{"id":237623,"date":"2022-04-30T16:22:20","date_gmt":"2022-04-30T15:22:20","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=237623"},"modified":"2022-04-30T16:22:20","modified_gmt":"2022-04-30T15:22:20","slug":"a-europa-e-as-democracias-debaixo-de-ataque","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/a-europa-e-as-democracias-debaixo-de-ataque\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: A Europa e as democracias debaixo de ataque"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/RUI-BEBIANO-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-161978\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/RUI-BEBIANO-1-300x157.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"157\" \/><\/a><\/p>\n<p>A dada altura do discurso de rece\u00e7\u00e3o no parlamento a Volodimir Zelenski, presidente da Ucr\u00e2nia, Augusto Santos Silva afirmou que \u00abos pa\u00edses da Europa e do Atl\u00e2ntico Norte t\u00eam o direito de refor\u00e7ar a sua capacidade de dissuas\u00e3o\u00bb. Para uma por\u00e7\u00e3o significativa da esquerda portuguesa esta declara\u00e7\u00e3o ainda representa algo inaceit\u00e1vel. N\u00e3o custa elencar alguns dos motivos que determinam esta atitude de rejei\u00e7\u00e3o: a mem\u00f3ria dos anos da Guerra Fria, quando parte desse setor via de forma positiva o outro lado da \u00abcortina de ferro\u00bb; o entendimento da Uni\u00e3o Europeia como espa\u00e7o de afirma\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica e da economia do capitalismo neoliberal; a considera\u00e7\u00e3o do car\u00e1ter historicamente autorit\u00e1rio e belicoso do imperialismo norte-americano, do qual a NATO \u00e9 uma extens\u00e3o; e a desvaloriza\u00e7\u00e3o de poderes imperiais concorrentes, encarados at\u00e9, na l\u00f3gica do \u00abinimigo do meu inimigo, meu amigo \u00e9\u00bb, como ocasionais aliados.<br \/>\n\u00c9 sobre este \u00faltimo aspeto que existe um maior n\u00famero de d\u00favidas. No in\u00edcio da d\u00e9cada de 1990, com o desaparecimento da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e um ainda moderado poderio militar, diplom\u00e1tico e econ\u00f3mico da China, o mundo parecia tender para uma dimens\u00e3o unipolar, com uma economia global que detinha como poder dominante, refor\u00e7ado at\u00e9, os Estados Unidos da Am\u00e9rica. Por essa altura, recordar-se-\u00e3o os que estavam mais atentos, a NATO procurava at\u00e9, para justificar a exist\u00eancia, enfatizar artificialmente o perigo do que genericamente se designava \u00abfundamentalismo isl\u00e2mico\u00bb, apresentado, antes ainda das iniciativas militarmente mais violentas do Taliban e do Daesh, como uma amea\u00e7a real ao modo de vida \u00abocidental\u00bb e \u00e0 estabilidade dos Estados que integrava. Nesse contexto, era relativamente f\u00e1cil questionar a continua\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica armamentista, vista, com justeza, como instrumento de um poder que procurava manter a hegemonia militar e pol\u00edtica da superpot\u00eancia sobrevivente e dos seus aliados.<br \/>\nTodavia, perante os conflitos, as amea\u00e7as e as terr\u00edveis incertezas que temos vivido j\u00e1 neste s\u00e9culo, mergulhados numa deriva que, como referiu Timothy Snyder, parece abrir de novo \u00abo caminho para a servid\u00e3o\u00bb, essa perspetiva relativamente ben\u00e9vola da rela\u00e7\u00e3o entre paz, guerra e equil\u00edbrio mundial deve ser repensada. O confronto na Ucr\u00e2nia pode ajudar-nos a ver-nos um mais complexo e muito mais perigoso cen\u00e1rio, dentro do qual esses temas se colocam numa dimens\u00e3o de urg\u00eancia. Mesmo deixando aqui de parte o papel crescentemente agressivo da China, a crescente afirma\u00e7\u00e3o do poder imperial da R\u00fassia sob a dire\u00e7\u00e3o de Vladimir Putin tornou-se uma evid\u00eancia. Apesar de ser apenas a 11\u00aa pot\u00eancia mundial em termos de Produto Nacional Bruto, a R\u00fassia \u00e9 dona do segundo arsenal nuclear do planeta, do qual se est\u00e1 a servir para, em associa\u00e7\u00e3o com um nacionalismo extremo, incutir obedi\u00eancia e restaurar o seu peso geoestrat\u00e9gico de natureza imperial. Da Bielorr\u00fassia, S\u00edria, Ir\u00e3o e Afeganist\u00e3o \u00e0 Pol\u00f3nia, Su\u00e9cia, Finl\u00e2ndia, Estados B\u00e1lticos e Mold\u00e1via, que Putin e o seu ministro Lavrov t\u00eam repetidamente amea\u00e7ado. A agress\u00e3o brutal \u00e0 Ucr\u00e2nia deve ser entendida neste quadro.<br \/>\nFar\u00e1 ent\u00e3o sentido aceitar-se a pol\u00edtica de rearmamento da Europa na qual o governo portugu\u00eas pretende participar? Proponho um exerc\u00edcio: pegar num mapa da Europa e da \u00c1sia e observar a mancha gr\u00e1fica ocupada pelos Estados de democracia representativa e aquela preenchida por regimes de natureza ditatorial e agressiva, como \u00e9 o caso daquele sediado em Moscovo. Facilmente se perceber\u00e1 que a separa\u00e7\u00e3o entre a \u00e1rea de influ\u00eancia da NATO e a da R\u00fassia e dos seus aliados corresponde sensivelmente a essa separa\u00e7\u00e3o. Por isso, e apesar de ser imperativo democratizar a Europa e a pr\u00f3pria NATO, impedindo-a de repetir desgra\u00e7adas aventuras, existe uma clara necessidade de, na promo\u00e7\u00e3o da paz, fazer frente aos que em seu nome justificam tiranias e pol\u00edticas de conquista. Santos Silva disse ainda que \u00abdeve primeiro ganhar-se a paz, e depois \u00e9 que se pode constru\u00ed-la\u00bb. A afirma\u00e7\u00e3o pode levantar justas obje\u00e7\u00f5es, mas \u00e9 importante refletir sobre ela. Se a alternativa for a paz dos vencidos, n\u00e3o ser\u00e1 dif\u00edcil chegar a uma conclus\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Professor da FLUC e investigador do CES<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":161978,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[31,5],"tags":[],"class_list":["post-237623","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral","category-opiniao"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/237623","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=237623"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/237623\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=237623"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=237623"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=237623"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}