{"id":238029,"date":"2022-05-05T11:41:53","date_gmt":"2022-05-05T10:41:53","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=238029"},"modified":"2022-05-05T11:41:53","modified_gmt":"2022-05-05T10:41:53","slug":"opiniao-o-menina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/opiniao-o-menina\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: &#8220;O Menina&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Jose-afonso-baptista-opi.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-208096\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Jose-afonso-baptista-opi.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"628\" \/><\/a><\/p>\n<p>Um dia o meu professor prim\u00e1rio, ouvindo as sonoridades das minhas doces palavras em plena sala de aula e perante os 52 alunos da turma, exclamou: \u201coh rapaz, pareces uma menina a falar\u201d. Risada, galhofa, piadolas, tudo foi espont\u00e2neo e imediato e o resultado foi a alcunha que d\u00e1 t\u00edtulo a este texto. Da\u00ed em diante, e durante os quatro anos da prim\u00e1ria, passei a ser o Menina.<br \/>\nO importante neste epis\u00f3dio \u00e9 analisar e interpretar as consequ\u00eancias no \u00e2mbito do desenvolvimento da personalidade, dos sentimentos e comportamentos que esta alcunha pode gerar numa crian\u00e7a de sete anos. A primeira limita\u00e7\u00e3o desta an\u00e1lise adv\u00e9m do facto de que ningu\u00e9m \u00e9 bom juiz em causa pr\u00f3pria, com a agravante de que a minha cultura na \u00e1rea da psicologia \u00e9 uma brisa ligeira no universo da pedagogia. Mas tenho uma grande vantagem: fui eu que vivi e sofri a humilha\u00e7\u00e3o e serei porventura um testemunho importante na \u00e1rea dos sentimentos que ficaram bem vivos na mem\u00f3ria.<br \/>\nDurante os quatro anos da prim\u00e1ria tornei-me uma esp\u00e9cie de touro \u00e0 solta, investindo contra tudo e contra todos, passe o exagero, pela necessidade de demonstrar que n\u00e3o era a pera doce da alcunha, mas antes uma crian\u00e7a cheia de for\u00e7a, de capacidade e de iniciativa para enfrentar todos os da minha classe. Verdade que tinha uma condi\u00e7\u00e3o f\u00edsica privilegiada e sentia-me o mais r\u00e1pido nas corridas com o arco, a mergulhar e a nadar nos po\u00e7os fundos e nas ribeiras e a\u00e7udes, mas sobretudo, nas lutas corpo a corpo, deitava o advers\u00e1rio ao ch\u00e3o num instante.<br \/>\nEntrei no liceu ainda com esta necessidade de afirma\u00e7\u00e3o, embora a alcunha tenha ficado morta e enterrada na escola da aldeia. O p\u00e1tio de recreio \u00e9 sempre um lugar de conv\u00edvio, nem sempre pac\u00edfico, aqui e ali surgem pequenas querelas e confrontos. Um dia, logo no primeiro ano, um gabiru muito urbano e bem vestido meteu-se comigo j\u00e1 nem sei como nem porqu\u00ea, mas levou dois estalos e um pontap\u00e9 e fugiu a correr n\u00e3o sei para onde. Mas apareceu com um grandalh\u00e3o apontando para mim como o criminoso que o tinha desfeiteado. Percebi que era o farromba do p\u00e1tio do primeiro e segundo ciclos, o proclamado l\u00edder da miudagem. Aproximou-se sorrindo e confiante: \u201cfoi isto que te bateu?\u201d Avan\u00e7ou para mim, mas com uma rasteira e um empurr\u00e3o ficou estendido no ch\u00e3o e com a minha bota poisada na sua cara. Larguei-o, levantou-se e, hesitante, avan\u00e7ou para mim segunda vez: levou uma canelada, um murro no est\u00f4mago e foi-se embora cabisbaixo. A partir da\u00ed, o l\u00edder era eu. Ter\u00e1 sido o Menina que gerou esta agressividade \u00e0 flor da pele.<br \/>\nAs duas aprendizagens que mais me marcaram no liceu, fundamentais na minha humaniza\u00e7\u00e3o e socializa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o tiveram nada a ver com disciplinas, mat\u00e9rias, manuais, exames, nada disso: a primeira teve a ver com o desporto organizado, com os jogos de equipa, com o esp\u00edrito de grupo, o sentido da coopera\u00e7\u00e3o impl\u00edcita neste tipo de jogos. Percebi aqui, por experi\u00eancia, que o grupo era mais importante que o eu e que o meu esfor\u00e7o de nada valia se n\u00e3o respondesse aos objetivos do grupo; a segunda aprendizagem ocorreu no quarto ano, quando fui integrado numa turma mista que se repetiu at\u00e1 ao fim do 7\u00ba ano. Foi a\u00ed que aprendi o g\u00e9nero, o feminino, o verdadeiro mundo das meninas. At\u00e9 ao 4\u00ba ano, sempre estiveram num mundo \u00e0 parte, de tal modo que nunca tive nenhuma rela\u00e7\u00e3o de proximidade nem mesmo com as que vieram comigo da prim\u00e1ria. Hoje at\u00e9 me arrepia, as amizades que podia ter feito e n\u00e3o fiz, mas a \u201cboa pedagogia\u201d de ent\u00e3o impedia a socializa\u00e7\u00e3o e cultura de g\u00e9nero desde a inf\u00e2ncia, muitas vezes at\u00e9 \u00e0 universidade. Raparigas e rapazes pertenciam a mundos diferentes.<br \/>\nO deporto foi uma paix\u00e3o de inf\u00e2ncia que permanece at\u00e9 hoje. As destrezas f\u00edsicas, o exerc\u00edcio do corpo e dos m\u00fasculos s\u00e3o importantes para a sa\u00fade e o equil\u00edbrio global e o liceu foi uma excelente escola de atletismo, ao mesmo tempo que me proporcionou altas performances no salto \u00e0 vara, no tiro e na equita\u00e7\u00e3o, em parcerias com os estabelecimentos militares. Mas os jogos de equipa, voleibol e futebol, foram determinantes para passar do eu ao n\u00f3s.<br \/>\nNuma turma de rapazes e raparigas a alcunha de Menina n\u00e3o teria sentido. O seu sucesso como alcunha foi a express\u00e3o do machismo de ent\u00e3o, de um professor machista e de crian\u00e7as educadas na cultura machista. As meninas ao tempo n\u00e3o jogavam futebol, n\u00e3o andavam de bicicleta, n\u00e3o iam nadar nas ribeiras, n\u00e3o se esmurravam por tudo e por nada, quando muito puxavam-se os cabelos sempre compridos. Foi neste mundo feminino que me senti diminu\u00eddo na altura. A aprendizagem do feminino e a cultura de g\u00e9nero foram o resultado da educa\u00e7\u00e3o mista na fase da adolesc\u00eancia e da juventude. A partir daqui as minhas amizades deixaram de ter g\u00e9nero. Ainda h\u00e1 pa\u00edses e escolas que advogam a educa\u00e7\u00e3o segregada, invocando que os ciclos de desenvolvimento s\u00e3o diferentes nos rapazes e nas raparigas. A minha experi\u00eancia de educando e a minha cultura de pedagogo dizem-me que s\u00e3o vis\u00f5es distorcidas da cultura de g\u00e9nero e dos caminhos da pedagogia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Opini\u00e3o de Jos\u00e9 Afonso Baptista.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":208096,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[31,5],"tags":[8200,100],"class_list":["post-238029","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral","category-opiniao","tag-joseafonsobatista","tag-opiniao"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/238029","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=238029"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/238029\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=238029"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=238029"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=238029"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}