{"id":238501,"date":"2022-05-12T12:57:19","date_gmt":"2022-05-12T11:57:19","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=238501"},"modified":"2022-05-12T12:57:19","modified_gmt":"2022-05-12T11:57:19","slug":"opiniao-os-surdos-na-escola","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/opiniao-os-surdos-na-escola\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: &#8220;Os surdos na escola&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Jose-afonso-baptista-opi.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-208096\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Jose-afonso-baptista-opi.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"628\" \/><\/a><\/p>\n<p>O povo surdo atingiu a maioridade e afirma-se hoje como um povo livre, aut\u00f3nomo, com as suas l\u00ednguas gestuais oficialmente reconhecidas, com quadros pol\u00edticos e culturais altamente qualificados e conscientes do caminho percorrido e do caminho a percorrer. No plano te\u00f3rico e jur\u00eddico est\u00e1 plenamente reconhecido o estatuto de igualdade, no campo das pr\u00e1ticas e no universo das escolas h\u00e1 muito caminho por percorrer. A heran\u00e7a \u00e9 pesada porque foi constru\u00edda ao longo de mil\u00e9nios assente em pressupostos falsos. A hist\u00f3ria tr\u00e1gica do povo surdo assenta num erro de diagn\u00f3stico grave, desde a mais remota antiguidade at\u00e9 quase aos nossos dias, que conduziu a um verdadeiro \u201cholocausto\u201d para as crian\u00e7as surdas, cruelmente abatidas ou lan\u00e7adas vivas para alimento dos c\u00e3es ou das aves de rapina.<br \/>\nEste erro de diagn\u00f3stico grave determinou, em tempos mais recentes, que a educa\u00e7\u00e3o dos surdos tenha reca\u00eddo mais no campo da medicina e da defici\u00eancia do que nos campos da pedagogia ou das ci\u00eancias da linguagem. Os surdos primitivos foram afortunados porque, est\u00e1 hoje comprovado, a primeira forma de comunica\u00e7\u00e3o humana n\u00e3o foi oral, mas gestual ou, como defendem alguns autores, a linguagem gestual acompanhada de sons foi evoluindo para uma comunica\u00e7\u00e3o oral, falada, acompanhada de gestos, tal como a temos hoje. A raz\u00e3o desta evolu\u00e7\u00e3o \u00e9 simples, a l\u00edngua falada libertou as m\u00e3os e o corpo para o trabalho.<br \/>\nLimitando-me ao espa\u00e7o portugu\u00eas, o acolhimento, assist\u00eancia e educa\u00e7\u00e3o dos surdos, tudo foi obra de m\u00e9dicos e profissionais da sa\u00fade, na l\u00f3gica da surdez como defici\u00eancia, \u201csobretudo a partir da dire\u00e7\u00e3o e gest\u00e3o da Casa Pia de Lisboa por Ant\u00f3nio Aur\u00e9lio da Costa Ferreira, m\u00e9dico e pedagogo, pioneiro da psicologia do desenvolvimento e da psicologia escolar, e do m\u00e9dico otorrinolaringologista Carlos Ary dos Santos\u201d. Mas refiro tamb\u00e9m Bissaya Barreto, m\u00e9dico e cirurgi\u00e3o que criou o Instituto de Surdos-Mudos de Bencanta, Coimbra, que tinha dos surdos uma vis\u00e3o \u201cdantesca\u201d; M. Gabriela Penha, \u201cque desenvolveu com grande min\u00facia e abundante informa\u00e7\u00e3o o modelo m\u00e9dico da educa\u00e7\u00e3o dos surdos, quer na sua vertente cl\u00ednica, quer no plano dos m\u00e9todos e conte\u00fados de aprendizagem, que nos revelam at\u00e9 que ponto toda a educa\u00e7\u00e3o dos surdos foi configurada pelos profissionais da sa\u00fade\u201d; e Ant\u00f3nio Pinho e Melo, m\u00e9dico audiologista, o ide\u00f3logo mais vis\u00edvel do modelo patol\u00f3gico da surdez em Portugal.<br \/>\nSeria um erro grosseiro n\u00e3o reconhecer nem valorizar o contributo que todos prestaram ao acolhimento, assist\u00eancia e educa\u00e7\u00e3o dos surdos no nosso pa\u00eds na segunda metade do s\u00e9culo passado, num tempo em que os surdos ainda estavam proibidos de frequentar escolas p\u00fablicas. Os institutos de surdos, com grande implemento na d\u00e9cada de 60, foram as comunidades, os ninhos para a emerg\u00eancia das l\u00ednguas gestuais.<br \/>\nEste reconhecimento n\u00e3o apaga o erro de diagn\u00f3stico que desviou os surdos do seu caminho natural e que os martirizou com uma \u201cpedagogia\u201d absolutamente contr\u00e1ria \u00e0 sua natureza, pondo em causa as suas aptid\u00f5es para a aprendizagem e o seu estatuto de pessoas de pleno direito. Este erro tem atenuantes. Por um lado, a lingu\u00edstica s\u00f3 a partir da d\u00e9cada de 70 \u00e9 que descobriu e confirmou as l\u00ednguas gestuais como verdadeiras l\u00ednguas, com uma estrutura muito semelhante \u00e0s l\u00ednguas faladas, estando a maior diferen\u00e7a na natureza material dos sinais que utilizam: sinais sonoros na fala, sinais visuais nas l\u00ednguas gestuais. Por outro lado, s\u00f3 a partir da d\u00e9cada de 80 \u00e9 que as l\u00ednguas gestuais come\u00e7aram a ser reconhecidas como l\u00ednguas naturais e oficiais das comunidades surdas.<br \/>\nSe os surdos precisassem hoje de um atestado de maioridade e de intelig\u00eancia superior bastaria lembrar que, apesar de terem sido sucessivamente proibidos de utilizar os gestos nas aulas e em muitos casos mesmo no exterior, a emerg\u00eancia das l\u00ednguas gestuais em todas as comunidades de surdos conhecidas, escolares ou n\u00e3o, comprovam a primeira dimens\u00e3o da condi\u00e7\u00e3o humana, a capacidade para comunicar e para construir os c\u00f3digos adequados para a linguagem, o instrumento de suporte para o conhecimento, o pensamento organizado, o racioc\u00ednio, em suma, as faculdades superiores do c\u00e9rebro humano.<br \/>\nOs surdos j\u00e1 cumpriram o seu papel, o Estado ainda n\u00e3o. A L\u00edngua Gestual Portuguesa foi reconhecida pela Lei Constitucional n\u00ba 1\/97, de 20 de setembro, e visa: \u201cProteger e valorizar a l\u00edngua gestual portuguesa enquanto express\u00e3o cultural e instrumento de acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o e de igualdade de oportunidades\u201d. Esta \u00e9 a parte que falta cumprir. A escola ainda n\u00e3o \u00e9 igual para surdos e ouvintes.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Opini\u00e3o de Jos\u00e9 Afonso Baptista.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":208096,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[31,5],"tags":[7915,100],"class_list":["post-238501","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral","category-opiniao","tag-joseafonsobaptista","tag-opiniao"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/238501","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=238501"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/238501\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=238501"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=238501"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=238501"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}