{"id":245697,"date":"2022-09-10T11:13:40","date_gmt":"2022-09-10T10:13:40","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=245697"},"modified":"2022-09-10T11:13:40","modified_gmt":"2022-09-10T10:13:40","slug":"opiniao-a-liberdade-e-um-bem-essencial-e-fragil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/opiniao-a-liberdade-e-um-bem-essencial-e-fragil\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: A liberdade \u00e9 um bem essencial. \u00c9 fr\u00e1gil"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Manuel-Rocha-opi.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-209691 size-large\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Manuel-Rocha-opi-1024x536.jpg\" alt=\"\" width=\"650\" height=\"340\" \/><\/a><\/p>\n<p>H\u00e1 j\u00e1 algum tempo que as semanas antes do primeiro fim-de-semana de setembro se mostram movimentadas. Grande h\u00e1-de ser a raz\u00e3o de subvers\u00e3o daquela calma que deu boa fama ao m\u00eas de Agosto. O certo \u00e9 que nem o apelo do fresco oceano nem o inferno da \u201c\u00e9poca dos inc\u00eandios\u201d (que envergonha quem assume o calend\u00e1rio) distrai os influenciadores-da-opini\u00e3o-alheia. \u00c9 deles a laboriosa fun\u00e7\u00e3o da insist\u00eancia. Estes angariadores de consci\u00eancias \u2013 e, no limite, de op\u00e7\u00f5es \u2013, v\u00e3o fazendo jus ao ensinamento popular segundo o qual \u201c\u00e1gua mole em pedra dura tanto d\u00e1 at\u00e9 que fura\u201d. Sem assinal\u00e1vel resultado, assinale-se, reunindo em seu redor de insultadores de matizes variados e pouco mais.<\/p>\n<p>No primeiro fim de semana de Setembro, desde h\u00e1 46 anos, ergue-se junto ao Tejo (em muitos lugares, mas sempre junto ao Tejo) uma realiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e cultural que chama \u00e0s suas alamedas gente militante e (muito mais) gente que n\u00e3o o \u00e9. Aquele \u00e9 o mundo como se quer que seja: um mundo de lugares em que todos t\u00eam entrada, sem que nenhuma intimidade lhes seja pedida em troca. Como nos templos das religi\u00f5es hist\u00f3ricas, em que os n\u00e3o crentes podem entrar sem mais compromisso do que o do respeito, que \u00e9 regra das rela\u00e7\u00f5es humanas saud\u00e1veis. E entrar\u00e3o aqueles tantos, num e nos outros lados, por haver o que os interesse \u2013 quase sempre por raz\u00f5es culturais \u2013 e talvez tamb\u00e9m pela paz, a aus\u00eancia de pressas, a serenidade de poder caminhar entre muitos com a confian\u00e7a boa de que estamos desabituados.<\/p>\n<p>Neste pa\u00eds em que a \u201cformiga no carreiro\u201d (a da f\u00e1bula de Jos\u00e9 Afonso) foi ouvida por um movimento de capit\u00e3es, e pelo povo que o acompanhou, o essencial das liberdades fundamentais n\u00e3o foi ainda ofendido. Por isso \u00e9 que todas as tentativas de proibir, de censurar, de limitar, se v\u00eam confinando no del\u00edrio program\u00e1tico de arautos de uma \u201cordem\u201d igual \u00e0 dos rebanhos: um manda, os outros obedecem, sendo preciso o c\u00e3o morde. Percebe-se, at\u00e9, que a tend\u00eancia para a deifica\u00e7\u00e3o das \u201clideran\u00e7as\u201d torne natural o tra\u00e7o de fanatismo em que o mais pacato cidad\u00e3o comum se transforma em adepto de super-her\u00f3is, em que a procura do \u201cbem\u201d usa e abusa das armas de fazer o mal (h\u00e1 um filme \u2013 \u201cA Onda\u201d, do realizador alem\u00e3o Dennis Gansel \u2013 que retrata exemplarmente esta trag\u00e9dia da transfigura\u00e7\u00e3o do humano em desumano).<\/p>\n<p>At\u00e9 aqui tudo bem, mais incidente menos incidente. A situa\u00e7\u00e3o s\u00f3 come\u00e7a a descontrolar-se quando se produzem, perante a geral indiferen\u00e7a, sinais como aquela primeira p\u00e1gina de um jornal, em que trabalhadores das artes \u2013 e como tal comprometidos \u2013 s\u00e3o denunciados (acusados) com fotografia e nome, enrolados no sangue das v\u00edtimas que n\u00e3o fizeram, marcados com um z\u00ea na lapela que h\u00e1-de ter sido desenhado por m\u00e3o herdeira daquela que pregou estrelas de David no peito dos judeus, h\u00e1 t\u00e3o pouco tempo ainda. O objeto gr\u00e1fico em causa \u2013 todo um programa de ac\u00e7\u00e3o \u2013 persegue uma estrat\u00e9gia de simplifica\u00e7\u00e3o da mensagem, que \u00e9 o elemento vital da barb\u00e1rie. Percebe-se a inten\u00e7\u00e3o: em nome da liberdade h\u00e1 que alvejar a liberdade; em nome da justi\u00e7a h\u00e1 que instalar a injusti\u00e7a; em nome da verdade h\u00e1 que abrir espa\u00e7o \u00e0 mentira; em nome da democracia h\u00e1 que ofender a democracia. S\u00e3o imagens apenas, dir-se-\u00e1. Mas mal. S\u00e3o sementes de \u00f3dio, de desesperan\u00e7a e de medo.<\/p>\n<p>N\u00e3o se assustaram os artistas com a arma da cal\u00fania apontada ao peito. Talvez por serem filhos de um tempo hist\u00f3rico portugu\u00eas em que a viol\u00eancia pol\u00edtica \u00e9, por enquanto, uma anomalia. Mas um deles, oportuno, avisou que \u201co medo \u00e9 o grande controlador da Humanidade. Talvez por sermos tantas vezes o reflexo daquilo que os outros projetam em n\u00f3s, a nossa cobardia \u00e9 a m\u00e1scara perfeita para aqueles que querem silenciar as nossas vozes\u201d. Indignemo-nos, pois. \u00c9 que h\u00e1 luxos de viol\u00eancia medi\u00e1tica que n\u00e3o podemos deixar de assinalar, a menos que queiramos que o poema do Fado Abandono, do report\u00f3rio de Am\u00e1lia, seja outra vez o retrato de n\u00f3s.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 j\u00e1 algum tempo que as semanas antes do primeiro fim-de-semana de setembro se mostram movimentadas. Grande h\u00e1-de ser a raz\u00e3o de subvers\u00e3o daquela calma que deu boa fama ao m\u00eas de Agosto. 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