{"id":248426,"date":"2022-10-22T13:48:47","date_gmt":"2022-10-22T12:48:47","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=248426"},"modified":"2022-10-22T13:48:47","modified_gmt":"2022-10-22T12:48:47","slug":"opiniao-gefac-a-chamarrita-e-o-mundo-inteiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/opiniao-gefac-a-chamarrita-e-o-mundo-inteiro\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: GEFAC &#8211; A chamarrita \u00e9 o mundo inteiro"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Manuel-Rocha-opi.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-209691 \" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Manuel-Rocha-opi-1024x536.jpg\" alt=\"\" width=\"619\" height=\"324\" \/><\/a><\/p>\n<p>Sentia-se um leve sotaque na fala daquele jovem que, logo no in\u00edcio do espect\u00e1culo, rompia no palco da Cerca de S\u00e3o Bernardo. Dizia palavras de cancioneiro, daquelas em que um povo se identifica no que diz \u2013 brados do dia-a-dia, curtos nadas que s\u00e3o sinais de modos de ser, de modos de viver. A trama, entre palavras, dan\u00e7as e cantigas, viria a ser uma renovada aventura de palco em que o grupo que ali se apresentava ao p\u00fablico \u2013 o GEFAC \u2013 se identificava no que faz.<\/p>\n<p>\u201cEu j\u00e1 n\u00e3o sei bem como e quando entrei no GEFAC. Sei que entrei depois de o GEFAC me ter encontrado na Feira da Criatividade, no in\u00edcio do ano lectivo. Vi de longe o cartaz de um grupo de etnografia e folclore. Associei-o logo, gra\u00e7as aos meus preconceitos com o folclorismo, \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o de algo que j\u00e1 n\u00e3o existe. Acabei por falar com dois elementos do grupo e a conversa (e hoje posso dizer os ensaios que se seguiram) foram desmistificando as ideias que outrora constru\u00ed. Apercebi-me desta minha envolv\u00eancia no GEFAC no momento em que comecei a partilhar esta experi\u00eancia com aqueles que n\u00e3o a viviam.<\/p>\n<p>Estava metido num grande sarilho! Fui-me dando de conta de que, ao fim ao cabo, o GEFAC me conseguiu integrar em Coimbra, e que aos poucos se foi tornando muito importante para mim. A etnografia e o folclore foram-se juntando \u00e0 amizade e ao bom ambiente, que foi a principal raz\u00e3o para entrar no grupo\u201d.<\/p>\n<p>Este \u00e9 o depoimento de Ju\u0161, vertido num livro que recolhe depoimentos e passos da vida do Grupo de Etnografia e Folclore da Academia de Coimbra, o tal mo\u00e7o que pisava o palco em nome do povo de quem aprendeu dan\u00e7as e cantigas, lendas e dizeres.<\/p>\n<p>As palavras do jovem nascido e criado na Eslov\u00e9nia s\u00e3o de partilha de condi\u00e7\u00e3o, mas s\u00e3o mais \u2013 s\u00e3o a prova de que a integra\u00e7\u00e3o numa comunidade pelo lado da experi\u00eancia est\u00e9tica, da partilha cultural, acaba por ser o principal mecanismo de constru\u00e7\u00e3o de mundo. N\u00e3o \u00e9 coisa que eu desconhe\u00e7a. Posto em Moscovo nos anos de 1980, tenho por mem\u00f3ria inicial de integra\u00e7\u00e3o, num espa\u00e7o-longe-de-mim, a participa\u00e7\u00e3o num \u201ckapustnik\u201d da escola onde viria a estudar \u2013 uma celebra\u00e7\u00e3o festiva estudantil em que a s\u00e1tira encenada era, ao mesmo tempo, olhar cr\u00edtico sobre a realidade e integra\u00e7\u00e3o naquela comunidade. O estrangeiro (eu) que ali \u201cgozou\u201d com as asperezas daquela terra, viria a consider\u00e1-la sua pelo resto dos dias que lhe venham a caber.<\/p>\n<p>No dia em que Ju\u0161 contar aos seus netos a aventura da \u201cintegra\u00e7\u00e3o\u201d na Academia de Coimbra, nada saber\u00e1 dizer sobre ajuntamentos de jovens ajoelhados repetindo pat\u00e9ticas declara\u00e7\u00f5es de obedi\u00eancia. Nem recordar\u00e1 o arremesso de um carrinho de supermercado ao Mondego enquanto ponto alto de uma irrever\u00eancia balofa curada nas urg\u00eancias dos HUC e nada mais. E nem por isso Ju\u0161 ter\u00e1 dispensado os desvarios da festa, o prov\u00e1vel exagero et\u00edlico nas noites de cumplicidade juvenil, o vaguear nesta cidade am\u00e1vel em que a Pra\u00e7a da Rep\u00fablica \u00e9 o ponto de encontro natural \u2013 pra\u00e7a de converg\u00eancia da gente em que as velhas urbes se afirmavam lugar comunit\u00e1rio.<\/p>\n<p>O lugar de humanidade por que Coimbra responde deve muito GEFAC \u2013 perdoai a imod\u00e9stia. Mas h\u00e1 qualquer coisa de met\u00e1fora universalista num colectivo em que uma identidade nacional se constr\u00f3i pelos olhares, os sotaques, os modos de pisar uma Chula por quem aqui n\u00e3o nasceu nem cresceu, mas \u00e9 chamado a somar \u00e0 \u201ctradi\u00e7\u00e3o\u201d o ponto que lhe acrescenta quem, conquistado, conta o conto. Diz o Ju\u0161: \u201cO GEFAC fez com que eu repensasse e redefinisse os significados que a tradi\u00e7\u00e3o tem para mim. Ao encontrar o GEFAC, passei a ter contacto com as tradi\u00e7\u00f5es portuguesas e, ironicamente, passei a conhec\u00ea-las mais do que \u00e0s tradi\u00e7\u00f5es do meu pa\u00eds. Ao fim ao cabo, sinto que este pa\u00eds estrangeiro se vai tornando cada vez mais conhecido. E meu\u201d.<\/p>\n<p>Nestes dias em que o GEFAC celebra anivers\u00e1rio, o \u201cPingacho\u201d canta-se (e dan\u00e7a-se) em Portugal, Espanha, Fran\u00e7a, It\u00e1lia, B\u00e9lgica, Alemanha, Pol\u00f3nia, Eslov\u00e9nia, Turquia, Gr\u00e9cia, Ir\u00e3o, Brasil, Argentina, Jap\u00e3o, Rep\u00fablica Checa, Reino Unido e noutros lados da Terra. O desafio, afinal, n\u00e3o \u00e9 \u201cdar novos mundos ao mundo\u201d. \u00c9 saber acolher na velha dan\u00e7a mirandesa os sotaques que a queiram bailar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sentia-se um leve sotaque na fala daquele jovem que, logo no in\u00edcio do espect\u00e1culo, rompia no palco da Cerca de S\u00e3o Bernardo. 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