{"id":247264,"date":"2022-10-05T12:46:52","date_gmt":"2022-10-05T11:46:52","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=247264"},"modified":"2022-10-05T12:46:52","modified_gmt":"2022-10-05T11:46:52","slug":"opiniao-que-sistema-geral-de-saude-pretendemos-para-portugal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/opiniao-que-sistema-geral-de-saude-pretendemos-para-portugal\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o &#8211; Que sistema geral de sa\u00fade pretendemos para Portugal?"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/2022\/09\/opiniao-dia-mundial-das-lesoes-vertebromedulares-5-de-setembro\/luis-teixeira-5\/\" rel=\"attachment wp-att-245287\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-245287\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/LUIS-TEIXEIRA.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"628\" \/><\/a><\/p>\n<p>Artigo I: alterar pol\u00edticas de sa\u00fade e n\u00e3o apenas os ministros<br \/>\nA mudan\u00e7a de <strong>Ministro da Sa\u00fade<\/strong> \u00e9 bem vinda mas n\u00e3o chega. \u00c9 bem vinda porque Marta Temido manifestava j\u00e1 um enorme cansa\u00e7o e uma falta de determina\u00e7\u00e3o e vontade para por em pr\u00e1tica uma mudan\u00e7a que se imp\u00f5e no modelo de sa\u00fade em Portugal. Para al\u00e9m disso um ministro da Sa\u00fade tem que saber manter pontes de di\u00e1logo abertas com todos os intervenientes na \u00e1rea da Sa\u00fade e Marta Temido, infelizmente, fechou ao longo do seu mandato todas as portas do di\u00e1logo com m\u00e9dicos, enfermeiros, profissionais t\u00e9cnicos e at\u00e9 com os gestores hospitalares.<br \/>\nMas as mudan\u00e7as t\u00eam de ir mais longe do que a simples substitui\u00e7\u00e3o do titular da pasta da Sa\u00fade. O governo, os deputados da Assembleia da Rep\u00fablica, os portugueses em geral, t\u00eam de deixar de lado as suas teorias ideol\u00f3gicas e olhar de forma s\u00e9ria para o estado da sa\u00fade em Portugal. Se n\u00e3o o fizerem, v\u00e3o comprometer de forma irremedi\u00e1vel a presta\u00e7\u00e3o de cuidados de sa\u00fade em Portugal e aumentar a assimetria no acesso aos cuidados de sa\u00fade entre os portugueses. Este \u00e9 um tema que exige consensos e n\u00e3o diverg\u00eancias, exige um esfor\u00e7o de todos e uma vis\u00e3o mais alargada, menos centrada no umbigo ideol\u00f3gico de cada um.<br \/>\nO sistema de presta\u00e7\u00e3o de cuidados de sa\u00fade em Portugal est\u00e1 seriamente deficiente, e numa traject\u00f3ria de um decl\u00ednio preocupante. Na actualidade, exige-se um modelo de Sa\u00fade diferente para Portugal. Aquele que existe est\u00e1 desactualizado, e esgotou-se em si mesmo. N\u00e3o querer ver isto, \u00e9 n\u00e3o desejar melhorias.<br \/>\nNo in\u00edcio dos anos 70, Portugal apresentava indicadores socioecon\u00f3micos e de sa\u00fade muito desfavor\u00e1veis no contexto da Europa Ocidental, com elevad\u00edssimas taxas de mortalidade e com uma baixa esperan\u00e7a m\u00e9dia de vida. O sistema de sa\u00fade portugu\u00eas estava totalmente fragmentado e desarticulado: existiam alguns hospitais do Estado, uma rede de hospitais das Miseric\u00f3rdias, postos m\u00e9dicos dos Servi\u00e7os M\u00e9dico Sociais da Previd\u00eancia; m\u00e9dicos municipais; e um sector privado especialmente desenvolvido na \u00e1rea do ambulat\u00f3rio. A cria\u00e7\u00e3o do Sistema Nacional de Sa\u00fade por M\u00e1rio Mendes e Ant\u00f3nio Arnault nos anos 70 foi sem d\u00favida um dos momentos mais importantes da democracia portuguesa. O SNS procurou privilegiar as Unidades de Cuidados de Sa\u00fade Prim\u00e1rios (aposta que n\u00e3o teve qualquer seguimento a partir dos anos 90 ), reorganizou a rede de Cuidados Hospitalares, reestruturou e organizou as Carreiras M\u00e9dicas e de Enfermagem (estagnadas desde os anos 2000 ), e procurou regulamentar e fiscalizar a Medicina Privada e a venda de produtos farmac\u00eauticos. Durante anos foram evidentes os resultados positivos do SNS com uma melhoria enorme da mortalidade infantil, na mortalidade perinatal e na esperan\u00e7a de vida. Ningu\u00e9m pode portanto negar o relevante papel que o SNS teve na evolu\u00e7\u00e3o da sa\u00fade em Portugal nos anos 70 e 80, mas tamb\u00e9m ningu\u00e9m pode esquecer que passaram 50 anos e a realidade actual do pa\u00eds \u00e9 completamente diferente.<br \/>\nQuerer manter o mesmo modelo dos anos 70, em 2022 \u00e9 estar preso a princ\u00edpios ideol\u00f3gicos sem olhar \u00e0s necessidades reais dos portugueses na actualidade. O mundo mudou muito em 50 anos e Portugal n\u00e3o foi excep\u00e7\u00e3o sen\u00e3o vejamos:<br \/>\na) Os cuidados de sa\u00fade s\u00e3o hoje muito mais dispendiosos, fruto da enorme evolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica. O sistema de sa\u00fade portugu\u00eas, tal como os seus cong\u00e9neres europeus, tem-se defrontado com problemas de eventual insustentabilidade financeira, ou seja, com a possibilidade de, a prazo, n\u00e3o ser financeiramente suport\u00e1vel, a menos que sejam introduzidas medidas no seu funcionamento que conduzam ao abrandamento do ritmo de crescimento da despesa p\u00fablica com a sa\u00fade. O modelo de financiamento para a \u00e1rea da sa\u00fade n\u00e3o pode por isso ser o mesmo.<br \/>\nb) A popula\u00e7\u00e3o portuguesa, tal como as suas cong\u00e9neres europeias, est\u00e1 hoje muito envelhecida. O n\u00famero cada vez mais elevado de pessoas nos escal\u00f5es et\u00e1rios mais altos, aumenta a necessidade de recurso aos cuidados de sa\u00fade, nem sempre acompanhado da capacidade de resposta por parte das Unidades de Sa\u00fade, em particular pelos cuidados prim\u00e1rios de sa\u00fade.<br \/>\nc) Hoje, existe um n\u00famero elevado de Unidades Privadas de Sa\u00fade tecnologicamente muito bem equipadas, com enorme capacidade assistencial, com equipas m\u00e9dicas altamente especializadas e com idoneidade formativa reconhecida pela Ordem dos M\u00e9dicos. O setor privado de sa\u00fade encontra-se em pleno crescimento, englobando 127 hospitais privados, 11.600 camas de internamento, 40.000 colaboradores, 338.000 cirurgias, 1.927.000 epis\u00f3dios de urg\u00eancia, 8.482.200 consultas m\u00e9dicas, e gerando uma atividade de 2.050 milh\u00f5es de euros, segundo os dados da Associa\u00e7\u00e3o Portuguesa de Hospitaliza\u00e7\u00e3o Privada.<br \/>\nd) Em 1999, as consultas m\u00e9dicas privadas representavam apenas 15,6% do total de atendimentos m\u00e9dicos \u00e0 popula\u00e7\u00e3o enquanto, em 2019, atingiram os 37,3%. No mesmo sentido, havia 102 hospitais privados em Portugal no ano 1999, n\u00famero que cresceu para 127 em 2019. Observou-se tamb\u00e9m um crescimento significativo ao n\u00edvel do peso das cirurgias, que aumentou de 22,4% em 1999 para 29,8% em 2019, bem como dos internamentos, que tamb\u00e9m cresceram de 15,3% em 1999 para 24,1% em 2019, e o atendimento \u00e0s urg\u00eancias, que passou de 4,2% em 1999 para 17,3% em 2019 (dados Expresso, 2021 ).<br \/>\ne) Mais de 30% dos portugueses possui um plano ou seguro de sa\u00fade privado e estes n\u00fameros t\u00eam crescido a uma m\u00e9dia de 3% ao ano. Se se juntar aos 3,125 milh\u00f5es de benefici\u00e1rios de seguro de sa\u00fade os cerca de 1,2 milh\u00f5es de benefici\u00e1rios do subsistema ADSE, reservado aos funcion\u00e1rios do Estado e suas fam\u00edlias, o resultado \u00e9 que quase metade dos residentes em Portugal despende, al\u00e9m dos impostos, uma parte do seu rendimento dispon\u00edvel no setor da sa\u00fade privada ou social.<br \/>\nO primeiro estudo do Observat\u00f3rio de Sa\u00fade da Universidade Europeia ( 2022 ) revelou que cerca de 90% dos inquiridos considera muito importante o acesso aos cuidados de sa\u00fade, mas apenas 15% est\u00e3o muito satisfeitos com o acesso ao SNS.<br \/>\nGarantir a sustentabilidade financeira de um sistema geral de sa\u00fade \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o indispens\u00e1vel para a defesa do modelo social, solid\u00e1rio e universal, que se pretende. Manter o modelo actual do SNS, mais do que uma quest\u00e3o meramente or\u00e7amental, ou at\u00e9 apenas econ\u00f3mica, \u00e9 uma quest\u00e3o \u00e9tica, ou seja, se um sistema de sa\u00fade n\u00e3o for eficiente, jamais poder\u00e1 ser justo e flex\u00edvel. Este \u00e9 apenas o primeiro de v\u00e1rios artigos de opini\u00e3o que escreverei ao longo dos pr\u00f3ximos meses sobre esta tem\u00e1tica: que Sistema Geral de Sa\u00fade pretendemos para Portugal?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lu\u00eds Teixeira, M\u00e9dico \/ Director do Spine Center<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":245287,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[31,5],"tags":[2381,206,100],"class_list":["post-247264","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral","category-opiniao","tag-luis-teixeira","tag-ministro-da-saude","tag-opiniao"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/247264","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=247264"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/247264\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=247264"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=247264"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=247264"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}