{"id":247518,"date":"2022-10-10T11:40:23","date_gmt":"2022-10-10T10:40:23","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=247518"},"modified":"2022-10-10T11:40:23","modified_gmt":"2022-10-10T10:40:23","slug":"opiniao-o-sagrado-e-o-profano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/opiniao-o-sagrado-e-o-profano\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: O Sagrado e o Profano"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Pio-Abreu-opi.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-208713 size-full\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Pio-Abreu-opi.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"628\" \/><\/a><\/p>\n<p>Mircea Eliade foi um dos mais not\u00e1veis historiadores das religi\u00f5es que, em 1958, escreveu um livro decisivo: O Sagrado e o Profano &#8211; A Natureza da Religi\u00e3o. Embora ele se baseie na experi\u00eancia comum do homem religioso, seja qual for a religi\u00e3o que professe, contrasta-a exuberantemente com a experi\u00eancia do homem n\u00e3o religioso. A experi\u00eancia sagrada e a experi\u00eancia profana s\u00e3o os dois polos da exist\u00eancia humana, e aqui nos distinguimos dos outros animais. O homem das civiliza\u00e7\u00f5es arcaicas e o homem moderno constituem os dois exemplos limites dessa experi\u00eancia.<br \/>\nA experi\u00eancia religiosa do homem arcaico manifesta-se atrav\u00e9s da \u201chierofania\u201d: uma revela\u00e7\u00e2o que pode transformar uma pedra banal numa pedra sagrada. Ela permanece uma pedra banal, mas adquire, atrav\u00e9s da hierofania, um significado transcendente. Assim, o espa\u00e7o, que \u00e9 homog\u00e9neo para o homem n\u00e3o religioso, transforma-se num espa\u00e7o heterog\u00e9neo onde, um local ou evento sagrado, distinguindo-se de todos os outros, obt\u00e9m um significado e aponta uma direc\u00e7\u00e3o. O sagrado revela-se ainda na constru\u00e7\u00e3o de edif\u00edcios, a come\u00e7ar pelas igrejas, onde a base recebe os fi\u00e9is, mas as torres, acima dos altares, elevam-se para os c\u00e9us e se ligam a eles. Numa simples habita\u00e7\u00e3o, a lareira, \u00e0 volta da qual se pode reunir a fam\u00edlia, corresponde ao altar, e a chamin\u00e9, em comunica\u00e7\u00e3o com o c\u00e9u, corresponde \u00e0s torres. Assim, podemos encontrar, mesmo no espa\u00e7o profano, res\u00edduos do espa\u00e7o religioso. Muitas vezes, a dimens\u00e3o religiosa transforma-se em dimens\u00e3o est\u00e9tica.<br \/>\nDo mesmo modo que o espa\u00e7o, tamb\u00e9m o tempo \u00e9 homog\u00e9neo e linear para a experi\u00eancia profana, mas heterog\u00e9neo para a experi\u00eancia religiosa. Em O Mito do Eterno Retorno, escrito em 1954, Mircea Eliade considera o tempo c\u00edclico, repet\u00edvel e marcado pelas celebra\u00e7\u00f5es religiosas, durante os solst\u00edcios e equin\u00f3cios, marcadas por comportamentos ritual\u00edsticos, por vezes com sacrif\u00edcios, que visitam o sagrado e conferem aos fi\u00e9is o refor\u00e7o da sua F\u00e9. Assim, eles ficam capazes de viver as incertezas do tempo profano porque s\u00e3o alimentados por uma esperan\u00e7a renovada e renov\u00e1vel em cada ciclo. Ter\u00e3o sempre a certeza que ao Outono e Inverno, com o cair das folhas, se seguir\u00e1 a Primavera e o Ver\u00e3o, com o nascer e a exuber\u00e2ncia das flores e frutos, tal como \u00e0 noite se segue a madrugada. No mundo agr\u00edcola, estas certezas eram decisivas, fazendo os homens acompanhar o ritmo da natureza.<br \/>\nHoje, a maioria da popula\u00e7\u00e3o vive em metr\u00f3poles urbanas onde o dia pode n\u00e3o se distinguir da noite, as oscila\u00e7\u00f5es do clima s\u00e3o minimizadas, a morte e o sofrimento, bem como o pr\u00f3prio nascimento, s\u00e3o escondidos nos hospitais, e tudo parece correr linear e homogeneamente. Nas metr\u00f3poles urbanas abundam festividades e celebra\u00e7\u00f5es, onde os altares foram sustitu\u00eddos pelos palcos, mas perderam o seu car\u00e1cter c\u00edclico. Ocorrem apenas ao sabor das oportunidades ou da disponibilidade dos novos sacerdotes que preenchem os diversos palcos.<br \/>\nQuanto ao tempo c\u00edclico, \u00e9 poss\u00edvel que muitos fiquem reduzidos \u00e0 sucess\u00e3o do dia e da noite, naturalmente preenchido pelos seus pr\u00f3prios rituais &#8211; agora incluindo contactos \u00e0 dist\u00e2ncia e virtuais &#8211; sem os quais n\u00e3o saberiam viver.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Opini\u00e3o de Pio Abreu<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":208713,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[31,5],"tags":[100,102],"class_list":["post-247518","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral","category-opiniao","tag-opiniao","tag-pio-abreu"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/247518","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=247518"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/247518\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=247518"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=247518"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=247518"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}