{"id":239433,"date":"2022-05-29T11:19:52","date_gmt":"2022-05-29T10:19:52","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=239433"},"modified":"2022-05-29T11:19:52","modified_gmt":"2022-05-29T10:19:52","slug":"celebrar-a-vida-e-a-morte-em-varanasi-india-2017","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/celebrar-a-vida-e-a-morte-em-varanasi-india-2017\/","title":{"rendered":"Celebrar a vida e a morte em Varanasi, \u00cdndia-2017"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/13-Bagagem-descrita-Varanasi-B.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-239434\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/13-Bagagem-descrita-Varanasi-B.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"628\" \/><\/a><\/p>\n<p>H\u00e1 cidades com um nome t\u00e3o sonante que nos fazem depreender que encerram em si algo de muito especial, qualquer coisa que n\u00e3o se percebe bem o que ser\u00e1 antes de chegarmos, mas que rapidamente perceberemos o porqu\u00ea de um conjunto de letras dar origem a uma palavra t\u00e3o encorpada. Varanasi \u00e9 um desses raros casos.<br \/>\nNos ghats, as v\u00e1rias escadarias que d\u00e3o acesso ao rio m\u00e3e deste pa\u00eds, filas de peregrinos fazem um percurso pendular at\u00e9 \u00e0s suas \u00e1guas, t\u00e3o polu\u00eddas quanto sagradas para aqui se purificarem da vida terrena. Muitos, trazem uma garrafa para encher desta mat\u00e9ria que cont\u00e9m muito mais que os compostos qu\u00edmicos naturais. \u00c9 um elixir para muitos males, sonhos, esperan\u00e7as e inseguran\u00e7as.<br \/>\nJ\u00e1 de noite, dirijo-me para o ghat de Manikarnika, onde qualquer hindu deseja ser cremado. Cruzo-me com uma pequena prociss\u00e3o a carregar um defunto numa padiola de bambu. \u00c9 \u00f3bvio o destino que eles tomar\u00e3o, e ser\u00e1 o mesmo que o meu. Segui-os at\u00e9 chegar a um espa\u00e7o mais aberto, junto ao Ganges. Aqui, entrei noutro mundo, mergulhando num microcosmos que transbordava da \u00f3rbita da minha compreens\u00e3o e conhecimento. Aqui, h\u00e1 crema\u00e7\u00f5es a todas as horas, a todos os minutos do dia e da noite.<br \/>\nPelo caminho, os vendedores de lenha fazem a vida ao negociarem 250 quilos para cada cliente, a quantidade necess\u00e1ria para uma crema\u00e7\u00e3o aceit\u00e1vel. Tudo aqui \u00e9 consumido como se fosse sangue num corpo humano, mas numa dimens\u00e3o de chama eterna. As labaredas, o fumo omnipresente que se apodera de n\u00f3s sem d\u00f3 nem piedade, que nos faz chorar os olhos j\u00e1 avermelhados que n\u00e3o aguentam uma brutalidade que se v\u00ea e se sente t\u00e3o fortemente. Essas mesmas labaredas, imortais fontes de purifica\u00e7\u00e3o dos corpos que consomem num constante ciclo que nos mostra tamb\u00e9m o que \u00e9 a vida, exist\u00eancia t\u00e3o fugaz que acaba resumida a cinzas e a nada, como a caveira que parecia que olhava para mim, no meio das chamas, cr\u00e2nio de algu\u00e9m que viveu, que teve o seu lugar no mundo, que amou e que foi amado, e agora est\u00e1 ali, a desfazer-se junto dos seus familiares mais chegados. Quem pode ficar indiferente perante isto?<br \/>\nTodo este cen\u00e1rio, j\u00e1 por si t\u00e3o fantasmag\u00f3rico, \u00e9 consumido pelo som vibrante e desenfreado de c\u00e2nticos a um ritmo t\u00e3o fren\u00e9tico que leva ao \u00eaxtase at\u00e9 os mais insens\u00edveis. Cinematogr\u00e1fico \u00e9 um eufemismo para descrever tudo isto. Aqui \u00e9 mesmo a realidade, a \u201cVerdade\u201d para muitos. O corpo chega, \u00e9 banhado nas \u00e1guas para a sua purifica\u00e7\u00e3o e depois colocado numa pira a que o sacerdote deita fogo e ali fica a arder, junto de tantos outros, num certo anonimato e privacidade. No fim, o sacerdote espeta um pau num peda\u00e7o do que resta e atira-o ao rio, pega numa enorme ta\u00e7a de barro, enche-a de \u00e1gua e ao voltar \u00e0 pira, vira-se de costas e atira-a para as chamas que reduziram a nada quem ali ficou. Isto, multiplicado por centenas ou milhares, todos os dias. Tudo isto \u00e9 um gesto mec\u00e2nico de quem aqui faz a sua vida, esperando os mortos que aqui chegam. E tudo continua, noite dentro, com as intermin\u00e1veis prociss\u00f5es de gente que aqui chega numa dial\u00e9tica t\u00e3o singular.<br \/>\nLimito-me a olhar, a tentar respirar, a ver a celebra\u00e7\u00e3o da vida, da morte e da reencarna\u00e7\u00e3o com a roupa e a c\u00e2mara a ficarem com uma crescente camada de cinza daqueles que j\u00e1 foram aquilo que eu sou, e que eu sei que serei aquilo que eles s\u00e3o. Varanasi \u00e9 tudo isto. Ali\u00e1s, \u00e9 muito, muito mais do que possa expressar ou mostrar atrav\u00e9s de imagens ou v\u00eddeos. \u00c9 muito mais do que a soma de todas as suas partes.<br \/>\nBasta ser Varanasi, como o seu potente nome indica.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 cidades com um nome t\u00e3o sonante que nos fazem depreender que encerram em si algo de muito especial, qualquer coisa que n\u00e3o se percebe bem o que ser\u00e1 antes de chegarmos, mas que rapidamente perceberemos o porqu\u00ea de um conjunto de letras dar origem a uma palavra t\u00e3o encorpada. 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