{"id":247025,"date":"2022-10-01T13:48:55","date_gmt":"2022-10-01T12:48:55","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=247025"},"modified":"2022-10-01T13:48:55","modified_gmt":"2022-10-01T12:48:55","slug":"opiniao-entre-a-emocao-e-o-racional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/opiniao-entre-a-emocao-e-o-racional\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o &#8211; Entre a emo\u00e7\u00e3o e o racional"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-206003 size-large\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/MARIA-HELENA-TEIXEIRA-1024x536.jpg\" alt=\"\" width=\"650\" height=\"340\" \/><\/p>\n<p>A <strong>morte de Isabel II<\/strong> fez com que as televis\u00f5es impusessem ao mundo um modelo de <strong>notici\u00e1rio exagerado<\/strong> e <strong>saturante<\/strong>, que alguns aceitam por eventualmente ter a inten\u00e7\u00e3o de satisfazer um povo devoto \u00e0 sua <strong>Rainha<\/strong>, uma Rainha que morreu aos 96 anos, depois de reinar durante 70 anos, mas que outros remetem para a contabiliza\u00e7\u00e3o dos \u201ctempos de audi\u00eancia\u201d mundial.<br \/>\nN\u00e3o irei referir-me, nem sequer tecer qualquer coment\u00e1rio pol\u00edtico ao regime mon\u00e1rquico. Apenas me concentrarei na monarca e na mulher que foi Isabel II, de quem o Mundo se despediu pela \u00faltima vez com 96 badaladas, mais de 100 voos cancelados, 2.000 convidados especiais, um vel\u00f3rio com milhares de pessoas a aguardar dezenas de horas na fila para dizerem adeus \u00e0 sua monarca. Um cerimonial e uma opera\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a das maiores de sempre, com o Mundo quase parado por um modelo de notici\u00e1rio, repetitivo e cansativo, de transmiss\u00e3o das cerim\u00f3nias f\u00fanebres, com um caix\u00e3o a desfilar durante horas nas ruas, de castelos para catedrais e de catedrais para castelos, esgotando a capacidade de descri\u00e7\u00e3o aos respectivos comentadores.<br \/>\nEntre esse tempo emocional e o racional existe sempre um espa\u00e7o infinito para o mundo humano, sempre capaz de misturar l\u00e1grimas com pedras, ramos de flores com \u00eddolos e paix\u00f5es com desconcertos. Mas a emo\u00e7\u00e3o e a raz\u00e3o s\u00e3o dois paradigmas existenciais.<br \/>\nTemos todos de reconhecer que a Rainha Isabel II foi uma personalidade de valor extraordin\u00e1rio, quer pela sua serenidade, quer pelo comportamento c\u00famplice com essa serenidade, sem perder raz\u00e3o na maneira como atravessava o desconcerto do mundo. Exerceu com dignidade e verticalidade o seu reinado, sabendo muito bem conjugar os tumultos emocionais e racionais.<br \/>\nCitarei alguns, poucos, dos muitos que haveria para citar.<br \/>\nAssumiu o trono quando o Reino-Unido tentava sarar as cicatrizes da Segunda Guerra Mundial, assistindo ao in\u00edcio de um mundo bipolar entre os Estados Unidos e a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, para, anos depois, assistir \u00e0 Queda do Muro de Berlim e ao fim dessa Guerra-Fria. Assistiu \u00e0 entrada do Reino-Unido na Uni\u00e3o Europeia e \u00e0 sua sa\u00edda do projecto Europeu. Assistiu ao in\u00edcio do conflito armado na Ucr\u00e2nia.<br \/>\nAo longo de setenta anos conheceu 14 presidentes norte-americanos, 16 primeiros ministros brit\u00e2nicos, desde Churchill a Liz Truss (a quem deu posse dois dias antes de morrer), 7 papas\u2026 e 9 presidentes portugueses.<br \/>\nFoi uma representante activa da sua Na\u00e7\u00e3o perante o Mundo e a Commonwealth, comunidade brit\u00e2nica composta por 56 pa\u00edses hoje independentes, mas que fizeram parte do Imp\u00e9rio Brit\u00e2nico. Foi extraordin\u00e1ria a forma como a Rainha lidou com essa separa\u00e7\u00e3o e a capacidade de conservar, atrav\u00e9s da Commonwealth, todas as rela\u00e7\u00f5es de proximidade e, talvez at\u00e9 mais importante, conservar o seu inter-relacionamento, a sua cultura e a mesma l\u00edngua. Durante toda a vida da Rainha, o desmoronar desse Imp\u00e9rio Brit\u00e2nico nunca beliscou os acordos nem a alma desses povos. \u00c9 que Isabel II nunca aspirou \u00e0 lideran\u00e7a de mudan\u00e7as, optando sempre por n\u00e3o criar muros e facilitar o caminho nas estradas.<br \/>\nE, para mim ainda mais definidor da sua personalidade, n\u00e3o posso deixar de dar relevo \u00e0 visita hist\u00f3rica de reconcilia\u00e7\u00e3o que fez \u00e0 Rep\u00fablica da Irlanda, sendo a primeira vez que um monarca brit\u00e2nico o fez desde a independ\u00eancia em 1922, onde expressou compaix\u00e3o pelas v\u00edtimas de uma hist\u00f3ria comum. Como n\u00e3o posso deixar de salientar a reputa\u00e7\u00e3o de devo\u00e7\u00e3o familiar s\u00f3bria, o que permitiu distanciar alguns dos problemas familiares por que passou (casos da irm\u00e3, Princesa Margarida, caso de Diana Spencer, as pol\u00e9micas de Harry e Meghan, e ainda outras situa\u00e7\u00f5es mais gravosas). Desaires de comportamentos de fam\u00edlia que, como acontece com todas as fam\u00edlias, tem v\u00edcios e virtudes humanas.<br \/>\nConcluo referindo que n\u00e3o \u00e9 preciso apoiar um regime para ter a lucidez da intelig\u00eancia e a for\u00e7a de quem est\u00e1 \u00e0 frente dele e saber que, acima de tudo, \u00e9 sempre um ser humano que est\u00e1 em causa no desempenho. E Isabel II teve essa lucidez. A lucidez de saber que a alternidade infinita do Outro emancipa as rela\u00e7\u00f5es de for\u00e7a e dos constrangimentos que muitas vezes emperram um conceito hist\u00f3rico.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maria Helena Teixeira<br \/>\nQu\u00edmica e escritora<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":206003,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[31,5],"tags":[10129,100],"class_list":["post-247025","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral","category-opiniao","tag-helena-teixeira","tag-opiniao"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/247025","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=247025"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/247025\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=247025"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=247025"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=247025"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}