{"id":242077,"date":"2022-07-08T11:46:43","date_gmt":"2022-07-08T10:46:43","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=242077"},"modified":"2022-07-08T11:46:43","modified_gmt":"2022-07-08T10:46:43","slug":"opiniao-deus-me-livro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/opiniao-deus-me-livro\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: &#8220;Deus me livro&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/BRUNO-PAIXAO.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-205891\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/BRUNO-PAIXAO.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"628\" \/><\/a><\/p>\n<p>A tarde baloi\u00e7a no seu manto t\u00f3rrido deixando que a luz escorra pelo casario. Os gestos, o movimento, os p\u00e9s, muitos p\u00e9s, formam caminhos. A Pra\u00e7a do Com\u00e9rcio, cinzelada entre duas antigas igrejas, desapodreceu. Quando os p\u00e9s andam, o caminho renasce. A Feira do Livro de Coimbra foi a chave que abriu o port\u00e3o de chumbo que existia naquela embocadura da Baixa. Os transeuntes pararam. Os amantes de livros pararam. As janelas abriram-se. Os moradores vieram \u00e0 varanda. Mostraram as suas toalhas de devo\u00e7\u00e3o \u00e0 Rainha Santa Isabel. Os caf\u00e9s montaram esplanadas. O t\u00e9dio desaconteceu, encolheu-se, foi-se embora.<br \/>\nContra todas as expectativas, mesmo as mais compassivas, a Feira do Livro de Coimbra est\u00e1 a ser um sucesso. Quem vinha com as unhas \u00e0 mostra escondeu as m\u00e3os nos bolsos. Mordeu as palavras. Murmurou rugidos, miados, desesperan\u00e7as, desgostos col\u00e9ricos. O livro afinal tem seguidores, embora n\u00e3o receba likes nem partilhas. Folheia-se. Folheia-nos. Enche-nos de palavras, de palavras, de palavras\u2026<br \/>\nAs editoras e os livreiros fazem boa cara \u00e0s vendas. Estes dias foram bons para a caixa. Fui perguntando. Foram-me dizendo. \u201cCorre bem, felizmente. Muito melhor que antes\u201d. Esta feira fez esquecer o formato anterior, que juntava o livro, o artesanato e os comes-e-bebes. O comprador gastava o dinheiro no naperon, no bibel\u00f4, nos panos rendados. Faltava-lhe depois para o livro. As barracas chegavam cheias, partiam cheias. Cheias do mesmo.<br \/>\nEra preciso isto. Era preciso fazer esquecer as estantes murchas, os livros velando a dan\u00e7a das moscas. Como os olhares entristonhados dos cachorros do canil que veem sair os visitantes de m\u00e3os vazias. Os livros procuram sempre novo senhorio. N\u00e3o s\u00e3o escravos do seu dono. S\u00e3o livres. Querem partir nas afei\u00e7\u00f5es de outras m\u00e3os, de outros olhos, de outros compassos. Gostam de car\u00edcias na capa, de belisc\u00f5es nas p\u00e1ginas.<br \/>\nA tarde macia escorrega na pra\u00e7a. Estende-se pela cal\u00e7ada. Os autores reencontram-se com o p\u00fablico. As cadeiras reclamam tal como a porta girat\u00f3ria por onde tanta gente passa. A m\u00fasica, que tamb\u00e9m traz poesia, entra-nos pelos ouvidos, embala-nos, convida-nos. Fala-nos do livro e da sensa\u00e7\u00e3o de o querer.<br \/>\nUm sucesso como este deve ser assinalado, porque \u00e9 Coimbra no seu orgulho. Os colaboradores do Munic\u00edpio, os seus competent\u00edssimos t\u00e9cnicos, t\u00eam de ser reconhecidos pela cidade. Mostraram-se no seu melhor, com motiva\u00e7\u00e3o e profici\u00eancia. Afinal Coimbra tem os melhores! Respira-se um ar tranquilo, seguro, convidativo. E isso \u00e9 bom, \u00e9 muito bom.<br \/>\nO que se espera de uma feira do livro \u00e9 que apresente as novidades, que possibilite um di\u00e1logo entre os autores e os seus leitores, que estimule a discuss\u00e3o, que nos interpele com desafios, que chame gente a um espa\u00e7o convidativo, que celebre o livro e a literatura. Por tudo isto, Coimbra est\u00e1 de parab\u00e9ns. Fez servi\u00e7o p\u00fablico de qualidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Opini\u00e3o de Bruno Paix\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[31,5],"tags":[9195],"class_list":["post-242077","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral","category-opiniao","tag-opiniaodebrunopaixao"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/242077","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=242077"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/242077\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=242077"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=242077"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=242077"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}