{"id":242163,"date":"2022-07-09T10:42:30","date_gmt":"2022-07-09T09:42:30","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=242163"},"modified":"2022-07-09T10:42:30","modified_gmt":"2022-07-09T09:42:30","slug":"opiniao-o-eurocentrismo-e-a-doenca-da-eurofobia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/opiniao-o-eurocentrismo-e-a-doenca-da-eurofobia\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o &#8211; O eurocentrismo e a doen\u00e7a da eurofobia"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/2020\/12\/opiniao-a-ignorancia-e-atrevida-e-perigosa\/rui-bebiano-opi\/\" rel=\"attachment wp-att-207224\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-207224 size-large\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/RUI-BEBIANO-opi-1024x536.jpg\" alt=\"\" width=\"650\" height=\"340\" \/><\/a><\/p>\n<p><strong>As \u00abCartas Persas\u00bb<\/strong>, escritas entre 1711 e 1720 e publicadas anonimamente no ano seguinte pelo <strong>bar\u00e3o de Montesquieu<\/strong>, s\u00e3o essenciais para compreender a primeira grande <strong>muta\u00e7\u00e3o<\/strong> no modo dos <strong>europeus<\/strong> olharem os que o n\u00e3o s\u00e3o. Nelas, dois fict\u00edcios amigos persas escrevem para o pa\u00eds de origem com impress\u00f5es de uma viagem na Fran\u00e7a de Lu\u00eds XIV onde questionam os seus costumes e leis. Para o leitor de hoje a sua cr\u00edtica encontra-se muito desatualizada, mas o mais importante da obra \u00e9 a forma como os valores de uma civiliza\u00e7\u00e3o s\u00e3o ali relativizados, mas n\u00e3o rejeitados, por compara\u00e7\u00e3o com os de outra. Este m\u00e9todo abre caminho para uma das carater\u00edsticas essenciais e mais avan\u00e7adas do pensamento iluminista: produzir uma vis\u00e3o do mundo que, apesar de agora se reconhecer como euroc\u00eantrica, se esfor\u00e7ava ent\u00e3o por compreender as formas de pensar, agir e acreditar de outros povos. Uma perspetiva cosmopolita, at\u00e9 ent\u00e3o desconhecida na hist\u00f3ria e na geografia da humanidade, europeia ou n\u00e3o, que emergiu como instrumento de valoriza\u00e7\u00e3o da diversidade do humano.Todavia, esta etapa da cultura europeia tem sido por alguns setores interpretada como um logro, concebida apenas como um outro momento de menosprezo, incompreens\u00e3o e dom\u00ednio, mais subtil porventura, mas n\u00e3o menos injusto, dos povos que habitavam as paragens al\u00e9m dos Montes Urais e do Mediterr\u00e2neo, observados como fronteiras e n\u00e3o tanto como regi\u00f5es de contacto e partilha. As perspetivas cr\u00edticas que desenvolvem tendem a apresentar o continente europeu como um todo, onde ao longo da hist\u00f3ria se t\u00eam combinado, por vezes intercalado, enquanto tend\u00eancias dominantes, de um lado, a pervers\u00e3o dos nacionalismos e das xenofobias, do outro, formas de prosperidade assentes na desigualdade, na explora\u00e7\u00e3o do trabalho e no colonialismo. Trata-se de interpreta\u00e7\u00f5es liminarmente cr\u00edticas da Europa, olhada como um espa\u00e7o irreform\u00e1vel, irrevogavelmente submetido a um dos imperialismos, e que se alimenta da opress\u00e3o, seja a dos trabalhadores e das minorias, seja a de outros povos.<br \/>\nAs diferentes perspetivas que convergem nesta cr\u00edtica s\u00e3o todas devedoras de uma tradi\u00e7\u00e3o cultural progressista, parcialmente herdada da vertente internacionalista e anti-imperialista do marxismo, que fez e continua a fazer a justa cr\u00edtica do eurocentrismo. Sem, todavia, dar tr\u00eas passos elementares. O primeiro tem a ver com a injusti\u00e7a de n\u00e3o reconhecer o continente europeu como crisol dos valores mais essenciais, e de aplica\u00e7\u00e3o que pode ser universalmente partilhada, da liberdade, da igualdade, da democracia e dos direitos humanos. O segundo passo prende-se com a possibilidade de ver a Europa, no contexto geostrat\u00e9gico global, e apesar de todas as imperfei\u00e7\u00f5es e retrocessos, como lugar onde mais longe tem sido poss\u00edvel desenvolver uma combina\u00e7\u00e3o de direitos sociais com liberdade de express\u00e3o e formas estabilizadas de democracia representativa. J\u00e1 terceiro passo est\u00e1 associado \u00e0 enorme dificuldade em aceitar que esta situa\u00e7\u00e3o privilegiada n\u00e3o constitui necessariamente uma afronta a outros povos, podendo at\u00e9, num processo de aperfei\u00e7oamento sempre em constru\u00e7\u00e3o, ser partilhada, com os seus defeitos e qualidades, como exemplo poss\u00edvel.<br \/>\nO combate ao eurocentrismo n\u00e3o se encontra esgotado e \u00e9 necess\u00e1rio num mundo que se pretenda mais justo, plural e igualit\u00e1rio. A centralidade e a suposta superioridade da cultura europeia e dos modelos pol\u00edticos e sociais que produziu representa, sem d\u00favida, uma enorme fal\u00e1cia, devendo ser contrariada. Mas a pura eurofobia, vista como avers\u00e3o \u00e0 Europa, \u00e0 sua coes\u00e3o e \u00e0 pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o de europeu, \u00e9 uma grave doen\u00e7a, que inibe o contributo que esta pode dar para um mundo mais equilibrado. Em \u00abA Europa n\u00e3o \u00e9 um pa\u00eds estrangeiro\u00bb, o economista pol\u00edtico Jos\u00e9 Tavares lembra que esta \u00abenfrenta, ou pelo menos est\u00e1 sujeita, a uma tempestade quase perfeita que se abate sobre institui\u00e7\u00f5es imperfeitas animadas por vontades difusas\u00bb. Ainda assim, no momento em que se assiste \u00e0 perigosa expans\u00e3o global dos autoritarismos identit\u00e1rios, depreciar o seu contributo ter\u00e1 pesadas consequ\u00eancias. Deixando estes \u00e0 solta e, ao mesmo tempo, inibindo o \u00abvelho continente\u00bb de, sem recuar nas conquistas, lutar pela sua pr\u00f3pria regenera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rui Bebiano<br \/>\nHistoriador, investigador do CES e autor<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":207224,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[31,5],"tags":[100,547],"class_list":["post-242163","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral","category-opiniao","tag-opiniao","tag-rui-bebiano"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/242163","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=242163"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/242163\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=242163"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=242163"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=242163"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}