{"id":245604,"date":"2022-09-09T12:17:13","date_gmt":"2022-09-09T11:17:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=245604"},"modified":"2022-09-09T12:17:13","modified_gmt":"2022-09-09T11:17:13","slug":"opiniao-a-mesa-com-portugal-alarve","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/opiniao-a-mesa-com-portugal-alarve\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: \u00c0 Mesa  com Portugal  \u2013 Alarve"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/olga-cavaleiro-opi\/\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-244330\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Olga-Cavaleiro-opi.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"628\" \/><\/a><\/p>\n<p>Ser alarve \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o humana. Comer como se n\u00e3o houvesse amanh\u00e3. Na verdade, \u00e9 mais um resqu\u00edcio de tempos em que a alimenta\u00e7\u00e3o estava dependente da generosidade da natureza e a incerteza de ter comida no dia seguinte levava os humanos a criar reservas de energias para garantir a sobreviv\u00eancia. Mais tarde, j\u00e1 com a certeza da produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola, transferimos a alarvice para os dias de festa, os dias de comer tudo o que se punha sobre a mesa. Dias quase dedicados s\u00f3 ao deboche alimentar. Era uma esp\u00e9cie de folga nas restri\u00e7\u00f5es di\u00e1rias. Dias de encher o bandulho.<br \/>\nPor isso, sem traumas e sem culpas, que o passado desculpa, n\u00e3o escrevo sobre ser alarve ou, dito de forma mais suave, ser guloso, como uma cr\u00edtica social. S\u00f3 Deus sabe a fome que algumas pessoas passaram e passam (sim, ainda h\u00e1 fome, nem que n\u00e3o seja de sabor) e que leva a que, perante alguma abund\u00e2ncia, percam a cabe\u00e7a e se lancem ao prato com \u00e1gua na boca. E, nem sequer estou a pensar nas camadas sociais mais baixas e mais propensas a alguma escassez alimentar, j\u00e1 vi muita gente bem composta de tiques sociais a perderem o tom quando se trata de comer. Ali\u00e1s, agora que a cozinha, a gastronomia e a alimenta\u00e7\u00e3o s\u00e3o momento fotogr\u00e1fico, comer com ligeira alarvice pode ser motivo de publica\u00e7\u00e3o numa qualquer rede social.<br \/>\nSim, n\u00e3o \u00e9 uma cr\u00edtica. Porque comer \u00e9 bom. Porque o sabor d\u00e1 vida e sacia. Porque h\u00e1 dias em que nos apetece comer tudo e mais alguma coisa. Umas vezes na solid\u00e3o, sem que ningu\u00e9m veja os \u201cpecados\u201d que estamos a fazer, quase como se fosse um prazer secreto. \u00c0s vezes, at\u00e9 \u00e9 s\u00f3 um inocente pacote de bolachas ou de batatas fritas, ou ent\u00e3o, algum prato que se encomendou em dose dupla e se trouxe para casa. Outras, queremos que seja \u00e0 vista de todos, que a elegante travessa ou o tacho fumegante passe triunfante para que a inveja tome conta de quem assiste. Outras, \u00e9 o prazer de encher a mesa para que os amigos ou a fam\u00edlia comam at\u00e9 rebentarem e, pelo meio, se registem momentos \u00fanicos vividos na intimidade do grupo.<br \/>\nNa verdade, dev\u00edamos fazer um hino \u00e0 alarvice. Porque ela n\u00e3o acontece sempre, s\u00f3 \u00e0s vezes. Primeiro, porque n\u00e3o h\u00e1 dinheiro que a sustente e, depois, porque o est\u00f4mago reflete os maus-tratos dos excessos e pede regra, comedimento. Mas, ai que, de vez em quando, sabe t\u00e3o bem!<br \/>\n\u00c9 Ver\u00e3o, ainda\u2026 aproveite as muitas frutas que, suculentas e gordas de sabor, se desprendem das \u00e1rvores. As tempor\u00e3s j\u00e1 se foram, mas temos ainda as ser\u00f4dias. At\u00e9 as luzidias amoras est\u00e3o no ponto para andar a saltitar entre as silvas e correr o risco de uma arranhadela. Aproveite as comidas de Ver\u00e3o, na praia ou na montanha. As caldeiradas, os belos crust\u00e1ceos que, feitos de outras maneiras, fogem ao paradigma do molho enfrascado. Aproveite os lanches de ver\u00e3o que substituem os almo\u00e7os rotineiros e d\u00ea-se ao prazer dos salgadinhos, dos petiscos, do majestoso p\u00e3o, do opulento tomate apenas temperado com sal, azeite e vinagre, do pepino ou dos pimentos. Nos doces, n\u00e3o v\u00e1 pelas bolas ou gelados de produ\u00e7\u00e3o em s\u00e9rie, olhe bem para o que ainda vai sobrevivendo na do\u00e7aria nacional e aproveite.<br \/>\nSucumba ao prazer da alarvice e seja feliz que o sabor \u00e9 um privil\u00e9gio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Olga Cavaleiro, Investigadora em Hist\u00f3ria e Cultura gastron\u00f3mica<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":244330,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[31,5],"tags":[894,100],"class_list":["post-245604","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral","category-opiniao","tag-olga-cavaleiro","tag-opiniao"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/245604","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=245604"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/245604\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=245604"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=245604"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=245604"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}