{"id":242005,"date":"2022-07-07T10:44:56","date_gmt":"2022-07-07T09:44:56","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=242005"},"modified":"2022-07-07T10:44:56","modified_gmt":"2022-07-07T09:44:56","slug":"opiniao-a-vibora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/opiniao-a-vibora\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: &#8220;A v\u00edbora&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Jose-afonso-baptista-opi.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-208096\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Jose-afonso-baptista-opi.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"628\" \/><\/a><\/p>\n<p>N\u00e3o vou nome\u00e1-la, os filhos e netos est\u00e3o a\u00ed, mas vou defini-la: uma v\u00edbora \u00e9 uma professora ou um professor que adora chumbar os alunos. Calhou-me em sorte no quarto ano do liceu, eu era uma crian\u00e7a, e doeu-me. Acho que foi o meu sofrimento de ent\u00e3o que me despertou, que mais me transportou do estado de crian\u00e7a para o jovem consciente dos perigos que \u00e9 preciso enfrentar com intelig\u00eancia.<br \/>\nComo um mal nunca vem s\u00f3, calhou-me novamente no 6\u00baano, atual 10\u00ba, e logo a duas disciplinas, Filosofia e Organiza\u00e7\u00e3o Pol\u00edtica e Administrativa da Na\u00e7\u00e3o. N\u00e3o pensei muito, o inimigo, se n\u00e3o tens condi\u00e7\u00f5es para o vencer, o melhor \u00e9 contornar. Fui \u00e0 secretaria do liceu e pedi a anula\u00e7\u00e3o da matr\u00edcula nestas duas disciplinas, um suic\u00eddio, diziam-me os mais pr\u00f3ximos, mas a\u00ed eu j\u00e1 conhecia bem as regras do jogo e tinha a confian\u00e7a em mim pr\u00f3prio de que faria melhor sozinho do que com as regras e humilha\u00e7\u00f5es da v\u00edbora.<br \/>\nA OPAN resumia-se a decorar um pequeno manual, coisa de uma semana de empinan\u00e7o, nem tanto, e assim foi, nos tr\u00eas dias anteriores ao exame li e reli de tr\u00e1s para a frente e da frente para tr\u00e1s, dormi com o livro debaixo da almofada, confiante na osmose, fiz o exame e tive 18. Dispensado da oral, um problema resolvido.<br \/>\nO autor do manual de OPAN era Ant\u00f3nio Martins Afonso, professor, escritor e advogado, tamb\u00e9m autor da Breve Hist\u00f3ria de Portugal, durante muitos anos Inspetor Geral da Educa\u00e7\u00e3o, natural de Juncal do Campo, concelho de Castelo Branco, e isto \u00e9 o mais importante, precisamente a minha aldeia. Morava na minha rua, escassos 100 metros acima, e era aqui que passava as suas f\u00e9rias.<br \/>\nA Filosofia as coisas foram mais complicadas, mas o outro professor nesta disciplina, que lecionava as classes de Ci\u00eancias, eu conhecia-o bem, ele era o treinador e eu jogador da equipa de futebol do liceu, autorizou-me a frequentar as suas aulas quando quisesse e foi ele que me orientou sobre os livros a ler e a estudar. Tive 13 na escrita, quem classificou as provas foi a v\u00edbora e 13 foi a nota mais alta que deu.<br \/>\nA pauta geral de todas as disciplinas foi afixada, ansiedade \u00e0 sua volta, a v\u00edbora passou, viu-me e, antevendo o desastre, perguntou: \u201cent\u00e3o Afonso, como correram as coisas\u201d. Pensava que me humilhava e eu respondi: pode ver aqui, as notas j\u00e1 sa\u00edram. Viu, ficou aturdida quando viu que eu tinha 18 n\u00e3o apenas a OPAN, mas tamb\u00e9m a Grego e a Franc\u00eas, 15 a Latim e quem ficou humilhada foi ela porque nenhum dos seus alunos fez melhor do que eu. E rematou: \u201cN\u00e3o se esque\u00e7a que at\u00e9 ao lavar dos cestos \u00e9 vindima\u201d. E eu pensei, estou tramado, \u00e9 ela que me vai fazer a prova oral a Filosofia. Falei com o reitor para me dar outro examinador, foi simp\u00e1tico, mas isso n\u00e3o podia fazer. Entendi.<br \/>\nVoltei para o Juncal, era a\u00ed que me isolava para preparar os exames, e os astros estiveram ao meu lado. Quem estava ali, passando as suas f\u00e9rias, numa boa rela\u00e7\u00e3o de vizinhan\u00e7a? O Inspetor Geral, Martins Afonso, e eu vi a luz salvadora do desastre iminente, se ele aceitasse assistir \u00e0 minha prova oral. O meu pai falou com ele: \u201cn\u00e3o, nem pensar, n\u00e3o posso interceder em quest\u00f5es particulares\u201d. Desgosto, medo de um ano perdido por uma disciplina, com uma m\u00e9dia superior a 16. No dia da prova, logo pela manh\u00e3, quem bate \u00e0 porta? O Inspetor, pensou melhor, eu vou convosco, preparem-se, v\u00e3o no meu carro. E assim foi.<br \/>\nO Inspetor entrou comigo na sala, o j\u00fari, de p\u00e9, \u201cfez a contin\u00eancia\u201d, insistiu para que se sentasse na mesa, recusou, foi sentar-se numa carteira l\u00e1 atr\u00e1s. O j\u00fari ligou as pontas, dois Afonsos, n\u00e3o havia d\u00favidas, estava ali por minha causa. E n\u00e3o se enganou. Logo que acabei a minha prova levantou-se, \u201cportaste-te bem rapaz\u201d, e sa\u00edmos, com as v\u00e9nias da praxe, e eu a pensar, desta j\u00e1 me livrei. Passados uns dias, cruzei-me com a v\u00edbora no centro da cidade e n\u00e3o resisti a um improp\u00e9rio de m\u00e1 educa\u00e7\u00e3o: \u201cAssim \u00e9 que elas se enxofram\u201d.<br \/>\nCuriosamente, quando voltei ao liceu na qualidade de professor, quem me saiu na rifa como aluno? O filho da v\u00edbora e a\u00ed, sim, veio a minha vingan\u00e7a definitiva: era uma crian\u00e7a ador\u00e1vel, sa\u00eda ao pai, capit\u00e3o do ex\u00e9rcito, que bem conheci, era um \u00f3timo aluno, mantivemos uma excelente rela\u00e7\u00e3o de proximidade e cumplicidade, teve boas notas, a v\u00edbora respirou de al\u00edvio, aproximou-se de mim, e mantivemos uma grande cordialidade nos dois anos que ali fui professor. Motivo para repetir: \u201cAssim \u00e9 que elas se enxofram\u201d.<br \/>\nRelembrando este epis\u00f3dio, agora n\u00e3o como aluno, mas como profissional da educa\u00e7\u00e3o e antigo dirigente do ME, parece-me que ele tem todos os condimentos do improv\u00e1vel e inaceit\u00e1vel em institui\u00e7\u00f5es de educa\u00e7\u00e3o. O que me leva a pensar que o Inspetor, homem respeit\u00e1vel e maduro, pode ter tido outras raz\u00f5es que o impulsionaram para este cen\u00e1rio de inspe\u00e7\u00e3o. Quem sabe?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Opini\u00e3o de Jos\u00e9 Afonso Baptista<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":208096,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[31,5],"tags":[8652],"class_list":["post-242005","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral","category-opiniao","tag-opiniao-de-jose-afonso-baptista"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/242005","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=242005"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/242005\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=242005"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=242005"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=242005"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}