{"id":239810,"date":"2022-06-03T11:55:32","date_gmt":"2022-06-03T10:55:32","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=239810"},"modified":"2022-06-03T11:55:32","modified_gmt":"2022-06-03T10:55:32","slug":"opiniao-a-mesa-com-portugal-acorda-como-metafora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/opiniao-a-mesa-com-portugal-acorda-como-metafora\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: &#8220;\u00c0 Mesa com Portugal &#8211; A\u00e7orda como Met\u00e1fora&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/OLGA-CAVALEIRO.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-176233\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/OLGA-CAVALEIRO.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"628\" \/><\/a><\/p>\n<p>O complexo e o simples caminham lado a lado, sendo que o primeiro deriva do segundo e \u00e9 s\u00f3 um sinal dos acrescentos que gostamos de juntar \u00e0 emo\u00e7\u00e3o primeira. Na cozinha n\u00e3o \u00e9 diferente. Por isso, falar de gastronomia portuguesa pode ser tarefa simples e descomplicada. Basta pensar que tudo come\u00e7ou com a necessidade b\u00e1sica da fome, mas logo, logo revelou-se o gosto, a nossa prefer\u00eancia por alguns alimentos ao inv\u00e9s de outros. Por isso, descobrimos com af\u00e3 que os bivalves podiam ser alimento saboroso e comemos at\u00e9 \u00e0 exaust\u00e3o, mas em per\u00edodos menos abonados l\u00e1 nos fic\u00e1mos pelos carac\u00f3is. H\u00e1bito, que por sinal, ainda hoje repetimos. Mas s\u00f3 alguns de n\u00f3s, que o gosto afirmou-se. Deix\u00e1mos fermentar a cultura em n\u00f3s, portanto.<br \/>\nMas, de novo, pensar a gastronomia portuguesa. Simples, na verdade. Tal e qual como uma a\u00e7orda. Claro que me refiro \u00e0 a\u00e7orda alentejana, que as outras desta derivam. Legado \u00e1rabe, \u00e9 um hino \u00e0 simplicidade. Por isso, gosto tanto da ideia de a\u00e7orda. S\u00f3 podia ser obra de um povo itinerante, habituado a calcorrear dist\u00e2ncias e, por isso, sabedor de que a cozinha, primeiro que tudo, mata a fome e, nesse registo, n\u00e3o deve exigir muito de quem a faz. Na verdade, \u00e9 uma receita que nem de cozinha f\u00edsica precisa. Com alho, sal e algumas ervinhas de cheiro faz-se um piso. Acrescenta-se um fio de azeite, miga-se o p\u00e3o e rega-se com \u00e1gua a ferver. Nada mais.<br \/>\n\u00c9 claro que, em momentos de maior fortuna e tendo em conta a necessidade de suprir necessidades f\u00edsicas, foi-se juntando algo mais para dar prote\u00edna. Da\u00ed o ovo escalfado ou o almece (soro do queijo) acrescentados \u00e0 receita base. E, depois, o bacalhau entranhou-se no gosto portugu\u00eas e a \u00e1gua passou a ser da cozedura de um rabo de bacalhau. E a ideia foi crescendo, respondendo a necessidades, satisfazendo gostos, cumprindo apetites. E a receita foi ficando maior, foi recebendo acrescentos.<br \/>\nMas o mais bonito da a\u00e7orda como met\u00e1fora da gastronomia portuguesa \u00e9 que, se pensarmos bem, quando o p\u00e3o recebe a \u00e1gua derramada, ele abebera at\u00e9 ao ponto ideal. E essa \u00e9 a hist\u00f3ria da gastronomia portuguesa. Desde os prim\u00f3rdios da humanidade que a cultura gastron\u00f3mica foi abeberando segundo um in\u00famero conjunto de circunst\u00e2ncias at\u00e9 ao ponto ideal. E da\u00ed nasceu a ideia de \u201cponto de cozedura\u201d, \u201cpontos do a\u00e7\u00facar\u201d, \u201cno ponto\u201d para o qual contribuem e tanto o qb, a macheia, a machinha, o punhado, a colherzinha, o p\u00facaro, o poucochinho, o raminho, quantidades que dependem mais da m\u00e3o e do entendimento da cozinheira e menos da certifica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica da receita.<br \/>\nE mais, a a\u00e7orda \u00e9 uma inspira\u00e7\u00e3o. Sozinhos, os ingredientes nada seriam. O p\u00e3o seria apenas p\u00e3o duro dif\u00edcil de engolir. O alho, um condimento dif\u00edcil de suportar. As ervas, um tra\u00e7o solto sem encaixe. A \u00e1gua, uma virtude sem sabor. O azeite, uma gordura somente. Em conjunto formam uma receita que conta apaixonadamente a hist\u00f3ria da gastronomia portuguesa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Opini\u00e3o de Olga Cavaleiro.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":176233,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[31,5],"tags":[6936,100],"class_list":["post-239810","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral","category-opiniao","tag-olgacavaleiro","tag-opiniao"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/239810","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=239810"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/239810\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=239810"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=239810"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=239810"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}