{"id":239093,"date":"2022-05-23T18:16:16","date_gmt":"2022-05-23T17:16:16","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=239093"},"modified":"2022-05-23T18:16:16","modified_gmt":"2022-05-23T17:16:16","slug":"opiniao-a-importancia-da-historia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/opiniao-a-importancia-da-historia\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: A import\u00e2ncia da Hist\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Pio-Abreu-opi.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-208713\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Pio-Abreu-opi.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"628\" \/><\/a><\/p>\n<p>Francis Fukuyama ficou conhecido pelo seu livro de 1993, \u201cO Fim da Hist\u00f3ria\u201d. Claro que a Hist\u00f3ria n\u00e3o acabou: acelerou-se desde ent\u00e3o. Nos seus livros seguintes, dedicou-se a analisar o falhan\u00e7o da sua previs\u00e3o. Um deles intitula-se \u201cIdentidades\u201d, com o subt\u00edtulo \u201cA Exig\u00eancia de Dignidade e a Pol\u00edtica do Ressentimento\u201d. Curiosamente, Fukuyama apresenta duas solu\u00e7\u00f5es para o caos civilizacional actual: a exist\u00eancia de um servi\u00e7o militar ou c\u00edvico obrigat\u00f3rio, e um especial foco no ensino da pr\u00f3pria Hist\u00f3ria em cada na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A narrativa hist\u00f3rica, que inclui a l\u00edngua materna, \u00e9 a fonte principal da nossa identidade. Permite o entendimento dentro<br \/>\nda cada na\u00e7\u00e3o e refor\u00e7a as cren\u00e7as pelas quais damos a vida com altru\u00edsmo. Damos a vida pelos colectivos identit\u00e1rios: pela<br \/>\nfam\u00edlia, pela religi\u00e3o, pela p\u00e1tria. Neles inclu\u00edmos os pr\u00f3ximos, os antepassados e ainda aqueles que h\u00e3o-de<br \/>\nvir. Todos estes colectivos se baseiam em narrativas &#8211; familiares, religiosas, patri\u00f3ticas os mesmo club\u00edsticas &#8211; assumidas, muitas vezes escritas, mas em geral ficcionadas.<\/p>\n<p>As fontes da nossa identidade tamb\u00e9m nos d\u00e3o liberdade, pois podemos escolher a religi\u00e3o, a p\u00e1tria e mesmo a fam\u00edlia ou o clube de futebol. Esta escolha pode assumir v\u00e1rios nomes, entre os quais a convers\u00e3o. Pode levar-nos a grandes<br \/>\nmudan\u00e7as e acompanhamos nelas. Podemos tamb\u00e9m abdicar ou, temporariamente, considerar outras identidades e alian\u00e7as. A<br \/>\nideia de um inimigo comum ou o futebol est\u00e3o a\u00ed para ajudar esses malabarismos.<\/p>\n<p>Entretanto, a Hist\u00f3ria, a Arqueologia e a Antropologia est\u00e3o a refazer as narrativas conhecidas. Aquilo que, nelas, existe de<br \/>\nfic\u00e7\u00e3o, vai-se corrigindo aos poucos, mas raramente abalam os seus fundamentos. As pessoas mais cr\u00edticas e informadas podem aceitar as correc\u00e7\u00f5es, mas sempre fica algo inexpugn\u00e1vel que cimenta os colectivos. Sem as cren\u00e7as comuns, talvez n\u00e3o pud\u00e9ssemos cooperar. Por\u00e9m, \u00e0 medida que as velhas comunidades v\u00e3o acolhendo etnias e povos diferentes, as narrativas patri\u00f3ticas, religiosas e familiares s\u00e3o tamb\u00e9m consideradas de outros pontos de vista. Por exemplo, um Rei ou outro her\u00f3i pode ser visto da perspectiva daqueles que ele subjugou, tanto na sua terra como nos territ\u00f3rios que invadiu. A\u00ed, perante os mesmos factos, a Hist\u00f3ria e as cren\u00e7as que ela fundamenta ser\u00e3o outras. Se forem amplamente difundidas em situa\u00e7\u00e3o de crise, o cidad\u00e3o comum sentir-se-\u00e1 perplexo e pronto a contradizer as suas cren\u00e7as, com preju\u00edzo da comunidade que as partilhava.<\/p>\n<p>Todas as hist\u00f3rias das guerras civis apontam para uma invers\u00e3o radical das cren\u00e7as comuns. Vale ent\u00e3o a pena ensinar a Hist\u00f3ria, como Fukuyama prop\u00f5e? A resposta n\u00e3o \u00e9 simples. Por um lado, uma narrativa hist\u00f3rica que glorifica que os vencedores, sem considerar o ponto de vista dos vencidos e subjugados, refor\u00e7a os nacionalismos mais fan\u00e1ticos. Por outro lado, a exist\u00eancia de narrativas hist\u00f3ricas inconcili\u00e1veis, dentro da mesma comunidade, aumenta os conflitos e prejudica a coopera\u00e7\u00e3o. A quest\u00e3o \u00e9 delicada mas necessita de aten\u00e7\u00e3o. N\u00e3o sei se os professores de Hist\u00f3ria j\u00e1 se aperceberam da sua import\u00e2ncia. Mas s\u00e3o eles que ter\u00e3o de ajustar o ensino, sabendo que est\u00e3o a trabalhar pela paz<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Francis Fukuyama ficou conhecido pelo seu livro de 1993, \u201cO Fim da Hist\u00f3ria\u201d. Claro que a Hist\u00f3ria n\u00e3o acabou: acelerou-se desde ent\u00e3o. Nos seus livros seguintes, dedicou-se a analisar o falhan\u00e7o da sua previs\u00e3o. Um deles intitula-se \u201cIdentidades\u201d, com o subt\u00edtulo \u201cA Exig\u00eancia de Dignidade e a Pol\u00edtica do Ressentimento\u201d. 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