{"id":236267,"date":"2022-04-14T11:34:43","date_gmt":"2022-04-14T10:34:43","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=236267"},"modified":"2022-04-14T11:34:43","modified_gmt":"2022-04-14T10:34:43","slug":"opiniao-o-mario-capado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/opiniao-o-mario-capado\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: &#8220;O M\u00e1rio capado&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Jose-afonso-baptista-opi.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-208096\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Jose-afonso-baptista-opi.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"628\" \/><\/a><\/p>\n<p>H\u00e1 mist\u00e9rios que o senso comum n\u00e3o sabe explicar. Muitas vezes nem mesmo a ci\u00eancia. O primeiro mist\u00e9rio do meu primo M\u00e1rio \u00e9 a sua alcunha. Porqu\u00ea o \u201ccapado\u201d se nunca foi submetido a nenhuma cirurgia para castra\u00e7\u00e3o? O segundo mist\u00e9rio \u00e9 que nunca p\u00f4de ter filhos biol\u00f3gicos. Tentou, fez exames m\u00e9dicos, mas nunca conseguiu. O \u00fanico filho que teve foi adotado. Mas h\u00e1 outros mist\u00e9rios por explicar.<br \/>\nO M\u00e1rio era meu primo direito, nasceu precisamente um m\u00eas depois de mim. Batizados no mesmo dia e \u00e0 mesma hora, os pais de um foram os padrinhos do outro.<br \/>\nAs nossas casas ficavam frente a frente na mesma rua, pod\u00edamos falar de uma varanda para a outra. Crescemos juntos, partilhando tudo, mas sobretudo o conv\u00edvio permanente entre a casa dele e a minha. Era filho \u00fanico, passava mais tempo comigo e com os meus irm\u00e3os na nossa casa, o seu ref\u00fagio para fugir \u00e0 solid\u00e3o.<br \/>\nAos sete anos entramos os dois na escola, a cem metros de casa. Quando toda a aldeia se conhece, a escola nunca \u00e9 um ambiente estranho ou agreste. Estamos a\u00ed com os nossos irm\u00e3os, primos e amigos da rua e das brincadeiras pr\u00f3prias das crian\u00e7as. A rua foi o nosso jardim de inf\u00e2ncia da socializa\u00e7\u00e3o e a escola o ponto de encontro comum.<br \/>\nO M\u00e1rio entrou feliz na escola e tudo corria dentro da normalidade entre n\u00f3s, familiares e amigos, na sala e nos recreios, t\u00ednhamos la\u00e7os anteriores \u00e0 escola que nos uniam e protegiam. Mas a boa escola que t\u00ednhamos n\u00e3o era perfeita.<br \/>\nUm dia, n\u00e3o sei como nem porqu\u00ea, o M\u00e1rio levantou-se da sua carteira e foi direito \u00e0 mesa do professor, que o olhou de frente, observando o seu andar, e exclamou com o seu vozeir\u00e3o que chamou a aten\u00e7\u00e3o das 52 crian\u00e7as na sala: oh rapaz, parece que est\u00e1s capado!<br \/>\nToda a turma riu \u00e0 gargalhada, exceto o M\u00e1rio, enxovalhado e magoado at\u00e9 \u00e0s l\u00e1grimas. Eu, quase \u201cirm\u00e3o-g\u00e9meo\u201d, n\u00e3o achei piada nenhuma e, vendo-o chorar, chorei com ele a sua m\u00e1goa. Foi o seu segundo baptismo, ali mesmo, e o segundo \u201cpadrinho\u201d foi o pr\u00f3prio professor. O pior \u00e9 que a hist\u00f3ria n\u00e3o acaba aqui. Na sala ao lado estavam 50 meninas e no recreio seguinte todas ouviram o epis\u00f3dio do M\u00e1rio capado. Foi assim que ficou a ser conhecido em toda a aldeia.<br \/>\nA partir daqui o M\u00e1rio foi outro. A sua autoconfian\u00e7a ficou destru\u00edda, a sua autoimagem abalada. A crian\u00e7a alegre e feliz, sempre sorridente, tornou-se um menino triste, sempre dependente de lideran\u00e7as alheias, muito particularmente de mim, o familiar e amigo mais pr\u00f3ximo. Na minha ingenuidade infantil, eu senti que o M\u00e1rio precisava da minha confian\u00e7a e do meu apoio e a nossa liga\u00e7\u00e3o tornou-se ainda mais forte e continuou no liceu, em Castelo Branco. S\u00f3 aqui, longe da aldeia e sem o estigma da alcunha, come\u00e7ou a libertar-se do seu complexo, que apesar de tudo ter\u00e1 deixado as suas marcas.<br \/>\nNaquele tempo, n\u00e3o havia turmas mistas, rapazes e raparigas eram educados separadamente. Foi assim na prim\u00e1ria, continuou assim no liceu. Algumas das meninas da escola da aldeia vieram frequentar o mesmo liceu, mas n\u00e3o ficou qualquer v\u00ednculo. Cruz\u00e1vamo-nos nos corredores do liceu ou nas ruas da cidade, mas ignor\u00e1vamo-nos mutuamente. Nem sequer um cumprimento ou sauda\u00e7\u00e3o.<br \/>\nNo meu quarto ano fui integrado estranhamente, v\u00e1-se l\u00e1 saber porqu\u00ea, numa turma mista. Foi o in\u00edcio de uma longa aprendizagem no feminino, num tempo em que as escolas e as turmas come\u00e7aram a ser geridas por uma percentagem crescente de mulheres e os homens come\u00e7aram a desaparecer da profiss\u00e3o docente. Pude aprender longamente, por experi\u00eancia vivida, que as desigualdades de g\u00e9nero s\u00e3o um absurdo, e aprendi igualmente a lidar com raparigas e mulheres ao longo dos anos sem o menor constrangimento. O meu primo M\u00e1rio, infelizmente, continuou sempre em turmas s\u00f3 de rapazes e aproxim\u00e1mo-nos da maioridade sem que alguma vez lhe tenha notado interesse ou aproxima\u00e7\u00e3o ao sexo oposto. Para o meu primo, o feminino continuou tabu porque para ele era um mundo desconhecido.<br \/>\nSepar\u00e1mo-nos por esta altura, ele empregou-se em Lisboa e eu rumei a Coimbra. Encontr\u00e1vamo-nos raramente e nunca dei conta de aproxima\u00e7\u00f5es do M\u00e1rio a encontros com mulheres. At\u00e9 que um dia apareceu casado com uma colega de trabalho e conclu\u00ed que o M\u00e1rio n\u00e3o conquistou, mas foi conquistado. E fiquei feliz. Afinal o M\u00e1rio tinha toda a voca\u00e7\u00e3o para ser pai e fez tudo para ser, mas, mist\u00e9rio, n\u00e3o p\u00f4de. Nunca conseguiu ter filhos biol\u00f3gicos, adotou, em desespero de causa, um menino que criou com toda a dedica\u00e7\u00e3o e carinho, mas voltou o fantasma da sua alcunha de inf\u00e2ncia. Que rela\u00e7\u00e3o, que consequ\u00eancias poder\u00e1 ter tido a humilha\u00e7\u00e3o da alcunha na incapacidade para procriar? E que rela\u00e7\u00e3o com a sua morte precoce, com o filho adotivo ainda em fase de crescimento? Mist\u00e9rios que subsistem e ainda pesam.<br \/>\nHoje ser\u00e3o raros os docentes com esta mentalidade. Mas fica uma li\u00e7\u00e3o que n\u00e3o podemos esquecer: tudo o que o professor diga aos seus alunos tem de ser para construir pontes e n\u00e3o para as destruir. Uma \u201cboca\u201d infeliz pode ter consequ\u00eancias graves.<\/p>\n<p><em><strong>(Pode ler a opini\u00e3o na edi\u00e7\u00e3o impressa e digital)<\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Opini\u00e3o de Jos\u00e9 Afonso Baptista<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":208096,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[31,5],"tags":[7915,100],"class_list":["post-236267","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral","category-opiniao","tag-joseafonsobaptista","tag-opiniao"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/236267","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=236267"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/236267\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=236267"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=236267"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=236267"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}