{"id":240017,"date":"2022-06-07T21:12:52","date_gmt":"2022-06-07T20:12:52","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=240017"},"modified":"2022-06-07T21:12:52","modified_gmt":"2022-06-07T20:12:52","slug":"bagagem-descrita-leite-em-po-e-uma-mochila-cuba-2009","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/bagagem-descrita-leite-em-po-e-uma-mochila-cuba-2009\/","title":{"rendered":"Bagagem d\u2019escrita: Leite em p\u00f3 e uma mochila | Cuba &#8211; 2009"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/2022\/06\/bagagem-descrita-leite-em-po-e-uma-mochila-cuba-2009\/thumbnail_2-bagagem-descrita-leite-em-po-e-uma-mochila\/\" rel=\"attachment wp-att-240018\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-240018 size-large\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/thumbnail_2-Bagagem-descrita.-Leite-em-po\u0301-e-uma-mochila-1024x682.jpg\" alt=\"\" width=\"650\" height=\"433\" \/><\/a><\/p>\n<p>Saio do aeroporto de Havana com Enrique e Marla, amigos cubanos que conheci na internet, que me iriam alojar na sua casa. Sobressai o ru\u00eddo do roncar dos motores de ve\u00edculos que remontam \u00e0 d\u00e9cada de 40, mas que, gra\u00e7as \u00e0 per\u00edcia e habilidade dos mec\u00e2nicos, prolongam indefinidamente o seu funcionamento, conferindo-lhes uma aura imortal. O momento vale, em si, pelo espet\u00e1culo sonoro e visual. Como se estiv\u00e9ssemos num museu do autom\u00f3vel ao ar livre e tudo em nosso redor ganhasse vida. O seu pai alugou um velho Fiat da d\u00e9cada de 70 para me ir buscar. Paguei-lhe a despesa, bem como o combust\u00edvel, como tinha combinado anteriormente, dado que o valor em causa, 20 euros, era superior ao do seu ordenado.<br \/>\nSeguimos rumo ao centro j\u00e1 no findar do dia. Sob um ambiente abafado, ao qual ainda n\u00e3o me tinha adaptado, chegamos ao cora\u00e7\u00e3o de Havana. O seu pai abranda o ve\u00edculo quando passamos na Pra\u00e7a da Revolu\u00e7\u00e3o para eu poder ver famoso o mural com a silhueta de Che Guevara sobre um \u201cHasta La Victoria Siempre\u201d na parede do Minist\u00e9rio do Interior. Chegamos junto ao mar, e percorremos toda a marginal, o \u201cMalec\u00f3n\u201d, um pared\u00e3o feito pelo governo dos Estados Unidos no in\u00edcio do s\u00e9culo passado, pouco depois de ter ocupado a ilha \u00e0 coroa espanhola, usado como um sof\u00e1 de bet\u00e3o armado de oito quil\u00f3metros onde os locais aproveitam para se sentar e conversar, tomar banho ou mesmo pescar. Enquanto atravessamos toda a sua extens\u00e3o, j\u00e1 sob a aragem fresca mar\u00edtima, apercebo-me do modo de vida simples deste povo, entregue a pequenos prazeres que a sua humilde exist\u00eancia lhes proporciona, trocando dedos de conversa com os olhares fixos no azul turquesa dessas \u00e1guas, ou os abra\u00e7os de casais com um p\u00f4r-do-sol laranja fogo como horizonte.<br \/>\nChegamos finalmente \u00e0 sua casa, numa humilde aldeia de pescadores que dista uns dez quil\u00f3metros da cidade. A esta hora, os moradores t\u00eam por h\u00e1bito encontrar-se \u00e0 porta de casa, \u00e0 conversa com os vizinhos. Sentados em pequenas cadeiras desgastadas pelo passar dos anos, ou mesmo no ch\u00e3o, passam ali horas numa boa disposi\u00e7\u00e3o que ajuda a passar do tempo. Numa rua que n\u00e3o ter\u00e1 mais de uma centena de metros, s\u00e3o largas dezenas que trocam o tempo passado no lar frente ao televisor a estar c\u00e1 fora com um pequeno r\u00e1dio ligado, com o som por vezes abafado pelas gargalhadas ou da maior efusividade de quem tem sempre algo para acrescentar \u00e0 conversa que se p\u00f5e em dia numa dial\u00e9tica intermin\u00e1vel.<br \/>\nComo \u00e9 um jantar especial, manda-se vir comida de fora. Chega algu\u00e9m de bicicleta com umas embalagens de cart\u00e3o que cont\u00e9m arroz, peda\u00e7os de carne de porco, mandioca e vegetais. O seu pai opta por beber o seu suplemento vitam\u00ednico que o Estado proporciona aos cidad\u00e3os maiores de 60 anos.<br \/>\nAntes de partir de Portugal, perguntei-lhe o que gostava que lhe levasse do meu pa\u00eds, sabendo que alguns produtos lhes s\u00e3o quase inalcan\u00e7\u00e1veis pelo valor astron\u00f3mico que atingem, fruto das limita\u00e7\u00f5es que diariamente sentem devido ao embargo norte-americano que j\u00e1 dura h\u00e1 meio s\u00e9culo. A sua escolha recaiu para leite em p\u00f3 e uma mochila pequena, algo t\u00e3o b\u00e1sico, t\u00e3o simples, que eu nunca pensaria em tal coisa.<br \/>\nA casa era pequena. Tinha dois quartos, o dele e o do pai, uma sala de estar, cozinha, onde se encontrava uma botija de g\u00e1s de tamanho industrial, e casa de banho. O corpo dava sinais de cansa\u00e7o e exigia repouso. Dormi no quarto dele, num pequeno colch\u00e3o que colocou no solo. Na parede, sobressa\u00eda um retrato de Che Guevara mesmo em cima da sua cama. Perguntei-lhe por que \u00e9 que n\u00e3o tinha tamb\u00e9m um de Fidel, ao que ele respondeu que isso impllicaria \u201cuma longa conversa\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Lu\u00eds Santos<br \/>\nProfessor de Hist\u00f3ria e fot\u00f3grafo<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":240018,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[8483,450,100],"class_list":["post-240017","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao","tag-bagagemdeescrita","tag-jose-luis-santos","tag-opiniao"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/240017","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=240017"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/240017\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=240017"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=240017"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=240017"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}