{"id":241252,"date":"2022-06-27T17:33:01","date_gmt":"2022-06-27T16:33:01","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=241252"},"modified":"2022-06-27T17:33:01","modified_gmt":"2022-06-27T16:33:01","slug":"bagagem-descrita-uma-outra-europa-albania-2005","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/bagagem-descrita-uma-outra-europa-albania-2005\/","title":{"rendered":"bagagem d\u2019escrita &#8211; Uma outra Europa Alb\u00e2nia-2005"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_241253\" style=\"width: 660px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/2022\/06\/bagagem-descrita-uma-outra-europa-albania-2005\/5-bagagem-descrita\/\" rel=\"attachment wp-att-241253\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-241253\" class=\"wp-image-241253 size-large\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/5-Bagagem-descrita-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"650\" height=\"434\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-241253\" class=\"wp-caption-text\">foto de Jos\u00e9 Lu\u00eds Santos<\/p><\/div>\n<p>Pela manh\u00e3, ainda sob a aragem fresca, era altura de deixar Ohrib, na Maced\u00f3nia do Norte, e continuar a minha viagem. Apanhei boleia com Andrea, um jovem advogado italiano e os seus amigos milaneses at\u00e9 \u00e0s portas da Alb\u00e2nia. Pelo meio, ainda par\u00e1mos num parque nas margens do lago para almo\u00e7ar num dos v\u00e1rios restaurantes que o incremento do turismo ali semeou. A partir daqui estava sem dinheiro e n\u00e3o haveria um multibanco nas redondezas, mas isso n\u00e3o me impediria de seguir caminho.<br \/>\nLevaram-me a mim e ao Andrea at\u00e9 \u00e0 fronteira e deixaram-nos l\u00e1 para depois nos desenrascarmos. Enquanto carimb\u00e1vamos os passaportes de sa\u00edda da Maced\u00f3nia, conhecemos dois jovens albaneses que se prontificaram a dar-nos boleia para a localidade albanesa mais pr\u00f3xima. O nosso problema de ter transporte estava agora resolvido, mas quando cheg\u00e1mos \u00e0 entrada deste novo pa\u00eds, e tivemos de carimbar uma vez mais os passaportes, fomos apanhados desprevenidos pois dev\u00edamos pagar 10 euros pelo visto. Enquanto o meu colega juntava os seus trocos e resolvia o problema, eu constatava que s\u00f3 dispunha de uma nota de cinco euros amarrotada que tinha encontrado no fundo dos bolsos. Fiz uma cara de atrapalhado e, cordialmente, pedi dinheiro emprestado aos novos amigos.<br \/>\nSenti que tinha entrado numa nova realidade, n\u00e3o por ter passado uma fronteira ou ter visto gente diferente, mas pelo enorme solavanco que o carro deu com a mudan\u00e7a do piso da estrada. Foi a\u00ed que senti que tinha passado do segundo para o terceiro mundo. A linha de comboio, paralela \u00e0 estrada, tinha aspecto de n\u00e3o registar qualquer actividade. As pessoas usavam-na como percurso pedonal enquanto outros aproveitavam os carris para se sentarem e conviverem com os amigos. Mais tarde viria a saber que, afinal, ainda aqui transitava uma ou duas locomotivas por dia.<br \/>\nPar\u00e1mos na primeira cidade, Progradec. Os dois jovens, Ledia e Erion, tinham passado um fim-de-semana juntos sem os seus pais saberem em Ohrib.Viviam e estudavam aqui, e para eles era um fasc\u00ednio contactar com gente estrangeira. Perguntaram-nos um pouco de tudo sobre os nossos pa\u00edses ou, melhor dizendo, sobre o mundo ocidental. Enquanto desfrut\u00e1vamos de um gelado nas margens do lago, deram-nos algumas dicas \u00fateis de sobreviv\u00eancia neste estranho planeta chamado Alb\u00e2nia.<br \/>\nSeguimos as suas indica\u00e7\u00f5es e come\u00e7\u00e1mos a pedir boleia na direc\u00e7\u00e3o de Tirana, a capital. Aqui \u00e9 complicado distinguir um ve\u00edculo normal de um p\u00fablico e, como tal, t\u00ednhamos de acenar somente aos que passavam com matr\u00edcula amarela e vermelha. Enquanto caminh\u00e1vamos estrada fora \u00e0 procura da suposta paragem, deparamo-nos do nosso lado direito com uma mulher \u00e0 procura de algo num contentor do lixo. N\u00e3o era a primeira vez que assistia a um epis\u00f3dio deste tipo, mas o que mais me marcou foi o pr\u00f3prio cen\u00e1rio em que decorria. E n\u00e3o \u00e9 uma imagem normal, e portanto f\u00e1cil de digerir, algu\u00e9m a esgravatar por restos dos outros para poder sobreviver.<br \/>\nComo pano de fundo, sobressa\u00edam dois dos famosos 700.000 bunkers erigidos por Enver Hoxha, o ditador de m\u00e1 mem\u00f3ria que se lembrou de plantar por todo o territ\u00f3rio estas fortifica\u00e7\u00f5es com o receio de uma hipot\u00e9tica invas\u00e3o jugoslava ou de um outro pa\u00eds ocidental, facto que nunca chegou a ocorrer. Estes pequenos edif\u00edcios em forma de cogumelos grassam por todo o lado e hoje servem as del\u00edcias das brincadeiras das crian\u00e7as, e para quem precisa de se aliviar, servindo assim de retrete p\u00fablica.<br \/>\nA viagem continuaria, mas as marcas do regime passado n\u00e3o descolavam do horizonte, e via-me a mergulhar numa outra Europa a que n\u00e3o estava habituado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Lu\u00eds Santos, Professor de Hist\u00f3ria e fot\u00f3grafo<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":241253,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[31,5],"tags":[450,100],"class_list":["post-241252","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral","category-opiniao","tag-jose-luis-santos","tag-opiniao"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/241252","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=241252"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/241252\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=241252"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=241252"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=241252"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}