{"id":249565,"date":"2022-11-07T16:00:37","date_gmt":"2022-11-07T15:00:37","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=249565"},"modified":"2022-11-07T16:00:37","modified_gmt":"2022-11-07T15:00:37","slug":"opiniao-o-espaco-e-o-tempo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/opiniao-o-espaco-e-o-tempo\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: O espa\u00e7o e o tempo"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/Pio-Abreu-opi.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-249553 size-full\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/Pio-Abreu-opi.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"628\" \/><\/a><\/p>\n<p>Aquiles, na sua correria, persegue a vagarosa tartaruga que se desloca \u00e0 sua frente. Mas quando ele chega ao lugar onde estava a tartaruga, j\u00e1 esta se deslocou um pouco mais para a frente, e Aquiles tem de continuar a persegui-la. Assim acontecer\u00e1 da pr\u00f3xima vez que Aquiles chegar ao lugar onde antes estava a tartaruga, e da vez seguinte, e de todas as outras vezes at\u00e9 ao infinito. Conclus\u00e3o: Aquiles nunca ultrapassar\u00e1 a tartaruga.<br \/>\nEste \u00e9 um dos paradoxos de Zen\u00e3o que, desde Arist\u00f3teles, persegue a Filosofia. Coloca-nos em quest\u00e3o a no\u00e7\u00e3o mais vulgar do tempo, aquele que medimos pelo movimento dos ponteiros de um rel\u00f3gio. Neste caso, por\u00e9m, existe sempre uma espacializa\u00e7\u00e3o do tempo. O mostrador do rel\u00f3gio n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o um espa\u00e7o percorrido pelos ponteiros, cuja posi\u00e7\u00e3o comparamos com as anteriores, guardadas num espa\u00e7o auxiliar que entretanto memoriz\u00e1mos. Esse \u00e9 o espa\u00e7o cartesiano que junta num gr\u00e1fico os dados quantitativos e as divis\u00f5es temporais. Descartes, com os seus Discurso do M\u00e9todo e Princ\u00edpios de Prima Filosofia, fundou a modernidade e a possibilidade da Ci\u00eancia. Mas o pre\u00e7o foi colocar o tempo indivis\u00edvel no espa\u00e7o divis\u00edvel.<br \/>\nQualquer pessoa, sem saber de l\u00f3gica nem ter forma\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, saber\u00e1 que Aquiles vai ultrapassar a tartaruga. Mas, para o saber, \u00e9 preciso ter uma no\u00e7\u00e3o intuitiva do tempo. Um tempo que n\u00e3o se divida nem se coloque no espa\u00e7o. \u00c9 um tempo cont\u00ednuo, como explicou Henri Bergson, outro fil\u00f3sofo franc\u00eas que, no in\u00edcio do S\u00e9culo XX, publicou tr\u00eas livros decisivos: Ensaio sobre os Dados Imediatos da Consci\u00eancia, Evolu\u00e7\u00e3o Criadora e Mat\u00e9ria e Mem\u00f3ria.<br \/>\nPara Bergson, existe na Filosofia \u201cuma confus\u00e3o entre a dura\u00e7\u00e3o e a extens\u00e3o, a sucess\u00e3o e a simultaneidade, a qualidade e a quantidade\u201d, ou seja, confundem-se as categorias ligadas ao tempo com aquelas que se ligam ao espa\u00e7o. Vejamos: a sucess\u00e3o \u00e9 temporal, a simultaneidade \u00e9 espacial. Assim, do mesmo modo que se tem considerado o tempo como a desloca\u00e7\u00e3o no espa\u00e7o (ou seja, o movimento), tamb\u00e9m se pode considerar o espa\u00e7o derivado do tempo. Por exemplo, se eu tiver agora os p\u00e9s de uma cadeira, que retiro depois e os substituo pelo tampo, e depois pelas costas, nunca terei aqui uma cadeira. S\u00f3 a terei quando os p\u00e9s, tampo e costas se dispuserem simult\u00e2nea e articuladamente. Por sorte, o carpinteiro, ao fazer a cadeira, tratou de colar ou aparafusar as diversas pe\u00e7as para que se apresentem sempre em simult\u00e2neo.<br \/>\nA ideia de que o tempo era limitado pela velocidade da luz (exposta por Einstein mas contestada por Bergson, que n\u00e3o teve o apoio da comunidade cient\u00edfica de ent\u00e3o), foi agora posta em causa pela F\u00edsica Qu\u00e2ntica, o que deu origem ao Pr\u00e9mio N\u00f3bel deste ano. Talvez no futuro possamos ver o tempo como dado primordial, de onde se derivou o espa\u00e7o, necess\u00e1rio ao desenvolvimento da nossa intelig\u00eancia, mas que pode contrariar a simples intui\u00e7\u00e3o, como mostra a corrida entre Aquiles e a tartaruga e os outros paradoxos de Zen\u00e3o. Mas \u00e9 poss\u00edvel que se desvendem os mist\u00e9rios da F\u00edsica Qu\u00e2ntica, da mente e da vida. A evolu\u00e7\u00e3o do corpo material ao longo do tempo n\u00e3o ser\u00e1 a pr\u00f3pria vida? E n\u00e3o ser\u00e1 a mente o devir dos estados cerebrais pelo tempo fora?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pio Abreu<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":249553,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[31,5],"tags":[100,102],"class_list":["post-249565","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral","category-opiniao","tag-opiniao","tag-pio-abreu"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/249565","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=249565"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/249565\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=249565"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=249565"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=249565"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}