{"id":245484,"date":"2022-09-08T12:14:03","date_gmt":"2022-09-08T11:14:03","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=245484"},"modified":"2022-09-08T12:14:03","modified_gmt":"2022-09-08T11:14:03","slug":"opiniao-educar-para-a-subsidiodependencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/opiniao-educar-para-a-subsidiodependencia\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: Educar para  a subsidiodepend\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Jose-afonso-baptista-opi.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-208096\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Jose-afonso-baptista-opi.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"628\" \/><\/a><\/p>\n<p>O primeiro grande objetivo da educa\u00e7\u00e3o \u00e9 formar pessoas livres, aut\u00f3nomas, independentes, com esp\u00edrito cr\u00edtico, competentes para gerir a sua vida e para se integrarem solidariamente no meio e na sociedade em que vivem.<\/p>\n<p>Muita gente interiorizou a ideia de que as escolas servem para transmitir conhecimentos. O pr\u00f3prio minist\u00e9rio funciona nesta onda, enumera os conhecimentos pr\u00e9-definidos nos programas oficiais e controla a sua aprendizagem atrav\u00e9s dos exames. Tudo o que n\u00e3o entra nos exames \u00e9 \u201cpalha\u201d, n\u00e3o interessa. Os professores e os alunos convergem neste ponto: s\u00f3 se d\u00e1 e s\u00f3 se estuda o que sai nos exames.<br \/>\nA Unesco definiu os quatro pilares da educa\u00e7\u00e3o: \u201caprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a ser e aprender a viver com os outros\u201d. Os exames privilegiam o primeiro n\u00edvel, o dos conhecimentos. O essencial fica de fora: formar pessoas aut\u00f3nomas e independentes para gerir a sua vida e para se integrarem solidariamente no meio e na sociedade em que vivem.<br \/>\nOs conhecimentos n\u00e3o s\u00e3o importantes? Claro que s\u00e3o, s\u00e3o a base da pir\u00e2mide que suporta a aquisi\u00e7\u00e3o de compet\u00eancias, atitudes e valores fundamentais para uma rela\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel, cooperante e solid\u00e1ria com o universo das pessoas que nos rodeiam. Os conhecimentos s\u00e3o fundamentais, mas s\u00e3o apenas um meio para atingir o objetivo primordial, que \u00e9 formar as pessoas. Se esse objetivo n\u00e3o for atingido de pouco servem os conhecimentos. As pessoas bem formadas aprendem o caminho, t\u00eam um norte. Os conhecimentos tanto podem estar ao servi\u00e7o do bem como do mal. Aprender a construir armas letais capazes de destruir a humanidade \u00e9 um conhecimento que arrepia.<br \/>\nEsta orienta\u00e7\u00e3o da escola para os conhecimentos, para a mem\u00f3ria, para as rotinas, retirando o foco da forma\u00e7\u00e3o das pessoas, do seu equil\u00edbrio, da sua capacidade cr\u00edtica, da iniciativa, do agir e fazer com os outros, das pr\u00e1ticas concretas e da sua avalia\u00e7\u00e3o em campo neutro, sem o stress pontual da situa\u00e7\u00e3o de exame e sem a amea\u00e7a de fracasso e de exclus\u00e3o, tudo isto tem consequ\u00eancias.<br \/>\nSer\u00e1 mesmo necess\u00e1rio submeter as crian\u00e7as e os jovens a provas duras, dif\u00edceis, de resist\u00eancia, de incerteza, de stress, de tortura? Est\u00e1 provado, as crian\u00e7as e jovens mais felizes na escola n\u00e3o s\u00e3o os mais empenhados, os que mais lutam e t\u00eam os melhores resultados. Os n\u00edveis de suic\u00eddio nesta faixa et\u00e1ria s\u00e3o mais elevados nos sistemas mais competitivos. \u00c9 preciso retirar da escola o stress, o desespero, o sentimento de incapacidade e de incerteza. Todos gostamos de ter um ambiente de trabalho tranquilo e sem ansiedade. Mas impedimos muitos alunos de o terem. Avaliar n\u00e3o deve ser excomungar. Deveria ser o contr\u00e1rio: aproximar, acompanhar, orientar.<br \/>\nNos pa\u00edses n\u00f3rdicos e no Reino Unido os jovens t\u00eam uma consci\u00eancia clara das suas responsabilidades ao atingir a maioridade. Aos 18 anos entram na universidade ou em cursos profissionais e assumem que os pais n\u00e3o t\u00eam mais obriga\u00e7\u00e3o de os sustentar nem de custear os seus estudos. A bolsa de estudos nem sempre cobre a totalidade das despesas, mas t\u00eam toda a disponibilidade para trabalhar o n\u00famero de horas necess\u00e1rio para equilibrar a balan\u00e7a. Tive oportunidade de conhecer pessoalmente jovens dos referidos pa\u00edses com 18 anos, na transi\u00e7\u00e3o do secund\u00e1rio para o superior e registei a forma determinada como assumiam o estatuto de maior emancipado e aut\u00f3nomo, com a responsabilidade de governar a sua vida sem ajudas. Quando chega o momento de o passarinho sair do ninho, \u00e9 bom que voe com as suas pr\u00f3prias asas e se fa\u00e7a \u00e0 vida.<br \/>\nEm Portugal n\u00e3o faltar\u00e3o casos id\u00eanticos. Mas somos um dos pa\u00edses com n\u00fameros mais elevados de jovens adultos que permanecem na resid\u00eancia e na depend\u00eancia dos pais muito para al\u00e9m da sua carreira acad\u00e9mica. Poderia citar v\u00e1rios casos na esfera da fam\u00edlia alargada e muitos mais no espa\u00e7o da minha \u00e1rea residencial. H\u00e1 situa\u00e7\u00f5es dram\u00e1ticas de pais reformados e angustiados na imin\u00eancia de partir deixando atr\u00e1s de si filhos altamente qualificados, mas incapazes de lutarem pela vida e pela sua sobreviv\u00eancia.<br \/>\nHaver\u00e1 muitos fatores que podem contribuir para este fen\u00f3meno que alguns designam como a gera\u00e7\u00e3o nem-nem. Fatores gen\u00e9ticos, sociais, familiares, mas a escola, n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o fica fora deste quadro, como o potencia. A escola favorece a depend\u00eancia, a ina\u00e7\u00e3o, a passividade. O atual modelo de escola, criado h\u00e1 200 anos, atribui ao professor o papel principal e ao aluno o de mero figurante passivo. O detentor do saber fala, exp\u00f5e, explica; os alunos ouvem. No essencial, e apesar de todos os meios hoje dispon\u00edveis para uma invers\u00e3o de pap\u00e9is, esta passividade mant\u00e9m-se e n\u00e3o favorece a iniciativa das crian\u00e7as e jovens. Pelo contr\u00e1rio, \u00e9 a passividade que contagia muitos alunos.<br \/>\nComparando a educa\u00e7\u00e3o com a sa\u00fade, verificamos que a medicina tem hoje meios de avalia\u00e7\u00e3o e de diagn\u00f3stico rigorosos dispon\u00edveis na hora, permitindo aos profissionais da sa\u00fade consultar a hist\u00f3ria cl\u00ednica documentada com an\u00e1lises, radiografias, ecografias, cintigramas e toda a variedade de exames a todas as partes do corpo. Na educa\u00e7\u00e3o continuamos ainda na fase em que a medicina tratava o carb\u00fanculo com sanguessugas, a tosse cavernosa com xaropes e auscultava os pulm\u00f5es por um canudo. Quando a educa\u00e7\u00e3o atingir o est\u00e1dio da sa\u00fade, os atuais exames ser\u00e3o vistos como as sanguessugas medicinais. H\u00e1 d\u00e9cadas de atraso na educa\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 medicina.<br \/>\nO trav\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 nas escolas nem nos professores. Est\u00e1 no ME e no governo, que n\u00e3o conseguem ver a educa\u00e7\u00e3o como o motor da prosperidade. O desprezo dos professores e a falta de autonomia das escolas inserem-se na l\u00f3gica dos pa\u00edses dependentes. A matriz da organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e social do Estado \u00e9 a subsidiodepend\u00eancia. \u00c9 a pol\u00edtica de m\u00e3o estendida dos pa\u00edses pobres. Interna e externamente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Opini\u00e3o de Jos\u00e9 Afonso Baptista<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":208096,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[31,5],"tags":[1170,100],"class_list":["post-245484","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral","category-opiniao","tag-jose-afonso-baptista","tag-opiniao"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/245484","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=245484"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/245484\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=245484"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=245484"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=245484"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}