{"id":247429,"date":"2022-10-08T12:40:03","date_gmt":"2022-10-08T11:40:03","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=247429"},"modified":"2022-10-08T12:40:03","modified_gmt":"2022-10-08T11:40:03","slug":"opiniao-de-novo-a-desgraca-alheia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/opiniao-de-novo-a-desgraca-alheia\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: De novo a desgra\u00e7a alheia"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/DIOGO-CABRITA-opi.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-207228\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/DIOGO-CABRITA-opi.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"628\" \/><\/a><\/p>\n<p>N\u00e3o me importava de n\u00e3o ser m\u00e9dico quando vejo o Ant\u00f3nio. Ele fala, de um modo pouco percept\u00edvel est\u00e1 consciente, responde ao est\u00edmulo verbal enquanto o corpo inerte, anquilosado de forma fetal, se enche das feridas da cama. N\u00e3o sei se \u00e9 a fam\u00edlia que exige que o salvem, n\u00e3o sei se \u00e9 a medicina encarni\u00e7ada que sente necessidade salv\u00edfica. Ant\u00f3nio \u00e9 uma desgra\u00e7a enquanto vida e \u00e9 a montra da inutilidade do SNS. Est\u00e1 vivo, sente dores e aparentemente deixou de se manifestar obnubilado naquela deformidade. Eu matava-o, porque se fosse ao contr\u00e1rio suplicava que me fizesse. Eu morro um pouco de o ver chegar de um lar para onde foi depois de um hospital onde o amputaram, onde o medicaram. A cama onde tem de ficar \u00e9 o seu espa\u00e7o dos horrores porque conduz \u00e0s escaras. N\u00e3o tenho servi\u00e7os que o melhorem . N\u00e3o tenho solu\u00e7\u00f5es de internamento porque cada dia h\u00e1 menos camas. Tenho cuidados continuados amputados de in\u00fameras fun\u00e7\u00f5es para serem lugares sem terap\u00eauticas com agulhas. Cuidados continuados na fronteira da fal\u00eancia de cuidados por falta de pessoal qualificado, por falta de capacidade financeira, por gest\u00e3o med\u00edocre tamb\u00e9m. Tenho fam\u00edlias limitad\u00edssimas nos seus or\u00e7amentos e ele tem uma reforma m\u00ednima. H\u00e1 fins carregados de indignidade. Se ele sente, est\u00e1 h\u00e1 meses a passar o que nem Jesus a caminho da cruz. O rid\u00edculo e o caricato \u00e9 ter na sua tabela terap\u00eautica medicamentos para prevenir a aterosclerose, para prevenir o enfarte do mioc\u00e1rdio, para corrigir a diabetes. S\u00e3o os protocolos da insanidade mental a que chegou a medicina. H\u00e1 fam\u00edlias igualmente insanas que pedem pela sua vida quando a morte est\u00e1 ali mesmo a chamar pelo rega\u00e7o e o conforto. Ser m\u00e9dico n\u00e3o \u00e9 impedir a morte! Ser m\u00e9dico n\u00e3o \u00e9 cumprir protocolos e seguir orienta\u00e7\u00f5es.<br \/>\nSe fosse um can\u00eddeo havia gente ferida e zangada a escrever no facebook. Dentro de uns anos os c\u00e3es e gatos passar\u00e3o pelo mesmo, insanamente em quimioterapias, em cuidados salv\u00edficos, que podiam tirar a fome a milhares de crian\u00e7as, impedidos de se enroscar num lugar ermo e morrer em paz. Aqui Ant\u00f3nio est\u00e1 s\u00f3, im\u00f3vel numa cama sem colch\u00e3o anti escaras, sem apoios para o conforto, e sem vislumbrar o fim porque anda gente atenta a impedir a sua partida. N\u00e3o quero que me chamem m\u00e9dico assim. Queria capacidades de ac\u00e7\u00e3o, circuitos de dignidade para estes morreres lentos, mas que podiam ser aconchegados, apoiados. O SNS n\u00e3o responde \u00e0 sa\u00fade oral, responde com grande defici\u00eancia \u00e0 sa\u00fade mental, est\u00e1 amputado de capacidade nos paliativos, mas distribui preven\u00e7\u00e3o medicamentosa e quatro doses de vacina ao Ant\u00f3nio que mesmo inerte contribui para a fortuna das farmac\u00eauticas. A insanidade mental e a incapacidade cr\u00edtica envergonham-me como cl\u00ednico, tamb\u00e9m como pol\u00edtico, tamb\u00e9m como cidad\u00e3o e talvez por essa raz\u00e3o esteja a chegar o tempo de deixar esse mundo. O ciclo de vida de quem est\u00e1 inadaptado, quem n\u00e3o compreende a evolu\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m n\u00f3s temos um limite para o sofrimento alheio. Quando vejo o Ant\u00f3nio ocorre-me: antes enforcado que tal sorte.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Diogo Cabrita<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":207228,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[31,5],"tags":[548,100],"class_list":["post-247429","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral","category-opiniao","tag-diogo-cabrita","tag-opiniao"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/247429","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=247429"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/247429\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=247429"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=247429"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=247429"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}