{"id":242165,"date":"2022-07-09T11:04:04","date_gmt":"2022-07-09T10:04:04","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=242165"},"modified":"2022-07-09T11:04:04","modified_gmt":"2022-07-09T10:04:04","slug":"bagagem-descrita-cidade-que-ja-foi-inferno-mostar-2005","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/bagagem-descrita-cidade-que-ja-foi-inferno-mostar-2005\/","title":{"rendered":"bagagem d\u2019escrita &#8211; Cidade que j\u00e1 foi inferno &#8211; Mostar-2005"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_242166\" style=\"width: 660px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/2022\/07\/bagagem-descrita-cidade-que-ja-foi-inferno-mostar-2005\/7-bagagem-descrita\/\" rel=\"attachment wp-att-242166\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-242166\" class=\"wp-image-242166 size-large\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/7-Bagagem-descrita-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"650\" height=\"434\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-242166\" class=\"wp-caption-text\">Foto de Jos\u00e9 Lu\u00eds Santos<\/p><\/div>\n<p>Apanho o autocarro mesmo em cima da hora em Dubrovnic, depois de fazer meia cidade a correr para chegar a tempo de embarcar para um novo pa\u00eds. A parte inicial do percurso faz-se numa constante perpendicular junto ao mar Adri\u00e1tico. Depois de sair do enclave croata, passam-se uns ef\u00e9meros quil\u00f3metros pelo territ\u00f3rio b\u00f3snio com acesso ao mar na zona de Neum, volta-se novamente a entrar na Cro\u00e1cia e s\u00f3 depois de transpor a fronteira em Metkovic \u00e9 que se entra de facto num complexo territ\u00f3rio denominado de B\u00f3snia-Herzegovina.<br \/>\nTudo na viagem mudou a partir daqui. Na estrada que serpenteava o rio Neretva a maioria das habita\u00e7\u00f5es resumia-se a um monte de ru\u00ednas como resultado dos combates entre croatas e mu\u00e7ulmanos na guerra civil. As que ainda tinham paredes, estavam crivadas de balas ou incendiadas. Quando essa paisagem come\u00e7ava a banalizar-se, chego a Mostar, a capital hist\u00f3rica da Herzegovina, localizada no canto sudoeste do pa\u00eds.<br \/>\nNa margem direita do rio, o n\u00edvel de destrui\u00e7\u00e3o \u00e9 maior, indicando o oscilar da chamada linha da frente naquela zona. Durante a beliger\u00e2ncia que op\u00f4s estas duas for\u00e7as entre 1993 e 1994, a art\u00e9ria principal da cidade, o Boulevard Hrvatskih Branitelja serviu de terra de ningu\u00e9m, da\u00ed que, ainda hoje, persista um consider\u00e1vel n\u00famero de ru\u00ednas que o passar dos anos apenas conseguiu, em alguns casos, cobrir de vegeta\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAqui combatia-se corpo-a-corpo, quando se atravessava a rua e se entrava no pr\u00e9dio do inimigo. Muitas vezes lutava-se dentro do pr\u00f3prio pr\u00e9dio, do pr\u00f3prio apartamento. Conquistava-se a cozinha ao advers\u00e1rio ao passo que os seus camaradas perdiam a sala de estar. Atrav\u00e9s das finas paredes, que por vezes tinham de ser refor\u00e7adas com sacos de terra, ouvia-se o respirar do advers\u00e1rio, um respirar de exaust\u00e3o de algu\u00e9m que, meses antes tinha sido bom vizinho ou mesmo melhor amigo.<br \/>\nEm alguns casos, a guerra tamb\u00e9m criou epis\u00f3dios que mostraram o melhor do ser humano. Quando n\u00e3o havia tabaco, mandava-se um ma\u00e7o para o outro lado da avenida. Houve mesmo um epis\u00f3dio em que um oficial mu\u00e7ulmano se casou e se decidiu interromper a guerra nesse dia para todos festejarem. H\u00e1 outras hist\u00f3rias que, se n\u00e3o existissem, teriam de ser inventadas. Como a de um jovem que lutou pelo ex\u00e9rcito mu\u00e7ulmano, cujo irm\u00e3o faleceu a combater pelo ex\u00e9rcito croata e o seu pai tamb\u00e9m pereceu, mas pelo lado s\u00e9rvio.<br \/>\nH\u00e1 fundos internacionais para a reconstru\u00e7\u00e3o da cidade, numa tentativa de limpar tamb\u00e9m o passado mas, apesar dos \u00eaxitos no campo das infra-estruturas, os esfor\u00e7os revelam-se infrut\u00edferos no campo da mudan\u00e7a de mentalidades, nomeadamente no que toca \u00e0 reconcilia\u00e7\u00e3o. Chego \u00e0 Pra\u00e7a de Espanha, onde est\u00e1 erguido um memorial aos capacetes azuis espanh\u00f3is que tombaram no cumprimento do dever pela manuten\u00e7\u00e3o de paz na cidade. Seis desses soldados perderam a vida no per\u00edodo j\u00e1 considerado de p\u00f3s-guerra, o \u00faltimo em 2003. Apesar do das pazes \u00e0 for\u00e7a que tiveram de fazer na Primavera de 1994, a guerra continua na mente destes povos, procurando sempre um modo de se materializar atrav\u00e9s de um ou outro gesto espor\u00e1dico.<br \/>\nUm bom exemplo recai pelo s\u00edmbolo maior desta terra, a Stari Most, a \u201clua de pedra\u201d como um poeta mu\u00e7ulmano a descreveu no s\u00e9culo XVI. Falo da ponte principal, um belo exemplar do patrim\u00f3nio hist\u00f3rico e cultural que foi martirizado pela brutalidade humana quando foi bombardeada e se despeda\u00e7ou nas frias \u00e1guas do rio em novembro de 1993. Depois do conflito, deu-se in\u00edcio \u00e0 sua reconstru\u00e7\u00e3o, e em 2004 foi reinaugurada, mas o seu significado simb\u00f3lico de encontro de povos diferentes manteve-se submerso naquelas \u00e1guas.<br \/>\nAqui, o tempo est\u00e1 a descair-se, e a mostrar que n\u00e3o consegue resolver tudo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Lu\u00eds Santos<br \/>\nProfessor de Hist\u00f3ria<br \/>\ne fot\u00f3grafo<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":242166,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[31,5],"tags":[450,100],"class_list":["post-242165","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral","category-opiniao","tag-jose-luis-santos","tag-opiniao"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/242165","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=242165"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/242165\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=242165"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=242165"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=242165"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}