{"id":238196,"date":"2022-05-07T13:23:23","date_gmt":"2022-05-07T12:23:23","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=238196"},"modified":"2022-05-07T13:23:23","modified_gmt":"2022-05-07T12:23:23","slug":"opiniao-primeiro-levaram","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/opiniao-primeiro-levaram\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: Primeiro levaram&#8230;"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Manuel-Rocha-opi.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-209691\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Manuel-Rocha-opi.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"628\" \/><\/a><\/p>\n<p>A grande limita\u00e7\u00e3o da Hist\u00f3ria \u00e9 n\u00e3o poder ensinar nada a quem n\u00e3o quiser aprender. Ou a quem n\u00e3o puder aprender, j\u00e1 que parece n\u00e3o haver nada mais f\u00e1cil do que varrer a Hist\u00f3ria para debaixo do tapete das evid\u00eancias. Saiba-se, por\u00e9m, que para contrariar a vontade milenar dos povos do direito \u00e0 felicidade n\u00e3o basta ter o poder da televis\u00e3o e dos demais canais de difus\u00e3o de conte\u00fados. Porque mesmo quando um \u201cningu\u00e9m\u201d se converte em carne para canh\u00e3o de interesses que n\u00e3o s\u00e3o os seus, movido pelas emo\u00e7\u00f5es de que os humanos s\u00e3o feitos, logo regressar\u00e1 \u00e0 sua reivindica\u00e7\u00e3o principal: a da dignidade das vidas.<br \/>\nDeixou dito Salazar que \u201dse soub\u00e9sseis quanto custa mandar gostar\u00edeis de sempre obedecer\u201d, palavras secundadas em ambiente menos solene &#8211; um autocarro da linha 4, por volta dos anos de 1980 \u2013 por um velho saudosista daqueles \u201ctempos de ordem e serenidade\u201d. \u201cN\u00e3o eram\u201d, disse-lhe eu. E acrescentei que a minha leitura da Hist\u00f3ria inclu\u00eda a nenhuma serenidade de um primo ferido na Guin\u00e9, a emigra\u00e7\u00e3o das minhas primas, o vizinho do r\u00e9s-do-ch\u00e3o incorporado \u00e0 for\u00e7a no ex\u00e9rcito colonial depois de ter sido preso pol\u00edtico, o Paulito das barracas da Conchada que n\u00e3o ia \u00e0 escola e n\u00e3o tomava banho, os espancados do Congresso de Aveiro, as jornadas oposicionistas no Ateneu de Coimbra. Pudesse o meu interlocutor, e ter-me-ia calado. Mas j\u00e1 n\u00e3o podia. Outros viriam, com a mesma saudade da \u201cordem\u201d, mas sabedores de m\u00e9todos mais eficazes de conformar pensamentos. Mobilizaram-se recursos planet\u00e1rios na cria\u00e7\u00e3o de produtos universais de persuas\u00e3o, umas vezes MacGyveres e Rambos enlatados, outras vezes document\u00e1rios carregados de imagens de arquivo e prosa de cientista social.<br \/>\nAinda que seja conhecida a efic\u00e1cia da mensagem que se dirige aos canais da emo\u00e7\u00e3o, os que mandam neste mundo perceberam que contar hist\u00f3rias n\u00e3o basta para ocultar a Hist\u00f3ria e, por isso, em pleno s\u00e9culo XXI reinventa-se a censura na mesma p\u00e1gina em que, ainda agora, a censura foi denunciada; abomina-se a viol\u00eancia no mesmo tempo em que os abominadores a praticam; evoca-se a liberdade no lugar mesmo da proibi\u00e7\u00e3o. Nada que j\u00e1 n\u00e3o tenha havido \u2013 a Hist\u00f3ria \u00e9 lenta, mas vem desmentindo a inevitabilidade dos desequil\u00edbrios, neste tempo em que a escravatura j\u00e1 n\u00e3o colhe a aceita\u00e7\u00e3o geral. Condo\u00eddos que se anunciam, os poderosos s\u00e3o imunes a qualquer dor. Cuidam dos seus interesses e fazem-no com a inabilidade pr\u00f3pria dos ego\u00edstas universais: evocam a justi\u00e7a, mas tro\u00e7am dos tribunais; evocam a soberania mas amarram-na em taxas de juro; evocam a paz mas acumulam arsenais; evocam a verdade mas encarceram os assanges das den\u00fancias da arbitrariedade (humilhados e extraditados, sem defesa nem not\u00edcia).<br \/>\nTamb\u00e9m por c\u00e1 se desenham estrat\u00e9gias de domina\u00e7\u00e3o, de que a guerra aqui ao lado \u00e9 apenas um pretexto. O procedimento \u00e9 o habitual: identifica-se um inimigo visceral (ainda que se fa\u00e7a alarde da sua fragilidade e decl\u00ednio) e gasta-se vasto arsenal no festim martirizante. Mas o alvo n\u00e3o se fica por aqui. Cientes de que os inimigos n\u00e3o se medem aos palmos, os que usam as governa\u00e7\u00f5es para o desconcerto dos destinos querem mais do que um trof\u00e9u \u2013 querem tudo. Querem suprimir protestos, anseios, projetos, felicidades, evoca\u00e7\u00f5es, a pr\u00f3pria Liberdade, a Democracia ela mesma. Entretanto, chamados pelos ecr\u00e3s, alguns \u201cningu\u00e9ns\u201d alistam-se, empolgados, nas fileiras das redes sociais e no voto f\u00e1cil em que se ocultam: ofendem os \u201c\u00edmpios\u201d, partilham hist\u00f3rias disfar\u00e7adas de Hist\u00f3ria, evocam her\u00f3is resgatados \u00e0 inf\u00e2mia, revolvem a mem\u00f3ria dos mortos, aplaudem o derrube dos monumentos e a (re)crucifica\u00e7\u00e3o dos m\u00e1rtires, mergulham em trincheiras feitas para serem sepulturas. Talvez um dia caiam em si, como no caso do pastor Martin Niem\u00f6ller (nazi antes de ser prisioneiro dos nazis), que deixou este versos para a Hist\u00f3ria (vers\u00e3o de um monumento em Boston, EUA) : \u201cPrimeiro levaram os comunistas, mas eu calei-me porque n\u00e3o era comunista; \/ Depois levaram os judeus, mas eu calei-me porque n\u00e3o era judeu; \/ Depois levaram os sindicalistas, mas eu calei-me porque n\u00e3o era sindicalista; \/ Depois levaram os Cat\u00f3licos, mas eu calei-me porque era Protestante; \/ Depois levaram-me a mim, mas j\u00e1 n\u00e3o havia quem pudesse falar\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Manuel Rocha<br \/>\nDocente<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":209691,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[31,5],"tags":[935,100],"class_list":["post-238196","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral","category-opiniao","tag-manuel-rocha","tag-opiniao"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/238196","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=238196"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/238196\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=238196"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=238196"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=238196"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}