{"id":248910,"date":"2022-10-28T10:53:13","date_gmt":"2022-10-28T09:53:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=248910"},"modified":"2022-10-28T10:53:13","modified_gmt":"2022-10-28T09:53:13","slug":"opiniao-este-pais-nao-e-para-velhos-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/opiniao-este-pais-nao-e-para-velhos-2\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: &#8220;Este pa\u00eds n\u00e3o \u00e9 para velhos&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/BRUNO-PAIXAO-opi-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-248923 size-large aligncenter\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/BRUNO-PAIXAO-opi-1-1024x536.jpg\" alt=\"\" width=\"650\" height=\"340\" \/><\/a><\/p>\n<p>Esta\u00e7\u00e3o de Coimbra-B. Outono de 2019. O altifalante anunciava, em tom perfurado, o atraso do intercidades com destino a Lisboa. Os semblantes bocejaram a contrariedade. Malas pousadas no ch\u00e3o, o quiosque cercou-se de mirones. Os p\u00e9s destinaram carreiros para c\u00e1 e para l\u00e1. No desperd\u00edcio de passos, vagou um lugar no banco da esta\u00e7\u00e3o, junto \u00e0 linha, onde pude sentar-me para ler.<br \/>\nDeitei a m\u00e3o \u00e0 mochila, inclinei as vistas mas levantei-as de novo, aproximando os olhos do homem sentado no banco ao lado do meu. Com ar pl\u00e1cido e imperturb\u00e1vel, acompanhado por tr\u00eas pessoas, o nonagen\u00e1rio mantinha com eleg\u00e2ncia a paci\u00eancia de saber esperar. O homem velho n\u00e3o tinha pressa. N\u00e3o precisava dela. Era-lhe indiferente. Notou os meus olhos em si. Acenou-me com a cabe\u00e7a num cumprimento af\u00e1vel. Correspondi com alegria. Afinal, n\u00e3o era todos os dias que se estava perante um dos mais destacados intelectuais portugueses, o fil\u00f3sofo e ensa\u00edsta Eduardo Louren\u00e7o, autor de mais de quarenta livros, condecorado v\u00e1rias vezes e distinguido com o Pr\u00e9mio Pessoa, o Pr\u00e9mio Cam\u00f5es, entre outros.<br \/>\nO comboio havia de chegar da\u00ed a um bocado. Ele levantou-se sem esfor\u00e7o, segurou na sua mala e voltou-se para mim, desejando-me uma boa viagem. No inverno do ano seguinte, a televis\u00e3o noticiava a sua partida, sem comboio, sem atraso, sem cumprimentos. Eduardo Louren\u00e7o pensou, escreveu, viveu, at\u00e9 aos 97 anos.<br \/>\n<strong>Esta semana partiu Adriano Moreira. Um homem incompreendido por uns, envenenados pela diferen\u00e7a ideol\u00f3gica; admirado por tantos. Algu\u00e9m disse que nunca se \u00e9 apenas uma coisa. Adriano foi muitas coisas. Levou consigo cem anos de vida. Deixou-nos tanto. Para os seus ficam os afetos e as mem\u00f3rias, as mem\u00f3rias de Adriano.<\/strong><br \/>\nNeste mesmo m\u00eas de outubro, a escritora Agustina Bessa-Lu\u00eds faria cem anos. As suas m\u00e3os quebraram aos 96. H\u00e1 uns dias, M\u00e1rio Cl\u00e1udio escreveu assim: \u201cQuerida Agustina, nestes dias em que anda a fazer cem anos, s\u00e3o muitos os que me pedem que escreva e fale sobre si. Tenho-lhes dito o que devia, mas tamb\u00e9m o que n\u00e3o deveria, dizer-lhes. Um grande beijo de parab\u00e9ns, e olhe que s\u00e3o poucos os que chegam \u00e0 sua idade, t\u00e3o vivos, e com tanto futuro pela frente\u201d. Autora de uma f\u00e9rtil obra liter\u00e1ria, Agustina viu alguns dos seus romances serem adaptados ao cinema pelo realizador Manoel de Oliveira, seu amigo. Para este, que teve a carreira mais longa da s\u00e9tima arte, a claquete baixou pela \u00faltima vez aos 106 anos, sob o desfecho do seu The End.<br \/>\nPod\u00edamos falar de v\u00e1rias outras figuras que pontificaram com a sua longevidade uma vida de exemplos e dedica\u00e7\u00e3o. O arquiteto brasileiro \u00d3scar Niemeyer, que desenhou o adeus aos 105 anos, Eunice Mun\u00f5z, que representou a \u00faltima cena aos 93, a rainha Isabel II, que representou os (seus) s\u00fabditos at\u00e9 aos 96 anos. E muitos mais.<br \/>\nTalvez estes sejam casos excecionais. Quando esta semana conversava com uma pessoa amiga que me comunicou a sua aposenta\u00e7\u00e3o, notei alguma tristeza e nostalgia. N\u00e3o pela promissora vida que a espera daqui em diante. Mas pelo desaproveitamento que o Estado fez do seu conhecimento acumulado, da sua experi\u00eancia, da sua disponibilidade para passar informa\u00e7\u00e3o aos que lhe sucedem, dos ensinamentos, do testemunho.<br \/>\n<strong>Reforcei a convic\u00e7\u00e3o de que o Estado (ou seja, n\u00f3s), afinal, n\u00e3o estamos preparados para respeitar os mais velhos, para acomodarmos a sua longa validade, para planearmos o seu contributo. Isto sim, seria um salto civilizacional. Em vez disso, tratam-nos como um n\u00famero, carimbam-lhe o papel e enviam-nos para casa<\/strong>.<\/p>\n<p><em>Pode ler a opini\u00e3o na edi\u00e7\u00e3o impressa e digital do DI\u00c1RIO AS BEIRAS<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Opini\u00e3o do investigador em comunica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, Bruno Paix\u00e3o. &#8220;Esta semana partiu Adriano Moreira. Um homem incompreendido por uns, envenenados pela diferen\u00e7a ideol\u00f3gica; admirado por tantos. Algu\u00e9m disse que nunca se \u00e9 apenas uma coisa. Adriano foi muitas coisas&#8221;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":248923,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[31,5],"tags":[455,546,454],"class_list":["post-248910","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral","category-opiniao","tag-bruno-paixao","tag-investigador","tag-politica"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/248910","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=248910"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/248910\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=248910"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=248910"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=248910"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}