n\u00f3s.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Opini\u00e3o Pio Abreu. &#8220;Podem existir momentos extremos em que a tudo se sobrep\u00f5e o som de uma ambul\u00e2ncia. Ou de uma explos\u00e3o. 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