{"id":235376,"date":"2022-04-02T15:18:49","date_gmt":"2022-04-02T14:18:49","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=235376"},"modified":"2022-04-02T15:18:49","modified_gmt":"2022-04-02T14:18:49","slug":"opinia-historicidade-presentismo-e-segunda-guerra-fria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/opinia-historicidade-presentismo-e-segunda-guerra-fria\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: &#8220;Historicidade, presentismo  e \u00abSegunda Guerra Fria\u00bb&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/RUI-BEBIANO-opi.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-207224 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/RUI-BEBIANO-opi.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"628\" \/><\/a><\/p>\n<p>A hist\u00f3ria vive um tempo de grandes ambiguidades. Se \u00e9 verdade que nunca foi t\u00e3o p\u00fablica \u2013 omnipresente no discurso pol\u00edtico, no cinema e na literatura, at\u00e9 na publicidade \u2013, ao mesmo tempo \u00e9 banalizada, factualizada ou manipulada a uma escala nunca vista. <strong>A banaliza\u00e7\u00e3o reduz tudo a ela, chegando ao rid\u00edculo de usar como referente \u00abhist\u00f3rico\u00bb epis\u00f3dios da vida pessoal ou momentos de um jogo de futebol.<\/strong> A factualiza\u00e7\u00e3o remete para uma observa\u00e7\u00e3o do passado limitada aos factos mais sonoros, sem trabalho de contextualiza\u00e7\u00e3o e de an\u00e1lise cr\u00edtica. J\u00e1 a manipula\u00e7\u00e3o respeita ao modo como as refer\u00eancias ao passado servem sobretudo para legitimar interesses do presente.<br \/>\nEstes tr\u00eas desvios diminuem a hist\u00f3ria enquanto forma de conhecimento, uma vez que esta tem, como condi\u00e7\u00e3o fundamental para n\u00e3o ser uma mera colagem de situa\u00e7\u00f5es vividas, n\u00e3o apenas a exist\u00eancia de meios de prova \u2013 podendo ser imaginada, jamais \u00e9 inventada \u2013, mas sobretudo a considera\u00e7\u00e3o do que se chama historicidade. Indo ao essencial, pode dizer-se que esta se explica de dois modos: por um lado, corresponde \u00e0 inscri\u00e7\u00e3o dos acontecimentos do passado no seu tempo e nas suas circunst\u00e2ncias, aceitando que estes jamais se repetem e variando de acordo com as \u00e9pocas; por outro, respeita \u00e0 no\u00e7\u00e3o do trajeto humano atrav\u00e9s do tempo como cont\u00ednuo e progressivo, emergindo do passado e sendo projetado em rela\u00e7\u00e3o ao futuro.<br \/>\nAfirmar, em rela\u00e7\u00e3o a epis\u00f3dios que presenciamos, que \u00absempre foi assim\u00bb, querendo com isto dizer que, na realidade, pouco ou nada muda, \u00e9 um erro enorme, pois isto, n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o \u00e9 verdadeiro, como serve para legitimar a apatia e a incapacidade de trabalhar para um aperfei\u00e7oamento das sociedades. Por\u00e9m, \u00e9 justamente isto que defende o chamado \u00abpresentismo\u00bb. Este termo, cunhado pelo historiador Fran\u00e7ois Hartog no livro \u00abRegimes de Historicidade\u00bb, de 2003, define-se como representando a experi\u00eancia atual do tempo, na qual o futuro deixa de suscitar qualquer esperan\u00e7a nos indiv\u00edduos, restando \u00fanica e exclusivamente o presente como inst\u00e2ncia de orienta\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia humana. A vida coletiva deixa, desta forma, de ser projetada no sentido da sua gradual melhoria, desde o passado at\u00e9 ao futuro, limitando-se \u00e0 mera gest\u00e3o do dia a dia.<br \/>\nAceitando esta perspetiva, chegar\u00edamos a uma situa\u00e7\u00e3o an\u00e1loga \u00e0 proposta em 1989 por Francis Fukuyama, quando recuperou uma velha express\u00e3o do fil\u00f3sofo Hegel e, atribuindo-lhe um outro sentido, prop\u00f4s a hoje desacreditada teoria do \u00abfim da hist\u00f3ria\u00bb. Esta considerava que o capitalismo e a democracia representativa coroavam e fechavam o desenvolvimento da hist\u00f3ria humana, n\u00e3o dando mais lugar a que qualquer outro regime econ\u00f3mico-social ou modelo de governo, passando cada novo presente a replicar aquele que o antecede. O presentismo, do qual, ali\u00e1s, Hartog falava de uma forma bastante cr\u00edtica, retoma de certa forma esta ideia, considerando a impossibilidade de alterar em profundidade a ordem do mundo.<br \/>\nO conceito serve para compreender erros de an\u00e1lise sobre a guerra de invas\u00e3o da Ucr\u00e2nia. \u00c9 de presentismo que se fala quando certas interpreta\u00e7\u00f5es a resumem a um conflito de gest\u00e3o de natureza essencialmente regional, onde n\u00e3o deveria haver lugar para a intromiss\u00e3o de pa\u00edses que n\u00e3o apenas os dois envolvidos. A paz seria, assim, desde que da parte de ambos existisse vontade, f\u00e1cil de negociar. A verdade, por\u00e9m, \u00e9 que, colocada em contexto hist\u00f3rico, esta guerra \u00e9, de facto, um epis\u00f3dio da nova \u00abSegunda Guerra Fria\u00bb, cujo lastro entronca no final da anterior, ocorrido h\u00e1 j\u00e1 mais de tr\u00eas d\u00e9cadas, e que tem sido projetada desde a chegada de Putin ao poder. Um duro e imprevis\u00edvel confronto latente, envolvendo a R\u00fassia, a China e os Estados Unidos enquanto pot\u00eancias imperiais, com a Uni\u00e3o Europeia como parte do terreno de batalha. O conflito possui, pois, uma escala global, e s\u00f3 nesta pode ser entendido.<\/p>\n<p><em>Pode ler a opini\u00e3o de Rui Bebiano na edi\u00e7\u00e3o impressa e digital do DI\u00c1RIO AS BEIRAS<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Opini\u00e3o do professor da FLUC e investigador do CES, Rui Bebiano. &#8220;A banaliza\u00e7\u00e3o reduz tudo a ela, chegando ao rid\u00edculo de usar como referente \u00abhist\u00f3rico\u00bb epis\u00f3dios da vida pessoal ou momentos de um jogo de futebol&#8221;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":207224,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[31,5],"tags":[3512,3783,546,2684,547],"class_list":["post-235376","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral","category-opiniao","tag-ces","tag-fluc","tag-investigador","tag-professor","tag-rui-bebiano"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/235376","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=235376"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/235376\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=235376"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=235376"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=235376"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}