{"id":239012,"date":"2022-05-21T16:24:33","date_gmt":"2022-05-21T15:24:33","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=239012"},"modified":"2022-05-21T16:24:33","modified_gmt":"2022-05-21T15:24:33","slug":"opiniao-cultura-e-trabalho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/opiniao-cultura-e-trabalho\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: Cultura \u00e9 trabalho"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/2021\/01\/opiniao-a-utilidade-dos-votos\/manuel-rocha-opi\/\" rel=\"attachment wp-att-209691\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-209691\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Manuel-Rocha-opi.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"628\" \/><\/a><\/p>\n<p>M\u00e3o-de-obra, trabalhador, recurso humano, funcion\u00e1rio \u2013 muitas palavras para definir quem faz funcionar o mundo e respetivas organiza\u00e7\u00f5es (colaborador \u00e9 outra coisa, e s\u00f3 se vem usando como desvalorizador do trabalho, em flagrante e deliberado atropelo sem\u00e2ntico). Um dia, l\u00e1 longe, descobriu-se que o trabalho podia ser facilitador dos nossos passos pelo mundo. E nunca mais os humanos o dispensaram, dependentes daquele esfor\u00e7o transformador para o essencial, e tamb\u00e9m para o acess\u00f3rio. Mais adiante descobriu-se que o trabalho era criador de riqueza e, sabe-se por l\u00e1 por que anomalia dos humanos e respetivas rela\u00e7\u00f5es, logo viria quem se aproveitasse daquela fonte inesgot\u00e1vel de cria\u00e7\u00e3o. Mercadoria que passou a ser na complexa teia das constru\u00e7\u00f5es sociais, a Civiliza\u00e7\u00e3o chegou ao nosso tempo devedora aos construtores de Tebas, a das sete portas, a quem Bertold Brecht prestou emocionado tributo.<br \/>\nSobre o que \u00e9 e n\u00e3o \u00e9 trabalho h\u00e1 por a\u00ed grande desentendimento. \u00c9 trabalho cavar o p\u00e3o para o matar das nossas fomes e, mesmo assim, t\u00e3o pouca paga merece quem afunda as m\u00e3os na terra; \u00e9 trabalho ensinar o caminho das letras, dos n\u00fameros, dos fen\u00f3menos naturais, das artes v\u00e1rias e, assim mesmo, t\u00e3o pouco apre\u00e7o merece quem por ali conduz os futuros dos nossos jovens; \u00e9 trabalho o cantar, o iluminar, representar, sonorizar, pintar, cenografar, mesmo que qualquer destes of\u00edcios demore a caber no cabaz dos bens essenciais.<br \/>\nTrabalha-se para viver. Ou, dito de outra maneira, nas muitas dimens\u00f5es que a vida tem, ocupa o trabalho espa\u00e7oso lugar, desde o apoio \u00e0 sobreviv\u00eancia at\u00e9 \u00e0s felicidades v\u00e1rias para que todos tendemos na procura do tal \u201csentido da vida\u201d. Trabalha-se no que pode ser \u2013 \u00e0s vezes com gosto, outras vezes em desgosto, muitas vezes no que pode ser. Mas n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m que, trabalhando, n\u00e3o seja n\u00f3 da rede intrincada de d\u00e1divas, recebimentos e partilhas a que chamaram sociedade.<br \/>\nNascemos diferentes, em condi\u00e7\u00e3o e direitos. N\u00e3o \u00e9 nada que a Humanidade n\u00e3o se venha empenhando em resolver, por serem mais numerosos os sem condi\u00e7\u00e3o nem direitos. Mas n\u00e3o tem sido f\u00e1cil. Muito se tem lutado para que, na sociedade de desiguais, o trabalho possa ser um direito \u2013 um recurso afinal ao servi\u00e7o da dignidade das condi\u00e7\u00f5es e dos direitos dos humanos. Porque sendo verdade que o trabalho \u00e9 o criador riqueza, tamb\u00e9m \u00e9 certo haver muito quem, trabalhando, nem por isso consiga livrar-se da pobreza. Pior ainda se o of\u00edcio em que se calhou, por escolha ou obra do destino, figure na lista daquilo que Salazar considerava ser a ocupa\u00e7\u00e3o dos \u201calegres\u201d: a cultura e os bra\u00e7os que a seguram. Pior ainda se o destino do trabalhador esteja marcado para a sorte da precariedade, ali onde os bra\u00e7os s\u00e3o mais baratos e a lei protege os mercadores de suor.<br \/>\nN\u00e3o corou de vergonha o ministro que, h\u00e1 poucos dias, afirmou \u00e0 vista de todos que \u201cn\u00f3s n\u00e3o podemos ter a ambi\u00e7\u00e3o de acabar com todos os v\u00ednculos prec\u00e1rios na Cultura\u201d. Mas coraram de vergonha alheia os que sabem (e o ministro sabe) que, em Portugal, os \u201cv\u00ednculos\u201d em algumas atividades da Cultura s\u00e3o quase todos prec\u00e1rios; e que acabar com toda a precariedade nas \u00e1reas da governa\u00e7\u00e3o que lhe entregaram pode at\u00e9 n\u00e3o ser a sua inten\u00e7\u00e3o (e n\u00e3o \u00e9) \u2013 mas ambi\u00e7\u00e3o-de-ministro \u00e9 que nunca poderia deixar de ser. Porque essa \u00e9 a justa ambi\u00e7\u00e3o dos muitos que, aqui ao lado, no Convento de S\u00e3o Francisco e outros lugares de Cultura, t\u00eam a fun\u00e7\u00e3o de participar na revela\u00e7\u00e3o do sublime \u2013 e de abrir e fechar as tais sete portas de Tebas \u2013 calhando-lhes, ao mesmo tempo, a obriga\u00e7\u00e3o de pagar a renda de casa. Quem trabalha merece considera\u00e7\u00e3o &#8211; o futuro n\u00e3o tem de ser o palco de todas as incertezas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Manuel Rocha<br \/>\nDocente<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":209691,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[31,5],"tags":[935,100],"class_list":["post-239012","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral","category-opiniao","tag-manuel-rocha","tag-opiniao"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/239012","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=239012"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/239012\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=239012"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=239012"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=239012"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}