{"id":247029,"date":"2022-10-01T13:56:42","date_gmt":"2022-10-01T12:56:42","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=247029"},"modified":"2022-10-01T13:56:42","modified_gmt":"2022-10-01T12:56:42","slug":"opiniao-sobre-o-falso-pacifismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/opiniao-sobre-o-falso-pacifismo\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o &#8211; Sobre o falso pacifismo"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/2020\/12\/opiniao-a-ignorancia-e-atrevida-e-perigosa\/rui-bebiano-opi\/\" rel=\"attachment wp-att-207224\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-207224 size-large\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/RUI-BEBIANO-opi-1024x536.jpg\" alt=\"\" width=\"650\" height=\"340\" \/><\/a><\/p>\n<p>Contava um meu professor que certo aluno, ao qual durante uma aula pedira que dissesse o que pensava sobre a<strong> fun\u00e7\u00e3o da guerra,<\/strong> teria afirmado<strong> odi\u00e1-la<\/strong>, pois sem ela n\u00e3o haveria <strong>hist\u00f3ria<\/strong> e n\u00e3o se veria for\u00e7ado a estudar uma <strong>disciplina<\/strong> que detestava. Apresentado de forma ing\u00e9nua, o que afirmou esse aluno vai no sentido da conhecida afirma\u00e7\u00e3o de Engels, deixada no seu \u00abAnti-D\u00fchring\u00bb, sobre ter sido a viol\u00eancia da guerra \u00aba parteira da hist\u00f3ria\u00bb. Isto \u00e9, a for\u00e7a din\u00e2mica indispens\u00e1vel e decisiva no longo trajeto das sociedades humanas. A ideia n\u00e3o traduz, por parte do amigo e colaborador de Marx, uma vontade de glorifica\u00e7\u00e3o do papel da guerra, mas t\u00e3o s\u00f3 a constata\u00e7\u00e3o de uma realidade: goste-se ou n\u00e3o dela, os avan\u00e7os e os recuos da hist\u00f3ria das sociedades humanas tiveram a guerra como constante cen\u00e1rio e decisivo fator de transforma\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAo mesmo tempo, esta realidade foi sempre acompanhada \u2013 por um elementar instinto de sobreviv\u00eancia ou pela express\u00e3o de convic\u00e7\u00f5es \u2013 de um desejo de paz. Todavia, ao longo de mil\u00e9nios este n\u00e3o passou de uma utopia, particularmente distante quando a vontade de conquista e de domina\u00e7\u00e3o era determinante para as grandes decis\u00f5es pol\u00edticas. Apenas no s\u00e9culo XVIII, com as ideias do abade de Saint-Pierre, autor em 1713 de um \u00abProjeto para Tornar a Paz Perp\u00e9tua na Europa\u00bb, come\u00e7ou a prever-se a hip\u00f3tese de um acordo entre os Estados europeus e a institui\u00e7\u00e3o de uma assembleia que resolvesse pacificamente os seus conflitos. A obra influenciaria Kant, que no tratado \u00abPara a Paz Perp\u00e9tua\u00bb, j\u00e1 de 1795, colocou a consci\u00eancia c\u00edvica dos indiv\u00edduos no centro do combate contra a guerra, inaugurando uma corrente de pensamento pacifista. Sabe-se como apenas a cria\u00e7\u00e3o da Sociedade das Na\u00e7\u00f5es, em 1919, permitiu concretizar a bela proposta de Saint-Pierre.<br \/>\nA tradi\u00e7\u00e3o do pacifismo \u00e9 longa, desenvolvendo-se como setor de opini\u00e3o a partir dos meados do s\u00e9culo XIX, n\u00e3o por um acaso com o crescimento dos Estados-na\u00e7\u00e3o e das suas iniciativas de expans\u00e3o armada, e tamb\u00e9m com o alastramento da instru\u00e7\u00e3o p\u00fablica e dos movimentos sociais. Por\u00e9m, ser\u00e1 apenas durante as d\u00e9cadas de 1970-1980, no contexto da afirma\u00e7\u00e3o das novas correntes ecologistas e de oposi\u00e7\u00e3o ao nuclear, que tomar\u00e1 a forma de corrente pol\u00edtica com o apoio de importantes setores, estando hoje muito presente em programas e combates que visam produzir sociedades mais justas.<br \/>\nNo entanto, o pacifismo n\u00e3o representa em si um bem. Por um lado, porque muitas vezes \u00e9 somente formal \u2013 o Conselho Mundial da Paz, criado em 1949 pela Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, destinava-se a apoiar um dos lados da Guerra Fria, enquanto parte do movimento pela paz no Vietname visava defender o regime de Han\u00f3i \u2013, por outro, porque muitas vezes ele imp\u00f5e escolhas que impedem um combate por causas justas, conduzindo \u00e0 instala\u00e7\u00e3o de uma \u00abpaz podre\u00bb assente em regimes de servid\u00e3o e dom\u00ednio. Era isto que visava Camus quando, em dezembro de 1957, no en\u00e9rgico e emotivo discurso proferido em Estocolmo quando ali recebeu o Nobel da Literatura, afirmou que \u00aba paz \u00e9 o maior dos bens, todavia ela n\u00e3o pode trazer consigo a servid\u00e3o\u00bb. O escritor, que tinha resistido ao nazismo, sabia do que falava quando referia aqueles que faziam equivaler paz e submiss\u00e3o. No contexto da guerra de invas\u00e3o da Ucr\u00e2nia \u2013 como no de outras, menos ruidosas, que continuam a assolar o mundo \u2013, \u00e9 f\u00e1cil perceber que, se a paz \u00e9 o \u00fanico caminho, de modo algum ela pode assentar na concilia\u00e7\u00e3o com o algoz. Aqueles que n\u00e3o sabem ou n\u00e3o querem distinguir qual o mal maior, proclamando desejos de \u00abpaz\u00bb que s\u00e3o de facto convites \u00e0 escravid\u00e3o, deveriam lembrar-se que se o nazismo n\u00e3o tivesse sido combatido, estabelecendo-se para o efeito alian\u00e7as impens\u00e1veis noutras alturas, viver\u00edamos ainda a aterradora \u00abpaz\u00bb desse \u00abReich de Mil Anos\u00bb proclamado por Adolf Hitler. O falso pacifismo que preconizam \u00e9 um instrumento de cumplicidade com o agressor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rui Bebiano<br \/>\nHistoriador, investigador do CES e autor<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":207224,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[31,5],"tags":[100,2305],"class_list":["post-247029","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral","category-opiniao","tag-opiniao","tag-rui-bebiano-historiador"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/247029","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=247029"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/247029\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=247029"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=247029"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=247029"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}