{"id":241138,"date":"2022-06-25T12:48:51","date_gmt":"2022-06-25T11:48:51","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=241138"},"modified":"2022-06-25T12:48:51","modified_gmt":"2022-06-25T11:48:51","slug":"opiniao-guerra-identidade-e-aversao-ao-outro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/opiniao-guerra-identidade-e-aversao-ao-outro\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o &#8211; Guerra,  identidade e avers\u00e3o ao outro"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/2020\/12\/opiniao-a-ignorancia-e-atrevida-e-perigosa\/rui-bebiano-opi\/\" rel=\"attachment wp-att-207224\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-207224\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/RUI-BEBIANO-opi.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"628\" \/><\/a><\/p>\n<p>Sendo uma verdade que a hist\u00f3ria jamais se repete, pode ter alguma utilidade, na tentativa de compreender momentos complexos da vida dos povos e das na\u00e7\u00f5es, ensaiar compara\u00e7\u00f5es entre situa\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas situadas em diferentes tempos e lugares. Ao procurar refutar o fil\u00f3sofo Hegel por este ter afirmado que todos os factos e personagens de import\u00e2ncia na hist\u00f3ria mundial ocorriam duas vezes, Marx escreveu no \u00ab18 de Brum\u00e1rio de Lu\u00eds Bonaparte\u00bb, terminado em 1852, que \u00abele esqueceu-se de acrescentar: a primeira como trag\u00e9dia, a segunda como farsa\u00bb. Vejamos se isto pode ser aplicado a um arriscado exerc\u00edcio de compara\u00e7\u00e3o entre o Portugal do s\u00e9culo XVII e a atual Ucr\u00e2nia.<br \/>\nA independ\u00eancia do reino de Portugal foi confirmada pelo papa Alexandre III no distante ano de 1179. Todavia, a efetiva defini\u00e7\u00e3o de Portugal como Estado dotado de identidade pr\u00f3pria e diferenciada, que o conjunto dos seus naturais se encontrasse em condi\u00e7\u00f5es de reconhecer e de adotar como suas, ocorreu perto de cinco s\u00e9culos mais tarde, durante a longa Guerra da Restaura\u00e7\u00e3o da independ\u00eancia travada contra Madrid entre 1640 e 1668. A par da reestrutura\u00e7\u00e3o do ex\u00e9rcito para as necess\u00e1rias opera\u00e7\u00f5es militares, da reforma das estruturas dos poderes central e local e de uma din\u00e2mica atividade diplom\u00e1tica destinada a conquistar aliados, na qual a pr\u00f3pria Igreja cat\u00f3lica desempenhou um papel, boa parte do esfor\u00e7o das novas autoridades dedicou-se a iniciativas na \u00e1rea do que pode hoje designar-se a cultura e a comunica\u00e7\u00e3o, destinadas a mobilizar a popula\u00e7\u00e3o para o esfor\u00e7o de guerra.<br \/>\nNuma altura em que o castelhano se tornara j\u00e1 a l\u00edngua mais usada entre as elites cultas, foi realizado trabalho para autonomizar e dinamizar a l\u00edngua portuguesa, tendo a edi\u00e7\u00e3o de livros e a imprensa escrita \u2013 o primeiro jornal nacional, a \u00abGazeta da Restaura\u00e7\u00e3o\u00bb, surgiu em 1641 \u2013 desempenhado um papel crucial. Como exemplo, o escritor, pol\u00edtico e militar Francisco Manuel de Melo, hoje figura not\u00e1vel da hist\u00f3ria liter\u00e1ria de ambos os Estados ib\u00e9ricos, n\u00e3o mais voltou a escrever em castelhano. Foram tamb\u00e9m de grande import\u00e2ncia a publica\u00e7\u00e3o de obras de car\u00e1ter hist\u00f3rico, geogr\u00e1fico e propagand\u00edstico destinadas a sublinhar a legitimidade hist\u00f3rica da independ\u00eancia e a dar \u00e0 popula\u00e7\u00e3o uma ideia sustentada da dimens\u00e3o e da diversidade do reino. O conhecido anti-espanholismo de que parte importante dos portugueses ainda n\u00e3o se emancipou de todo radica em boa medida nesse esfor\u00e7o.<br \/>\nUm conjunto de medidas adotadas na Ucr\u00e2nia no atual contexto de guerra com a R\u00fassia evoca, com o devido distanciamento hist\u00f3rico, esta experi\u00eancia. A resist\u00eancia armada perante o mais poderoso Estado agressor tem sido acompanhada de iniciativas destinadas a refor\u00e7ar a legitimidade da sua independ\u00eancia e da sua identidade como na\u00e7\u00e3o, bem como a construir um processo de oculta\u00e7\u00e3o e recusa da cultura russa. Al\u00e9m de iniciativas destinadas a rasurar personalidades russas da topon\u00edmia e a prevenir o uso da l\u00edngua do inimigo, foram, por exemplo, proibidas a transmiss\u00e3o na r\u00e1dio e na televis\u00e3o e a apresenta\u00e7\u00e3o em espa\u00e7os p\u00fablicos de muitos artistas do lado de l\u00e1 da fronteira \u2013 de fora, por terem vivido em per\u00edodos anteriores ao contexto p\u00f3s-sovi\u00e9tico, ficaram apenas compositores como Tchaikovsky ou Chostakovich \u2013 bem como a distribui\u00e7\u00e3o de livros de autores nascidos na R\u00fassia, mesmo de cl\u00e1ssicos universais como Tolst\u00f3i e Dostoi\u00e9vski.<br \/>\nTrata-se de uma vertente do esfor\u00e7o de guerra que na atualidade, quando os processos de constru\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria seguem processos bem diversos dos que tinham lugar no s\u00e9culo XVII e a liberdade de express\u00e3o det\u00e9m na vida dos povos um valor constitutivo muito mais forte, acaba por ser contraproducente para a pr\u00f3pria Ucr\u00e2nia, dado representar um atentado contra um patrim\u00f3nio que \u00e9 mundial e fornecer de m\u00e3o-beijada argumentos aos seus inimigos. Apoiar a resist\u00eancia dos ucranianos contra a agress\u00e3o imperial determinada por Putin de modo algum pode passar, mesmo entendendo a ira de quem assiste ao espet\u00e1culo di\u00e1rio de destrui\u00e7\u00e3o e morte dentro do seu pr\u00f3prio pa\u00eds, por aceitar medidas t\u00e3o erradas quanto estas. Capazes, afinal, de juntar a farsa e a trag\u00e9dia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rui Bebiano, Historiador, investigador do CES e autor<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":207224,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[31,5],"tags":[100,547],"class_list":["post-241138","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral","category-opiniao","tag-opiniao","tag-rui-bebiano"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/241138","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=241138"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/241138\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=241138"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=241138"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=241138"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}