{"id":240675,"date":"2022-06-18T09:30:46","date_gmt":"2022-06-18T08:30:46","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=240675"},"modified":"2022-06-18T09:30:46","modified_gmt":"2022-06-18T08:30:46","slug":"opiniao-como-o-tempo-passa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/opiniao-como-o-tempo-passa\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o. &#8220;Como o tempo passa&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/MANUEL-CASTELO-BRANCO.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-222419\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/MANUEL-CASTELO-BRANCO.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"628\" \/><\/a><\/p>\n<p>\u201cComo o tempo passa\u201d \u00e9 o nome de um dos mais belos e secretos romances do s\u00e9culo XX. De Robert Brasillach, de obra e vida breve (fuzilado no p\u00f3s guerra por colaboracionismo, n\u00e3o obstante os apelos de Sartre e de Malraux). Romance que, no cap\u00edtulo A noite de Toledo, cont\u00e9m algumas das mais fulgurantes p\u00e1ginas sobre o amor er\u00f3tico.<br \/>\nE, no entanto, como lucidamente observou Eduardo Louren\u00e7o, o tempo n\u00e3o passa. Somos n\u00f3s que passamos pelo tempo.<br \/>\nViver com a percep\u00e7\u00e3o aguda do passar do tempo significa existir na pris\u00e3o de um quotidiano acelerado. Uma vida dominada pela exaust\u00e3o do trabalho e do consumo \u00e9 uma vida existencialmente breve, ainda que cronobiologicamente longa.. Uma vida sem densidade, sem profundidade, sem miradouros nem \u00e2ncoras. Uma vida que reduz o \u00f3cio a um circular \u201cmatar do tempo\u201d. Uma vida que desliza r\u00e1pido na clepsidra do corpo.<br \/>\nO tempo n\u00e3o passa. Somos n\u00f3s que n\u00e3o vivemos.<br \/>\nPeter Handke, no Poema \u00e0 dura\u00e7\u00e3o, na esteira de Hannah Arendt (ela mesma em declina\u00e7\u00e3o do Heidegger tardio), v\u00ea na eternidade dos instantes m\u00e1gicos \u2013 o acenar a um filho no autocarro escolar que se afasta, o iluminar s\u00fabito de um rosto amado, o zumbido das abelhas num fim de tarde estival, o enovelar silencioso dos enamorados \u2013 o ant\u00eddoto da corros\u00e3o dos corpos.<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 o estar \u201c ligado \u00e0 corrente\u201d do trabalho e do consumo que nos torna especificamente humanos. Ser um puro \u201canimal laborans\u201d n\u00e3o \u00e9 destino particularmente exaltante.<br \/>\nO que nos torna especificamente humanos \u00e9 a pr\u00e1tica do \u00f3cio, o mergulhar no espanto contemplativo, o balan\u00e7o entre o \u201cdolce far niente\u201d e a contempla\u00e7\u00e3o ativa. A lentid\u00e3o e n\u00e3o a acelera\u00e7\u00e3o. O sabor das coisas e n\u00e3o a fun\u00e7\u00e3o dos objetos. O deslumbramento e n\u00e3o a performance. E a festa.<br \/>\nSomos feitos para a festa. \u00c9 a dimens\u00e3o l\u00fadica, ao lado do amor ( e n\u00e3o a raz\u00e3o), que define a natureza humana, como Pier-Vincenzo Piazza esclarece no magn\u00edfico \u201cHomo biologicus \u201c.<br \/>\nN\u00e3o somos, n\u00e3o devemos ser, n\u00e3o temos que ser velozes. A velocidade \u00e9 atributo ideal das m\u00e1quinas. N\u00e3o somos, n\u00e3o devemos ser, n\u00e3o temos que ser m\u00e1quinas.<br \/>\nA velocidade gasta-nos, desgasta-nos, envelhece-nos. A velocidade \u00e9 a antec\u00e2mara da morte.<br \/>\nViver \u00e9 existir na dura\u00e7\u00e3o. O que Ruy Belo, na concis\u00e3o que apenas a poesia permite, registou de modo definitivo, em Orla mar\u00edtima:<br \/>\n\u201cSomos crian\u00e7as feitas para grandes f\u00e9rias\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Opini\u00e3o de Manuel Castelo Branco.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[31,5],"tags":[8795],"class_list":["post-240675","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral","category-opiniao","tag-opiniao-de-manuel-castelo-branco"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/240675","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=240675"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/240675\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=240675"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=240675"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=240675"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}