{"id":242577,"date":"2022-07-16T13:12:03","date_gmt":"2022-07-16T12:12:03","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=242577"},"modified":"2022-07-16T13:12:03","modified_gmt":"2022-07-16T12:12:03","slug":"opiniao-portugal-a-arder","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/opiniao-portugal-a-arder\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: Portugal a arder"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Manuel-Rocha-opi.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-209691\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Manuel-Rocha-opi.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"628\" \/><\/a><\/p>\n<p>Por uma m\u00e3o que acende o lume, mil bra\u00e7os s\u00e3o precisos para o apagar. De novo nestes dias, esquecido de 2003, 2005 e 2017, Portugal volta a arder sem que as medidas anunciadas ap\u00f3s cada desastre tenham sa\u00eddo do buraco das promessas por cumprir. As imagens na TV s\u00e3o terr\u00edveis, ainda que s\u00f3 de longe retratem o horror dos que, impotentes, lutam para defender as \u00e1rvores, as casas, os \u00faltimos animais e as derradeiras hortas do pa\u00eds abandonado; mesmo que n\u00e3o traduzam nem de perto o tanto sacrif\u00edcio dos que combatem os fogos, todos os anos maiores. Por isso \u00e9 t\u00e3o insuport\u00e1vel a apari\u00e7\u00e3o do \u201cpopulista-mor\u201d no ecr\u00e3, aproveitando a indigna\u00e7\u00e3o geral para tiradas de \u201cjusticiaria\u201d barata (mas perigosa); por isso surge t\u00e3o desasado o apelo \u201cgovernacional\u201d \u00e0 responsabilidade individual, perante um fen\u00f3meno cuja magnitude exige (h\u00e1 muito) mais pol\u00edtica e menos pux\u00e3o-de-orelhas; nos assuntos da nossa terra ficam t\u00e3o mal os rufias de pelo na venta como os mestres-escola sentenciosos.<br \/>\nOs inc\u00eandios em Portugal deixaram de ser anomalia grave para serem encarados como inevitabilidade sazonal &#8211; um crime que se livrou do castigo. Mas n\u00e3o foi sempre assim. Eu j\u00e1 sou suficientemente velho para ter vivido um tempo em que os inc\u00eandios eram assunto de toque a rebate e mobiliza\u00e7\u00e3o da aldeia inteira para o apagamento da besta. As matas cheiravam a resina e as \u00e1rvores ainda n\u00e3o tinham o estatuto de inimigo p\u00fablico. Limpava-se o terreno porque as exist\u00eancias vegetais faziam parte do ciclo produtivo que atendia \u00e0s fomes humanas no funcionamento de um sistema em que terra era produ\u00e7\u00e3o (ainda que a reparti\u00e7\u00e3o do seu produto fosse \u2013 e assim permanece \u2013 lugar de desigualdades). J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 assim. J\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 quem more no lugar onde o combust\u00edvel se acumula.<br \/>\n\u00c0s portas do outono vir\u00e3o os balan\u00e7os. Dir\u00e3o os bombeiros da falta de meios e parco or\u00e7amento, dir\u00e1 o governo das centenas de horas da avia\u00e7\u00e3o despejando \u00e1gua e rios de dinheiro em cima das labaredas. De vez em quando um assomo de quase-lucidez, como quando o primeiro-ministro desabafa que \u201cpor detr\u00e1s de cada um dos inc\u00eandios existe um problema estrutural\u201d, para logo se desmentir a si pr\u00f3prio ao afirmar que \u201ctemos hoje uma estrutura mais robusta, temos hoje mais meios a\u00e9reos, mas isso n\u00e3o previne os inc\u00eandios. Os inc\u00eandios s\u00f3 ocorrem se uma m\u00e3o humana, voluntariamente ou por distra\u00e7\u00e3o, os tiver provocado. Somos n\u00f3s, cidad\u00e3os comuns, que temos que fazer este trabalho fundamental para evitar inc\u00eandios\u201d. Pois ent\u00e3o em que ficamos? O problema \u00e9 estrutural-por-atacado ou conjuntural-uma-s\u00f3-m\u00e3o-muitas-vezes?<br \/>\nCom mais ou menos meios, mais queixas ou mais louvores, o que ficar\u00e1 no registo dos \u00faltimos 40 anos \u00e9 a constata\u00e7\u00e3o do abandono e do desprezo pelo mundo rural, pelo interior, pela adapta\u00e7\u00e3o da floresta aos interesses do papel, a ofensa \u00e0 pequena e m\u00e9dia agricultura, a desprote\u00e7\u00e3o da pastor\u00edcia, a elimina\u00e7\u00e3o de todas as estruturas de defesa do mundo rural, afinal, os tais elementos estruturais que levaram Portugal ao despovoamento e ao envelhecimento da popula\u00e7\u00e3o, ao encerramento de servi\u00e7os p\u00fablicos, \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o de milhares de postos de trabalho. N\u00e3o houvesse mais exemplos de m\u00e1 governa\u00e7\u00e3o e bastar-nos-ia refletir sobre os efeitos \u201cestruturais\u201d da determina\u00e7\u00e3o desastrosa que separa a \u201cfloresta\u201d da \u201cagricultura\u201d, como quem pretende arrasar o tecido humano que resta, negando o \u00f3bvio: quem ainda cuida da terra s\u00e3o os mesmos que ainda cuidam da floresta. Nada que ocupe as preocupa\u00e7\u00f5es dos alternantes destruidores da soberania alimentar \u00e0s m\u00e3os das Pol\u00edticas Agr\u00edcolas Comuns, promotores da \u201cagricultura de sobremesa\u201d, delegados dos interesses do agroneg\u00f3cio e da grande distribui\u00e7\u00e3o.<br \/>\nO fogo destes dias vem de longe. Desde o dia, h\u00e1 quase 40 anos, em que um governante prometeu aos produtores do seu pa\u00eds o acesso a um mercado de abundantes milh\u00f5es de consumidores. O que ficou por dizer \u00e9 que o lugar da \u201cEuropa\u201d destinado a Portugal n\u00e3o era o de produtor de riqueza. For\u00e7ada ao abandono, a floresta portuguesa est\u00e1 agora condenada \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de inc\u00eandios florestais &#8211; mas esses ningu\u00e9m os quer.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Manuel Rocha<br \/>\nDocente<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":209691,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[31,5],"tags":[935,100],"class_list":["post-242577","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral","category-opiniao","tag-manuel-rocha","tag-opiniao"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/242577","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=242577"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/242577\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=242577"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=242577"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=242577"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}