{"id":238948,"date":"2022-05-20T17:38:19","date_gmt":"2022-05-20T16:38:19","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=238948"},"modified":"2022-05-20T17:38:19","modified_gmt":"2022-05-20T16:38:19","slug":"opiniao-a-mesa-com-portugal-as-cavacas-e-as-zamacois","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/opiniao-a-mesa-com-portugal-as-cavacas-e-as-zamacois\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: \u00c0 Mesa com Portugal \u2013 As Cavacas e as Zamac\u00f3is"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Olga-Cavaleiro.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-206624\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Olga-Cavaleiro.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"628\" \/><\/a>Para os mais distra\u00eddos as Cavacas s\u00e3o de exist\u00eancia discreta na do\u00e7aria nacional. Nem se apercebem que, no imenso receitu\u00e1rio associado a este doce, cabe um mundo de sabor t\u00e3o delicioso, t\u00e3o elegante, t\u00e3o requintado, a ilustrar bem a riqueza da do\u00e7aria portuguesa.<\/p>\n<p>Sim, muita diversidade \u00e9 o que se encontra quando falamos de Cavacas. Tema inesgot\u00e1vel, deixa-me sempre com o sentimento misto de, por um lado, \u00e1gua na boca pela diversidade que posso encontrar, por outro lado, de tristeza pelas receitas que eu sei terem-se perdido. Sim, j\u00e1 muitas se perderam, com o passar do tempo e a correria do mundo que trouxe outras novidades, ficaram submersas no leito da mem\u00f3ria coletiva. Em muitos lugares, ainda h\u00e1 quem lembre quem as fazia, mas o certo \u00e9 que j\u00e1 n\u00e3o se pode contar com o seu testemunho. Em alguns casos, at\u00e9 se sabe quais os ingredientes, e as quantidades utilizadas. Mas falta a m\u00e3o para as bater, falta o rigor dos tempos das diversas fases. \u00c9 nestes momentos que fico muito triste por n\u00e3o poder<br \/>\nprovar ainda mais Cavacas que eu sei que existiram e que brilharam de forma sumptuosa em casamentos e romarias.<\/p>\n<p>Convicta de que sempre fica uma semente, um peda\u00e7o de sabor que nos ensina a recuperar receitas perdidas, distraio-me a ler duas receitas de Cavacas no \u201cTratado de Cozinha de Copa\u201d de Carlos Bento da Maia, publica\u00e7\u00e3o de 1904. As \u201cCavacas de Alcanena\u201d cumprem no receitu\u00e1rio os elementos b\u00e1sicos e essenciais para fazer quaisquer exemplares dignos de usar aquela designa\u00e7\u00e3o. A farinha de trigo, a \u00fanica capaz de as fazer brilhar como doce fino; os ovos, a mostrar que eram afastados do quotidiano e reservados para dias de festa; azeite muito fi no, talvez o grande segredo das boas Cavacas para al\u00e9m da cozedura. Sim, estas quando bem feitas s\u00e3o suculentas at\u00e9 depois se<br \/>\nter comido a \u00faltima migalha. Mas linda, \u00e9 a receita das Zamac\u00f3is presente na mesma publica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mais elaborada, nos ingredientes e no saber-fazer, estas fazem-me sonhar com as melhores Cavacas que comi na vida e que me lembro de se desfazerem na boca pedindo sempre mais uma dentada. Diz a receita \u201cDeita-se numa vasilha de loi\u00e7a, apropriada, a farinha de trigo fina ( 500g), o a\u00e7\u00facar pilado ( 150g), a manteiga ( 150g), os ovos ( 20 ), e um pouco de sal. Bate-se muito fortemente esta mistura, junta-se lhe depois, a pouco e pouco, o azeite fervente continuando a bater a massa, a qual depois de muito bem batida se divide em por\u00e7\u00f5es e se deita em pequenas formas untadas com azeite, que v\u00e3o ao forno para<br \/>\ncozer os bolos, que devem crescer muito, para o que o forno deve ser de calor mediano.\u201d Delicio-me a imaginar o lindo espet\u00e1culo que seria ver a massa destas Zamac\u00f3is a abrir sob a for\u00e7a do calor.<\/p>\n<p>Acrescenta, C. B. da Maia que \u201cas Zamac\u00f3is s\u00e3o umas cavacas muito enfoladas, cujo nome deriva do de uma cantora de zarzuela, que causou grande entusiasmo em Lisboa em 1864 ou 1865.\u201d Se pela sensa\u00e7\u00e3o das Cavacas a desfazerem-se na boca eu queria regressar a esta receita t\u00e3o famosa nos finais do s\u00e9culo XIX, por esta hist\u00f3ria bem gostaria eu que algu\u00e9m tentasse reproduzir as Zamac\u00f3is. \u00c9 que n\u00e3o h\u00e1 nada mais lindo um doce que evoca uma mulher, por sinal, bem bonita. E quando esse doce \u00e9 uma Cavaca, ainda mais suculenta e terna fica toda a hist\u00f3ria\u2026 e o doce tamb\u00e9m.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Para os mais distra\u00eddos as Cavacas s\u00e3o de exist\u00eancia discreta na do\u00e7aria nacional. 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