{"id":235945,"date":"2022-04-09T11:11:17","date_gmt":"2022-04-09T10:11:17","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=235945"},"modified":"2022-04-09T11:11:17","modified_gmt":"2022-04-09T10:11:17","slug":"opiniao-5","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/opiniao-5\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: O imenso terreiro da cria\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Manuel-Rocha-opi.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-209691 size-large\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Manuel-Rocha-opi-1024x536.jpg\" alt=\"\" width=\"650\" height=\"340\" \/><\/a><\/p>\n<p>\u201cImenso\u201d foi o claustro do Convento de S\u00e3o Francisco. O p\u00fablico disposto entre as arcadas, os bailarinos entrando e saindo de \u201ccena\u201d ao som da 5.\u00aa Punkada, o sol a iluminar o primeiro quadro de TAKE A SEAT, a \u201cconfer\u00eancia dan\u00e7ada\u201d sobre cadeiras e os humanos que as imaginam, as fabricam e as usam. A \u201cculpa\u201d do encontro foi da Associa\u00e7\u00e3o H\u00e1 Baixa, que desafiou a core\u00f3grafa Madalena Victorino (Pr\u00e9mio Universidade de Coimbra 2017 ) a juntar gente desta Cidade numa atividade art\u00edstica.<br \/>\nMadalena trouxe consigo duas bailarinas e um m\u00fasico, Coimbra somou-lhes gente da APCC, do GEFAC, do TEUC, do CITAC e mais quem quis aparecer. A convocat\u00f3ria referia que \u201cIMENSO (do verso de Lu\u00eds de Cam\u00f5es \u2018Pode um desejo imenso\u2019) \u00e9 uma viagem que toma a cadeira de rodas e a cadeira como objeto simb\u00f3lico para atentar sobre quem n\u00e3o pode sair de uma cadeira e quem, pelo contr\u00e1rio, usa a cadeira como lugar do dizer art\u00edstico. Um encontro entre pessoas rolantes e pessoas caminhantes para lembrar que a defici\u00eancia e\u0301 tamb\u00e9m um lugar de poder, de desejo e de comunica\u00e7\u00e3o de uma condi\u00e7\u00e3o que deve deixar a sua invisibilidade e indiferen\u00e7a\u201d.<br \/>\n\u00c0 vida o que \u00e9 da vida (j\u00e1 se sabe), mas Madalena Victorino e os artistas do ch\u00e3o do Convento provaram que quem caminha numa cadeira usa o que tem (o que \u00e9) \u201ccomo lugar do dizer art\u00edstico\u201d. Que o diga o vocalista da 5.\u00aa Punkada, ali convertido em core\u00f3grafo, que ocupou o espa\u00e7o todo do antigo refeit\u00f3rio dos frades guiando os passos dos bailarinos-de-p\u00e9-no-ch\u00e3o; que o diga cada um dos bailarinos todos, usando o corpo como se fosse um instrumento musical \u2013 a cada um seu timbre, a cada qual um vocabul\u00e1rio. \u201cTodos diferentes, todos iguais\u201d, dizia o velho e bem-intencionado slogan, mas mal. Todos diferentes, todos diferentes \u2013 isso sim \u2013 envolvidos por igual no exerc\u00edcio coletivo da cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica.<\/p>\n<blockquote>\n<h4>&#8220;No final houve dan\u00e7a das cadeiras \u2013 da boa \u2013 no baile que a 5.\u00aa Punkada abrilhantou (como se dizia antigamente). No ecr\u00e3 do velho refeit\u00f3rio ficou a imagem de uma cadeira de pl\u00e1stico abandonada entre as ru\u00ednas de um campo de batalha (daqueles que se v\u00eam espalhando nas terras do nosso mundo). H\u00e1 cadeiras que s\u00e3o objetos de salva\u00e7\u00e3o. E h\u00e1 as que s\u00e3o iguais \u00e0s armadilhas \u2013 haja quem recuse sentar-se nelas&#8221;<\/h4>\n<\/blockquote>\n<p>Deteve-se a coreografia para dar lugar \u00e0 \u201cconfer\u00eancia\u201d, assunto de conversa e powerpoint, as ilustra\u00e7\u00f5es das cadeiras da Hist\u00f3ria em desfile no ecr\u00e3 e \u201cao vivo\u201d por todo o refeit\u00f3rio. As hist\u00f3rias das cadeiras de p\u00e9s e de rodas ditas por quem as usa e conhece, umas de resina, outras de metal; umas de empilhar, outras de dobrar; umas mais comuns, outras mais surpreendentes; umas l\u00e1 de casa, outras de outras casas. E os nomes de quem as desenhou para que fossem ch\u00e3o tamb\u00e9m: Eero Saarinen, Harry Jennings, Le Corbusier, Stephen Farfler, Verner Panton.<br \/>\nNunca terminaremos a discuss\u00e3o sobre o papel da Cultura na vida da comunidade, do mesmo modo que dificilmente chegaremos a um consenso acerca da import\u00e2ncia da Arte na constru\u00e7\u00e3o dos olhares. Seja como for, importa reter que a experi\u00eancia est\u00e9tica \u00e9 sempre o lugar que muda de cadeira \u2013 umas vezes observa, outras vezes mostra, quase sempre dialoga. N\u00e3o nos livraremos ainda da discuss\u00e3o de ser a Arte (a Cultura) uma despesa ou um bem de primeira necessidade. Mas n\u00e3o haja d\u00favida de que IMENSO s\u00f3 existiu porque houve acesso \u00e0quele terreiro de viv\u00eancias (met\u00e1fora, afinal, do que tem de significar \u2018pol\u00edtica cultural\u2019).<br \/>\nNo final houve dan\u00e7a das cadeiras \u2013 da boa \u2013 no baile que a 5.\u00aa Punkada abrilhantou (como se dizia antigamente). No ecr\u00e3 do velho refeit\u00f3rio ficou a imagem de uma cadeira de pl\u00e1stico abandonada entre as ru\u00ednas de um campo de batalha (daqueles que se v\u00eam espalhando nas terras do nosso mundo). H\u00e1 cadeiras que s\u00e3o objetos de salva\u00e7\u00e3o. E h\u00e1 as que s\u00e3o iguais \u00e0s armadilhas \u2013 haja quem recuse sentar-se nelas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cImenso\u201d foi o claustro do Convento de S\u00e3o Francisco. O p\u00fablico disposto entre as arcadas, os bailarinos entrando e saindo de \u201ccena\u201d ao som da 5.\u00aa Punkada, o sol a iluminar o primeiro quadro de TAKE A SEAT, a \u201cconfer\u00eancia dan\u00e7ada\u201d sobre cadeiras e os humanos que as imaginam, as fabricam e as usam. 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