{"id":246105,"date":"2022-09-17T10:58:19","date_gmt":"2022-09-17T09:58:19","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=246105"},"modified":"2022-09-17T10:58:19","modified_gmt":"2022-09-17T09:58:19","slug":"o-mar-negro-la-longe-e-aqui-ao-lado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/o-mar-negro-la-longe-e-aqui-ao-lado\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: O Mar Negro, l\u00e1 longe  e aqui ao lado"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/RUI-BEBIANO.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-206006\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/RUI-BEBIANO-300x157.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"157\" \/><\/a><\/p>\n<p>Por causa de um longo artigo a publicar em breve, passei tr\u00eas semanas a ler e a escrever sobre a hist\u00f3ria do Mar Negro. Esse \u00ablago asi\u00e1tico\u00bb \u2013 como se lhe referia em 1765 a \u00abEnciclop\u00e9dia\u00bb de Diderot e D\u2019Alembert \u2013 que, devido \u00e0 presente guerra de invas\u00e3o da Ucr\u00e2nia pela R\u00fassia, subitamente passou de lugar distante, quase ignorado ou mesmo rec\u00f4ndito para a larga maioria dos europeus, a espa\u00e7o que nos habitu\u00e1mos a reconhecer como pr\u00f3ximo e em condi\u00e7\u00f5es de afetar o nosso modo de vida. Todavia, por muitos s\u00e9culos este papel foi inexistente, ocupadas que estavam as suas margens apenas por pequenos poderes e por comunidades isoladas e autossuficientes.<br \/>\nAo contr\u00e1rio do Mediterr\u00e2neo, que parte significativa dos habitantes da Europa cedo come\u00e7aram a olhar como um mar que lhes pertencia \u2013 a dada altura, o \u00abMare Nostrum\u00bb dos romanos \u2013 e que bem conheciam, ao longo de muitas gera\u00e7\u00f5es o Mar Negro foi visto como um espa\u00e7o in\u00f3spito e aventuroso. Lugar sobretudo de mitos e lendas, como a das guerreiras Amazonas ou a da viagem heroica dos Argonautas, lan\u00e7ados em \u00e1guas hostis em demanda do m\u00e1gico Velo do Ouro, ao qual se aplicavam tantas e t\u00e3o diferentes designa\u00e7\u00f5es quantos os povos que o iam habitando ou reconhecendo. \u00abPonto Euxino\u00bb foi o mais utilizado durante muitos anos, enquanto a atual designa\u00e7\u00e3o se generalizou entre os turcos a partir do s\u00e9culo XVIII e junto dos europeus apenas no seguinte.<br \/>\nApesar de confinado a uma extens\u00e3o que s\u00f3 o Estreito do B\u00f3sforo permite abrir a outras paragens mar\u00edtimas, o historiador Charles King reconhece-o capaz de, em cinco etapas, influenciar destinos bem distantes das suas margens. A primeira decorreu entre 700 a.C e o ano 500 da nossa era, tendo como determinante a chegada \u00e0 regi\u00e3o dos gregos e em seguida a dos romanos, sobretudo os segundos em condi\u00e7\u00f5es de impor formas est\u00e1veis de poder militar e de controlo do comercio e da navega\u00e7\u00e3o. A segunda, sensivelmente de 501 ao ano de 1500, correspondeu na maior parte do tempo ao dom\u00ednio pol\u00edtico, e sobretudo no campo da guerra do mar, das autoridades de Biz\u00e2ncio, em associa\u00e7\u00e3o com os interesses comerciais das rep\u00fablicas de Veneza e de G\u00e9nova. A terceira, entre 1500 e 1700, incorporou a expans\u00e3o e a capacidade para exercer uma forte autoridade, tanto no mar quanto em terra, por parte de um forte e amea\u00e7ador Imp\u00e9rio Otomano.<br \/>\nJ\u00e1 a quarta fase, que teve lugar entre 1700 e os meados do s\u00e9culo XIX, correspondeu, sob os governos dos czares Pedro I, o Grande, e Catarina II, a uma primeira fase de afirma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e territorial na regi\u00e3o e nas \u00e1guas do B\u00e1ltico e do Mar Negro, por parte de uma R\u00fassia imperial em ascens\u00e3o. E a quinta etapa, que King estendeu dessa altura at\u00e9 \u00e0 d\u00e9cada de 1990, comportou o reconhecimento da regi\u00e3o como espa\u00e7o pautado por um equil\u00edbrio inst\u00e1vel de diferentes soberanias, com a intromiss\u00e3o na \u00e1rea, a partir sobretudo da Guerra da Crimeia ( 1853-1856 ), de pot\u00eancias europeias, e ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o de 1917 com a forte presen\u00e7a do que ser\u00e1 a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica.<br \/>\n\u00c0s cinco etapas propostas por King deve agora juntar-se uma outra. \u00c9 determinada pela transforma\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o numa \u00e1rea de conflito entre a R\u00fassia neoimperialista de Vladimir Putin, desejosa de retomar a influ\u00eancia perdida nos anos que se seguiram a 1991, data de dissolu\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e de inaugura\u00e7\u00e3o de uma fase de governa\u00e7\u00e3o ca\u00f3tica, e, do outro lado, a NATO, os Estados Unidos e a Uni\u00e3o Europeia. No centro da disputa encontra-se toda uma regi\u00e3o que, tendo o Mar Negro como centro, envolve, para al\u00e9m de interesses geoestrat\u00e9gicos antag\u00f3nicos, recursos como o petr\u00f3leo e o g\u00e1s do C\u00e1spio, passando o controlo das rotas dos petroleiros e dos oleodutos a ser mais decisivo que nunca, e tendo ainda associada a produ\u00e7\u00e3o de trigo em quantidades colossais.<br \/>\n\u00c9 neste quadro de redefini\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica do Mar Negro que pode entender-se o dram\u00e1tico papel de \u00abbola de t\u00e9nis\u00bb desempenhado pela Ucr\u00e2nia e as raz\u00f5es que determinaram o conflito em curso. A hist\u00f3ria deste \u00ablago asi\u00e1tico\u00bb que agora j\u00e1 o n\u00e3o \u00e9 continua a ser escrita e os seus protagonistas continuam tamb\u00e9m a mudar, estando novas solu\u00e7\u00f5es para o equil\u00edbrio do mundo a ser definidas naquelas paragens. Pelo meio, hoje como num passado mais ou menos distante, s\u00e3o os povos da regi\u00e3o a servir de figurantes na instala\u00e7\u00e3o de formas de dom\u00ednio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rui Bebiano &#8211; Historiador, investigador do CES e autor<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":206006,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[31,5],"tags":[9920,547,5329,406],"class_list":["post-246105","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral","category-opiniao","tag-mar-negro","tag-rui-bebiano","tag-russia","tag-ucrania"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/246105","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=246105"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/246105\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=246105"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=246105"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=246105"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}